A avaliação nas mesas de operação é que a leitura benigna do índice de inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês), conjugada com falas de dirigentes do Federal Reserve ao longo da tarde, reforçaram a perspectiva de ritmo menor de alta de juros nos EUA, para 25 pontos-base, e deram vazão às apostas em cortes dos Fed Funds ainda em 2023. Não por acaso, o dólar perdeu força em todo o mundo, renovando mínimas abaixo de R$ 5,10 no mercado local, e as taxas dos Treasuries caíram mais de 2% na etapa vespertina – uma combinação que detonou uma rodada adicional de queima de prêmios nos DIs longos.
Entre os curtos, DI para janeiro de 2024, mas ligado à perspectiva para o rumo da taxa Selic neste ano, caiu de 13,54% para 13,52%. O DI para janeiro de 2025 desceu de 12,554% para 12,505%. No miolo da curva, DI para janeiro de 2027 fechou a 12,255%, de 12,31% no ajuste anterior. Já o contrato para janeiro de 2029 recuou de 12,605% para 12,36%.
Pela manhã, foi divulgado que o CPI recuou 0,1% em dezembro, enquanto a mediana de Projeções Broadcast era de estabilidade. O núcleo, que exclui preços de energia e alimentos, subiu 0,3%, em linha com o esperado. Na comparação anual, houve desaceleração tanto do índice cheio (de 7,1% em novembro para 6,5%) quanto do núcleo (de 6% para 5,7%).
“O CPI nos EUA solidificou as apostas do mercado para uma redução do ritmo de aumento de juros pelo Fed e isso fez o dólar recuar com força em reação a moedas desenvolvidas e emergentes. O real está com a melhor performance, o que mostra a atratividade do nosso juro real doméstico”, afirma a analista de fundos de renda fixa da Empiricus, Lais Costa, para quem o Fed, mesmo com alta dos juros em 25 pontos-base na próxima reunião, deve adotar um discurso duro para evitar um afrouxamento prematuro das condições financeiras.
Ao ambiente externo favorável a emergentes somou-se a percepção de moderação do discurso do governo em relação à política fiscal, após o estresse na primeira semana de janeiro provocado por declarações de Lula e de ministros. Investidores locais que estavam mais pessimistas com o quadro fiscal foram obrigados a dar meia-volta e zerar posições, turbinando o movimento de baixa das taxas.
Como esperado, Haddad anunciou ações para reduzir o déficit de cerca de R$ 230 bilhões no Orçamento com foco na ampliação de receitas. Para este ano, o plano do ministro prevê R$ 83,28 bilhões em medidas permanentes do lado da arrecadação, R$ 73 bilhões em receitas extraordinárias e R$ 50 bilhões em redução de despesas.
“As medidas do governo demonstram um grau de preocupação em ajustar as contas públicas, o que tem efeito positivo. O mercado já precifica uma queda mais forte da Selic à frente”, afirma o especialista da Valor Investimentos Charo Alves.