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Educação Financeira

É possível acontecer outro “milagrinho” econômico no Brasil?

Especialistas ponderam que a atual alta das commodities é um fenômeno pontual

Por E-Investidor

29/04/2022 | 8:00 Atualização: 29/04/2022 | 8:02

A alta das commodities foi importante para o boom da economia há 20 anos. (Fonte: Shutterstock)
A alta das commodities foi importante para o boom da economia há 20 anos. (Fonte: Shutterstock)

Uma boa notícia no primeiro trimestre do Brasil: a balança comercial teve o mês de março com maior superávit da história. As exportações superaram importações em US$ 7,3 bilhões.

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O salto em relação ao mesmo período em 2021 foi de 19%, segundo o Ministério da Economia. Isso se deu em grande parte a uma recente alta das commodities no mercado internacional.

Mais que ajudar o País a diminuir o rombo nos cofres públicos e permitir investimentos, a novidade aponta para um fenômeno que tem uma boa dose de nostalgia: o “milagrinho” econômico dos anos 2000, que também teve a valorização de produtos básicos não industrializados como pano de fundo.

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Mas, afinal, o que seria preciso para voltarmos a um crescimento semelhante ao que ocorreu há quase 20 anos? Para responder a essa pergunta, é importante conhecer o cenário atual e identificar as características deste momento e do boom anterior.

Será que um novo “milagrinho” econômico é possível?

Placa preta com o escrito "Selic %" e uma moeda de um real
O aumento na taxa básica de juros é útil para frear o consumo, mas inibe novos investimentos e dificulta um crescimento de longo prazo. (Fonte: Shutterstock)

A alta das commodities foi importante para o boom da economia há 20 anos, mas não se tratou de um aspecto isolado. Para Hugo Carcanholo, professor de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o que se chama de “milagrinho” se refere também a um ciclo de crescimento econômico baseado na expansão do consumo das famílias.

O “milagrinho” econômico foi possível graças a dois modos de distribuição de renda: direta, por meio de programas sociais; e indireta, por conta da valorização real do salário-mínimo que ocorreu ao longo dos anos 2000.

Houve à época, portanto, uma conjunção de fatores benéficos. Com demanda externa e câmbio favorável, foi possível melhorar a qualidade de vida da população por meio do consumo, que, por sua vez, estimulou a indústria brasileira e permitiu novos investimentos do setor.

Com boa capacidade produtiva diante da demanda, não faltaram produtos, e a inflação se manteve em níveis seguros. Assim, foi possível bancar o aumento do salário mínimo sem atrapalhar os investimentos.

Crescimento pontual

Já o cenário atual, para o especialista, não é o mesmo. A começar pelo fenômeno de desindustrialização do País. Agora, as empresas estão sendo levadas a exportar em razão do conflito entre Rússia e Ucrânia, mas é provável que se trate de um ciclo bem específico.

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“Não acredito que o Brasil consiga reviver algo assim nesta década. As empresas estão com pouca receita, os custos estão elevados e é difícil pensar em um aumento real do salário mínimo, que poderia redistribuir renda e promover o consumo sem comprometer a sobrevivência das empresas e dos próprios postos de trabalho”, ele observou.

O professor lembra ainda que a queda do dólar, que se desvalorizou 14,9% diante do real no primeiro trimestre de 2022, ajuda a controlar a inflação e a operar a política monetária. Mas é provável que se trate de um fenômeno de curto prazo, algo como três ou quatro meses.

Por isso, Carcanholo avalia que o País não pode ficar dependente do setor agropecuário: “O Brasil precisa se reindustrializar e diversificar a pauta de exportação, com mais tecnologia e mais postos de trabalho qualificados com boa remuneração”, concluiu.

O atual cenário econômico é crítico

Bandeiras da Ucrânia e Rússia em cima do mapa da Europa
Conflito entre Rússia e Ucrânia é determinante na economia atual. (Fonte: Shutterstock)

Basta ligar a televisão para dar de cara com a inflação, um dos fantasmas deste ano. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice acumulado dos últimos 12 meses é de 11,3%.

Quando se toca no assunto, logo vem à mente a causa mais conhecida do problema: a população consome em um ritmo tão acelerado que a indústria não dá conta de abastecer a demanda. Isso levaria, então, ao aumento de preços causado pela escassez na oferta.

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Mas não é esse exatamente o cenário, a julgar pelos 13,9 milhões de desempregados contabilizados pelo IBGE e pelo crescimento do endividamento das famílias brasileiras. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 77,5% delas têm dívidas — percentual 10% maior do que em março do ano passado.

Para Caio Mastrodomênico, analista econômico e Chief Executive Officer (CEO) da Vallus Capital, existe uma segunda causa inflacionária que também se aplica ao cenário brasileiro: o comprometimento da cadeia produtiva, seja por elevado custo de produção, seja por falta de insumos.

“É preciso ao mesmo tempo frear o consumo final e incentivar o aumento da produção nacional, equilibrando a economia”, ele argumentou.

Por essa característica, o aumento da taxa básica de juros pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) pode ter um efeito rebote.

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Ao mesmo tempo que isso é necessário para diminuir o consumo, pode-se criar uma bola de neve ao desincentivar a produção e afetar ainda mais a oferta de produtos no mercado.

Vale lembrar que a pandemia paralisou a produção mundial no início de 2020 e afetou a oferta de matérias-primas, impactando setores da indústria brasileira, como o da construção civil.

Com a retomada da economia em 2021, o Brasil viveu uma fuga de itens produzidos internamente por conta da desvalorização do real: para os produtores locais, era mais vantajoso vender em dólar.

O exemplo mais dramático dessa dinâmica ocorreu com os combustíveis. Por causa da política de preços da Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras), os brasileiros pagaram a conta de um arranjo explosivo: preço local pareado com o internacional, câmbio convidativo para exportação, aumento do etanol por conta da demanda acrescida e perda do poder de compra diante da inflação, por sua vez, retroalimentada pela alta percebida nos postos de gasolina.

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Em outras palavras, diante desse momento crítico, já dá para prever que outro “milagrinho” brasileiro não virá tão cedo.

Fonte: EBC; Hugo Carcanholo, professor de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR); Caio Mastrodomênico, analista econômico e CEO da Vallus Capital.

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