Aqui, sem ter mudado de sinal, o Ibovespa encerrou esta terça-feira em baixa de 0,82%, aos 107.829,73 pontos, em sessão, como ontem, de volume financeiro enfraquecido, hoje a R$ 22,5 bilhões. Entre a mínima e a máxima do dia, o Ibovespa oscilou entre 107.233,94 (-1,37%), menor nível intradia desde 5 de janeiro, e 109.037,00 pontos, saindo de abertura aos 108.726,78. Na semana, o índice cede 0,64%; no mês, 4,94% e, no ano, 1,74%. O nível de fechamento também foi o menor desde o último dia 5 (107.641,32 pontos), vindo o Ibovespa, ontem, de leve ganho de 0,18% que havia interrompido série de três perdas, todas acima de 1%.
Se, nos Estados Unidos, Powell falou em alguns momentos o que o mercado gostaria de ouvir, a pressão em base diária do presidente Lula sobre o “cidadão” Roberto Campos Neto não passa despercebida aqui, mantendo os investidores na defensiva com relação à política monetária vis-à-vis a política fiscal, no que vai ganhando aspecto de queda de braço – e junto a alguém que, como Lula, tem mandato temporalmente definido.
Hoje, o PSOL, partido próximo ao governo, indicou que apresentará, ainda nesta terça, proposta para pôr fim à independência do BC. Líder do PSOL na Câmara, o deputado Guilherme Boulos (SP) afirmou hoje que o presidente do Banco Central é um “infiltrado” do ex-presidente Jair Bolsonaro – e que faria “boicote” à economia com a manutenção da Selic em nível alto.
Em encontro com a “mídia independente” hoje, ao mencionar a perspectiva de crescimento “pífio” este ano, Lula pareceu atribuir a situação a Campos Neto. Hoje, a ata do Copom, mais branda do que o comunicado sobre a decisão de política monetária da semana passada, quando o BC manteve a Selic em 13,75% ao ano, foi interpretada por parte dos analistas como um gesto de contemporização ao governo.
Mas não o suficiente para aplacar as críticas de Lula, que retomou a ofensiva nesta terça-feira, sugerindo que pode interferir na instituição. Lembrou que “temos duas pessoas no Conselho Monetário Nacional e tem mais gente para a gente indicar no Banco Central”. Os mandatos de dois diretores expiram no fim do mês – o de Política Monetária, Bruno Serra, e o de Fiscalização, Paulo Souza.
“A ata do Copom não veio em tom tão duro quanto a impressão deixada pelo comunicado da semana passada”, observa Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos. Contudo, “a ata mostra ainda preocupação com a orientação da política fiscal e a responsabiliza pela manutenção da taxa de juros elevada por período prolongado”, acrescenta.
“Há muita incerteza com relação à coordenação entre as políticas fiscal e monetária, elevando a percepção de risco sobre a economia brasileira, o que se agrava com as críticas do presidente Lula sobre a independência do BC e o sistema de metas de inflação, refletindo-se nos prêmios para o financiamento da dívida do Tesouro”, conclui a economista.
“O mercado segue atento aos palpites de Lula sobre o Banco Central, o que traz volatilidade. No meio da tarde, tivemos a fala do Powell, em que reforçou, em dado momento, que aumentos de juros podem ainda se fazer necessários, caso a inflação e a economia se mantenham fortes”, diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.
Entre as empresas e os setores na B3, ele chama atenção para Petrobras na sessão, descolada da alta de mais de 3% para o Brent, refletindo o anúncio, pela estatal, de redução no preço do diesel A nas refinarias, de 8,8%, o que o “mercado interpretou como um começo de interferência do novo presidente”, levando em conta que o petróleo se mantém em patamar elevado, assim como o dólar frente ao real. “Não faria tanto sentido essa redução agora”, aponta Moliterno.
Para Dennis Esteves, especialista em renda variável da Blue3, a fala de Powell “foi um banho de água fria quanto à expectativa para os juros lá fora”, depois da forte leitura da sexta-feira passada sobre a geração de vagas de trabalho nos Estados Unidos em janeiro, muito acima do esperado para o mês. “Powell disse hoje que se os dados do mercado de trabalho seguirem fortes, o pico das taxas de juros terá de ser mais alto”, acrescenta Esteves, o que contribuiu também, aqui, para o avanço do dólar frente ao real na sessão, em alta de 0,50%, a R$ 5,1998.
No Brasil, além do prosseguimento das críticas de Lula apesar do tom “amigável” da ata do Copom, Esteves enfatiza o corte do diesel, interpretado por analistas como “precipitado” e sinal de “intervenção” do governo nos preços da Petrobras.
Na ponta perdedora do Ibovespa, destaque nesta terça-feira para Locaweb (-6,90%), BRF (-6,83%) e Marfrig (-5,15%), com Embraer (+3,10%), Minerva (+1,48%) e Gerdau (+1,43%) no lado oposto. Petrobras ON e PN cederam respectivamente 0,52% e 0,62%, enquanto Vale ON avançou 0,66%. As ações de grandes bancos encerraram o dia com perdas até 2,31%, em Itaú PN, antes da divulgação do balanço trimestral da instituição financeira.