

Com o slogan “Make America Wealthy Again” (Faça a América Rica Novamente), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, na tarde desta quarta-feira (2), tarifas de reciprocidade contra países que taxam produtos dos EUA. A medida, chamada por ele de “declaração de independência econômica”, acendeu alerta nos mercados.
Trump anunciou uma tarifa mínima de 10% para alguns países, com alíquotas “recíprocas”, ou seja, equivalentes à metade da média que cada nação cobra sobre produtos dos EUA. Apesar do tom inicial mais brando, os números surpreenderam. A China recebeu 32% e o Brasil, 10%, por exemplo. A dúvida agora é se essas novas tarifas dos EUA vão se somar a outras já em vigor, como as de aço e alumínio.
Após a divulgação dos números, as bolsas caíram e os juros recuaram no exterior, demonstrando que o anúncio foi mais agressivo do que o mercado esperava. “A nosso ver, esse anúncio das tarifas de Trump marca o início de uma nova rodada de negociações, com possíveis concessões surgindo nas próximas semanas”, avalia Marcos Freitas, analista macroeconômico da AF Invest. “Durante as próximas semanas a gente vai ver uma série de negociações com os países, principalmente os mais afetados, principalmente com 32% para a China e 20% para a União Europeia“, complementa.
Publicidade
Invista em oportunidades que combinam com seus objetivos. Faça seu cadastro na Ágora Investimentos
Especialistas americanos temem danos globais maiores que os da crise tarifária de 193o. Naquele ano, a Lei Smoot-Hawley elevou tarifas de importação sobre mais de 20 mil produtos para proteger a economia durante a Grande Depressão, mas, em vez de ajudar, a medida desencadeou retaliações de outros países
Hoje, as importações representam 15% do PIB do país — cinco vezes mais que em 1930, o que amplia o impacto de medidas protecionistas. No Brasil, analistas veem risco de queda nas exportações e valorização do dólar, com efeitos sobre inflação e juros. Algumas análises dão conta de que o governo brasileiro, por ora, vem adotando um tom cauteloso. Leia a seguir o que dizem os especialistas.
Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset
“De forma geral, Trump cumpriu o que vinha sinalizando: impôs uma tarifa mínima de 10% para todos, inclusive o Brasil, e alíquotas mais altas para países como China e União Europeia. Do ponto de vista macroeconômico, caso o processo parasse por aqui, o impacto seria inflacionário — com aumento de custos e redução nas transações comerciais, afetando o crescimento global. No entanto, o cenário ainda está em formação e dependerá das reações dos países atingidos. Se houver negociações para reduzir tarifas, os EUA podem até sair beneficiados. Mas, se houver escalada, o resultado tende a ser negativo para todos. No caso do Brasil, embora haja impacto, o País foi relativamente poupado, com tributação leve e inclusão na regra geral — o que torna o efeito negativo mais brando no comparativo global.”
Bruno Fratelli, Journey Capital
“O impacto direto sobre o crescimento doméstico brasileiro tende a ser modesto. No entanto, os efeitos indiretos podem ser mais relevantes. China e Zona do Euro — dois dos maiores parceiros comerciais do Brasil — sofrerão tarifas mais elevadas, de 34% e 20%, respectivamente. Isso deve desacelerar suas economias, afetando negativamente a demanda por exportações brasileiras. Em resumo, o cenário mais concreto é de menor crescimento global.”
Alexandre Dellamura, Melver
“Em se falando de investimentos, as taxas para produtos de renda fixa atrelados à inflação e prefixados, como Tesouro IPCA e Tesouro Prefixado, podem aumentar. Em momentos de tensão externa, os investidores tendem a exigir prêmio maiores para emprestar dinheiro ao governo, o que pode deixar esses títulos mais atraentes. O investidor pode evitar a compra agora para vencimentos longos, já que as taxas podem subir mais nos próximos dias, oferecendo melhores oportunidades. Para o Tesouro Selic, sem problemas. Na bolsa, empresas exportadoras do setor de siderurgia, agronegócio, papel e celulose podem ter suas receitas pressionadas. Da mesma forma, empresas com custos dolarizados, mas com receita em real (varejo e transportes) também devem sentir a pressão do câmbio. Para quem já está posicionado, o momento é de cabeça fresca.”
André Valério, economista sênior do Inter
“Daqui para frente, a dinâmica do dólar dependerá de qual fator irá prevalecer em resposta às tarifas. Se a economia americana absorver bem o choque, com baixo impacto na atividade e na inflação, a tendência é vermos o dólar se apreciar globalmente. Por outro lado, se o impacto das tarifas for extenso, gerando incertezas e desaceleração econômica, enquanto os Estados Unidos se isolam do resto do mundo, a tendência será a continuidade da depreciação do dólar. A reação do mercado aponta que a percepção predominante é de que as tarifas colocarão a economia americana em direção à recessão.”
Erich Decat, coordenador de análise política da corretora Warren Renascença
“Sob a ótica do mercado financeiro, no curto prazo podemos ter um impacto no volume de exportações dos produtos brasileiros para os EUA. A consequência disso seria um menor fluxo do dólar, o que pode acarretar na valorização da moeda americana frente ao real. Esse possível efeito colateral e sua duração na economia brasileira com certeza estarão no radar dos investidores locais, principalmente para aqueles que trabalham com um olhar voltado para os índices de inflação e taxa de juros. Sob a ótica do Executivo, não acredito que o governo brasileiro vai adotar, de imediato, medidas para escalar uma guerra tarifária com os EUA.”
Vitor Miziara, sócio da Performa Ideias
“Em relação às tarifas reciprocas, Trump anunciou o que prometeu, uma tarifa global mínima de 10%. Como ele mesmo disse, já que os EUA são ‘bondosos, vão cobrar apenas metade do que esses países cobram deles. Para o Brasil, por exemplo, cuja tarifa média é de 10%, ele igualará os 10%, enquanto para a China, com uma tarifa média de 68%, a taxa aplicada será de 34%. A questão agora é avaliar se essas medidas, feitas de forma individuais, vão gerar inflação de forma global – enquanto nos EUA o aumento do custo de importação pode gerar inflação com aumento de preços ou deflação por queda na demanda, já que os preços para importação ficarão mais caros.”
Lucy Aparecida de Sousa, conselheira do Corecon-SP
“Em princípio, as tarifas de 10% impostas aos produtos brasileiros podem implicar em pressão inflacionaria nos produtos dos EUA, caso o governo brasileiro aplique reciprocidade. Por outro lado, podem sobrar produtos não exportados para os EUA, podendo reduzir o preço de alimentos e bens de consumo. Na renda variável, ações de empresas que exportam para os EUA devem ser afetadas. Com a taxa de juros alta, [o investidor deveria] permanecer em títulos e fundos de renda fixa e tomar cuidado com ativos de alto risco e muita volatilidade.”
André Franco, CEO da Boost Research
“Acredito que o Brasil, em teoria, sai mais enfraquecido se as taxas forem impostas na mesma proporção que a aplicamos nos Estados Unidos. Só que, eventualmente, dado o que aconteceu, por exemplo, com Israel, que basicamente recuou em tudo e zerou as taxas, teríamos a possibilidade de ter um cenário mais positivo realmente diminuindo as taxas, para que o outro país diminua mais ainda. Mas isso é um tiro no escuro total. O mais provável é que o Brasil sofra com isso, principalmente como exportador de commodities.”
André Perfeito, economista
“Ainda faltam detalhes, mas o anúncio feito há pouco por Trump coloca o Brasil no piso das tarifas anunciadas pelo presidente norte-americano. O real se aprecia após apontar as taxas. Minha primeira impressão é de que para o Brasil saíram barato as tarifas anunciadas. Afinal, como tenho falado há algum tempo, temos déficits contra os EUA – logo não seríamos alvo nesse momento. E algo chama atenção na tabela apresentada por Trump: na coluna ‘Tarifas Cobradas dos EUA’ se lê logo abaixo: ‘incluindo manipulação do câmbio e barreiras comerciais’. Não faço a menor ideia como eles calcularam isso, me parece uma conta muito mal feita, mas estamos procurando maiores detalhes em documentos oficiais.”
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research
“O Brasil foi incluído com a tarifa mínima de 10%, o que veio abaixo do esperado e pode ser considerado um sinal de moderação. Como o país tem déficit comercial com os EUA, o impacto geral deve ser limitado. No entanto, setores que exportam diretamente para o mercado americano devem sentir os efeitos com mais força. Estimativas indicam que as exportações brasileiras para os EUA representam cerca de 2% do PIB, o que aponta para um efeito concentrado, mas restrito à algumas cadeias produtivas.”