“O Banco Central aparentemente decidiu não reagir tão intensamente ao que víamos como riscos inflacionários adicionais, dada a nova rodada de estímulo fiscal, os sinais de um provável superaquecimento do mercado de trabalho e o aumento das expectativas de inflação“, diz em relatório o superintendente de pesquisa macroeconômica do Santander, Maurício Oreng. “Isso pode refletir a crença do BC de que um dos ciclos de aperto mais intensos e rápidos das últimas décadas sugere que uma dose suficiente do remédio já foi administrada, sem necessidade de prescrever uma dosagem mais forte.”
No comunicado da decisão de ontem, o Copom apresentou seu cenário de referência para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) com 6,8% em 2022, 4,6% em 2023, e 2,7% em 2024, ante expectativas no Relatório de Mercado Focus de 7,2%, 5,3% e 3,3%, respectivamente. Para Oreng, a divergência entre os números é bastante normal nesta etapa, diante de incertezas maiores que o habitual.
“Os sinais recentes de uma tentativa de acomodação das expectativas de inflação, provavelmente refletindo os altos e baixos no IPCA de curto prazo, são possíveis indicadores de uma pausa que provavelmente ocorrerá na reunião do próximo mês”, acrescenta.
De acordo com Oreng, a história pode ser um pouco diferente no médio prazo. Ele diz que as expectativas para 2024 podem ser afetadas caso a desaceleração econômica demore mais do que o previsto e/ou preços cíclicos, como serviços subjacentes, mostrem maior persistência. “O risco aqui é que a Selic permaneça em níveis contracionistas por mais tempo, de modo que seguimos confortáveis com nossa projeção de juros a 12,0% no fim de 2023.”