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Tempo Real

BC levanta ‘bandeira branca’ com governo em ata, mas mantém foco em metas

BC não está querendo "comprar briga", mas que tem dúvidas de que essa postura será suficiente para Lula

Por Cícero Cotrim, Thaís Barcellos e Aramis Merki II, Estadão Conteúdo

08/02/2023 | 10:44 Atualização: 08/02/2023 | 10:44

Banco Central Europeu e o horizonte de Frankfurt ao pôr do sol. Foto: Envato Elements
Banco Central Europeu e o horizonte de Frankfurt ao pôr do sol. Foto: Envato Elements

Diante de ataques e cobranças públicas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que se intensificaram após comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) de fevereiro, a ata do encontro trouxe alguns acenos que parecem indicar uma tentativa do Banco Central de distensionar a relação com o Executivo. A avaliação é de economistas ouvidos pelo Broadcast, que destacam, em contrapartida, o renovado compromisso do comitê em promover a convergência do IPCA – índice oficial de inflação – aos alvos estabelecidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

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Por um lado, parte dos membros do Copom reconheceu que o pacote de ajuste fiscal anunciado pelo Ministério da Fazenda em janeiro diminuiria os estímulos à demanda e reduziria os riscos fiscais à inflação, embora seja necessário acompanhar os “desafios na sua implementação”. A menção surgiu um dia após o chefe da pasta, Fernando Haddad, ter cobrado publicamente que o comitê fosse mais “generoso” com as medidas – parte delas, como o voto de qualidade no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), ainda têm de ser validadas pelo Congresso.

Hoje, o ministro disse que a ata foi “melhor que o comunicado” e “mais amigável em relação aos próximos passos que precisam ser tomados”.

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Em contrapartida, o colegiado disse acompanhar com preocupação o aumento das expectativas de inflação para prazos mais longos e reiterou o seu compromisso em conduzir a política monetária para atingir as metas estabelecidas, após as seguidas críticas de Lula à autonomia da autarquia e ao nível da taxa Selic e das metas de inflação. Horas após a divulgação da ata, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, aproveitou uma fala em evento público para defender a independência do órgão, que, segundo ele, aumenta a eficácia da política monetária e desvencilha sua condução do ciclo político.

Para o ex-secretário do Tesouro Nacional e sócio fundador da Oriz Partners, Carlos Kawall, a ata mostra um esforço do BC em “jogar água na fervura” criada após as críticas de Lula, embora o impacto desse esforço ainda precise ser observado. Embora membros do governo como o próprio Haddad e o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, venham tentando moderar os impactos dos ataques, o analista nota que o impacto das declarações do presidente da República tende a prevalecer.

“Isso é mais preocupante do que em outras ocasiões, quando o presidente Lula apaziguava os ânimos quando membros do seu ministério atacavam o BC”, diz o economista. “No segundo escalão, no ministério, está todo mundo jogando água na fervura e, agora, o BC também está tentando apaziguar os ânimos do seu lado. Mas o mercado continua nervoso quando o presidente toma a palavra, quando a presidente do PT, Gleisi Hoffmann toma a palavra, porque parece que querem manter o grau de tensão.”

Na outra ponta, o economista vê um “recado firme” do BC nos parágrafos 12 a 15, nos quais a ata trata sobre o aumento das expectativas de inflação visto no relatório Focus. O Copom reconheceu que esse movimento pode ser explicado por uma percepção de “leniência” da autarquia com as metas, mas reiterou o seu compromisso de conduzir a política monetária para atingir os alvos. Além disso, reforçou o impacto da política fiscal expansionista e da incerteza em torno do patamar das metas na desancoragem.

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“O BC reconheceu que o mercado pode estar vendo o risco de que ele seria leniente, que não seguiria a meta a ferro e fogo, como já foi no passado, no governo Dilma, e falou: da minha parte, pode ter certeza que vamos buscar a convergência para as metas, sejam elas quais forem”, diz o economista. “O jogo tem uma regra, e ele está dizendo que cumprirá a regra do jogo. Quem parece insatisfeito é o presidente da República, que ataca a autonomia do BC.”

O economista-chefe da Garde Asset, Daniel Weeks, afirma que o BC mostrou um sinal de “muito boa vontade” ao tentar construir uma ponte com o Ministério da Fazenda, mesmo com o caráter duvidoso do ajuste fiscal proposto por Haddad. “Parece mais um gesto político do que uma análise técnica”, diz o analista, para quem o aumento de quase R$ 200 bilhões de gastos contratado pela PEC da transição ainda supera o impacto das medidas anunciadas por Haddad.

Weeks diz que as menções do texto sobre as metas de inflação tiveram caráter “protocolar”, ao reiterarem que o BC seguirá as definições do Conselho Monetário Nacional. “Na minha opinião, seria de bom tom o BC ter reforçado que a manutenção das metas seriam importantes para o País”, diz o analista.

Para a economista-chefe da Gap Asset, Anna Reis, o aceno ao pacote de Haddad representou um alívio na avaliação sobre o cenário fiscal. Mas pequeno, uma vez que a incerteza com as contas públicas está menos ligada ao curto prazo, que é favorecido pelas medidas da Fazenda, e mais com a indefinição com âncora fiscal e o futuro das metas de inflação – sobre as quais não houve nenhum posicionamento do BC. “Teve esse aceno ao Haddad, mas o combate à inflação continua tão duro quanto antes, não muda plano de voo.”

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A economista reconhece que o BC não está querendo “comprar briga”, mas que tem dúvidas de que essa postura será suficiente para Lula, que defende uma queda dos juros. “É difícil um distensionamento pela ata diante da distância de comunicação tão grande”, disse, referindo-se à divergência entre o desejo de Lula e o que BC pode entregar diante da conjuntura. “Quando um não quer, dois não brigam. Mas quando um quer…”, brinca.

Reis avalia que o recado de política monetária hoje é de que a manutenção do juro por mais tempo será suficiente para convergência da meta – a Gap espera que o corte inaugural ocorra no primeiro trimestre de 2024. Mas, se as expectativas de 2024, horizonte principal para o BC, continuarem a se deteriorar, ela alerta que somente a estabilidade da Selic pode não ser suficiente.

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