O ponto central do comunicado é a entrada da Advent. Por meio de um fundo de investimento, a gestora firmou compromisso vinculante com os blocos de acionistas da Natura para adquirir no mercado secundário uma participação entre 8% e 10% do capital social da companhia. A operação deverá ser concluída em até seis meses, com preço-alvo médio de R$ 9,75 por ação. Ao atingir essa participação, a Advent poderá indicar dois membros adicionais para o conselho de administração e participar de comitês de assessoramento do colegiado.
Na frente de governança, os fundadores Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos deixarão o conselho de administração após a Assembleia Geral Ordinária e Extraordinária (AGOE) de 2026 e migrarão para um novo conselho consultivo, órgão estatutário sem funções executivas, poder de decisão nem autoridade para representar a empresa. Fábio Barbosa, que liderou o processo de simplificação corporativa da companhia, também deixará o conselho deliberativo e passará a integrar o consultivo.
O conselho de administração será integralmente recomposto para um mandato de dois anos a partir da AGOE. A chapa proposta pela administração prevê a permanência de Duda Kertesz, João Paulo Ferreira – atual CEO – e Alessandro Carlucci, que também assumirá a presidência do conselho. Integrarão ainda o colegiado, Pedro Villares, Guilherme Passos, Luiz Guerra, Flávia Almeida e Gabriela Comazzetto. Bruno Rocha e Gilberto Mifano deixarão o conselho, embora Mifano permaneça como líder do comitê de auditoria e finanças.
A visão do mercado sobre as mudanças
Para analistas da Ágora Investimentos e do Bradesco BBI, as mudanças foram positivas de forma geral. Os especialistas, que têm recomendação de compra para a ação com preço-alvo de R$ 17, pontuam que o preço médio da oferta proposta de R$ 9,75 pode estabelecer um piso de avaliação para as ações nos próximos meses.
Flávia Meireles, da Ágora, e Pedro Pinto, do BBI, avaliam que a possível entrada da Advent pode remodelar ou aprimorar o senso de responsabilidade e propriedade na Natura, o que, com o tempo, pode se traduzir em melhor execução, eficiência operacional e retornos. “Consideramos a proposta de reformulação do conselho, juntamente com a mentalidade estratégica da ‘nova fase’, um desenvolvimento construtivo”, acrescentam.
O Santander, por sua vez, acredita que os anúncios estão alinhados com a fase atual da companhia, que sai de um período de reestruturação e otimização estrutural para um momento voltado a oportunidades de crescimento. No entanto, o banco avalia que os próximos passos da Natura não representam uma mudança estratégica, mas sim uma continuidade do que foi apresentado no Investor Day de 2025.
O Santander mantém recomendação neutra para a Natura com preço-alvo de R$ 9,7 devido às incertezas quanto à retomada de ganho de participação de mercado e ao fortalecimento das vendas nas diferentes divisões.
Já o BTG Pactual vê a entrada da Advent como uma validação da tese de investimento da empresa após a reestruturação, especialmente no momento em que a companhia encerra um ciclo de transformação de vários anos, marcado por venda de ativos, simplificação operacional e recuperação de margens.
No entanto, o banco destaca que a transação não elimina os riscos de execução. “A Natura ainda enfrenta desafios para retomar o crescimento de receita, estabilizar sua base de consultoras e entregar rentabilidade consistente após anos de volatilidade. Embora o investimento da Advent possa funcionar como um catalisador de curto prazo para o sentimento e a valorização das ações, uma reprecificação sustentada dependerá da execução operacional, especialmente da expansão de margens e da recuperação das receitas”, diz.
De forma geral, o BTG enxerga o negócio como um ponto de inflexão positivo, mas ainda não como uma redução completa dos riscos da tese de investimento. O banco tem recomendação neutra para a Natura com preço-alvo de R$ 12.