Analistas atribuíram o desempenho do real à aprovação, no fim da noite de ontem, do texto-base do projeto de lei do novo arcabouço fiscal na Câmara dos Deputados por ampla margem (372 votos a favor, 108 contrários e uma abstenção). A perspectiva é que a proposta seja apreciada rapidamente também pelo Senado. Embora ainda seja alvo de críticas de ala relevante de economistas, por ser ancorado em aumento de receitas, o chamado novo marco fiscal diminui as incertezas sobre a trajetória das contas públicas no curto prazo.
“O mercado recebeu bem a votação favorável ao arcabouço com um número de votos ainda superior ao de aprovação da urgência da matéria”, afirma Bruno Martins, sócio e gestor da Armor Capital. “A boa performance do peso mexicano, principal par do real, também ajudou. No entanto, seguimos nesse ‘range’ entre R$ 4,95 e R$ 5,00”.
Dados divulgados pelo Banco Central hoje à tarde mostram que o apetite por ativos domésticos segue baixo. Em maio, até dia 19, o fluxo cambial é negativo em US$ 3,151 bilhões, graças a saídas líquidas de US$ 5,446 bilhões pelo canal financeiro. Pelo comércio exterior, houve entrada líquida de US$ 2,296 bilhões.
O texto final do relator do arcabouço, deputado Cláudio Cajado (PP-BA), trouxe ajuste de redação, condicionando o aumento de gastos no ano que vem ao crescimento da receita. Na versão original do relatório, o crescimento real da despesa seria de 2,5%, o máximo permitido pela nova regra – o que, segundo cálculos de economistas, abriria brecha para ampliação de R$ 80 bilhões em gastos nos próximos dois anos. Com a mudança no texto, o limite de despesas para 2024 será calculado com base na variação de 70% da receita acumulada em meses até junho deste ano.
“O arcabouço fiscal trouxe um bom humor ao mercado local. Esse pacote agrada e deve funcionar no curto prazo. Os problemas ficam mais para 2026 e 2027”, afirma o CIO da Alphatree Capital, Rodrigo Jolig, para quem a questão fiscal deve agora ficar em segundo plano. “O real ainda é o melhor ativo para ter no Brasil e deve seguir se apreciando”.
Divulgada à tarde, a ata do encontro de política monetária do Federal Reserve em maio não trouxe surpresas. Houve alertas para a lentidão do processo de desinflação. Há dúvidas, contudo, sobre o nível apropriado da extensão do processo de alta de juros. Mais uma vez, o BC americano reiterou que não vê espaço para queda da taxa neste ano. Ferramenta da CME mostra que, após a divulgação da ata, as chances de manutenção dos Fed Funds em junho voltaram a superar 70%.
O economista-chefe do Banco Fibra, Marco Maciel, observa que o estresse com o teto da dívida nos EUA provocou uma alta das taxas dos Treasuries e do dólar em relação a divisas emergentes nas últimas semanas. “Mas o real manteve-se relativamente valorizado na vizinhança de R$ 4,95, bem abaixo do valor justo de R$ 5,05 que calculamos para o curto prazo”, afirma, em relatório, Maciel, que vê a queda da volatilidade da taxa de câmbio e a apreciação do real como reflexos do otimismo com o arcabouço fiscal, mesmo “aquém dos modelos ideais”.