

O caos se instalou nos mercados globais desde que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, anunciou as novas tarifas de importação para todos os países. O Ibovespa, principal índice da B3, encerrou o dia com um tombo de 2,96%, aos 127.256,00 pontos, na sessão desta sexta-feira (4). Os índices americanos S&P 500 e Nasdaq caíram 5,97% e 5,82%, respectivamente.
As bolsas da Europa também fecharam em queda. O índice pan-europeu Stoxx 600 recuou 5,12%, a 496,33 pontos, depois de amargar queda de 2,57% na quinta-feira (3). Em Londres, a depreciação foi de 4,95%, enquanto a bolsa de Paris perdeu 4,26% e a de Frankfurt cedeu 4,95%. Em contrapartida, o dólar disparou 3,38%, cotado a R$ 5,8232, com os investidores em busca de proteção diante das incertezas no comércio global.
O estresse dos mercados se acentuou com a retaliação da China às tarifas de Trump. O gigante asiático anunciou taxas de 34% sobre todos os bens importados vindos dos EUA em resposta às alíquotas de 34% para importações chinesas, que se somam às tarifas anteriores de 20% que já estão em vigor. Separadamente, o Ministério do Comércio da China disse adicionou 11 empresas americanas à sua lista de “entidades não confiáveis”, impedindo-as de fazer negócios na China ou com empresas chinesas.
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A situação, contudo, pode ficar ainda pior se outros parceiros comerciais, além da China, retaliarem as tarifas americanas. A União Europeia (UE), por exemplo, estuda quais ações pretende adotar em resposta às alíquotas de 20% sobre os bens europeus. O chefe do comércio da UE, Maros Sefcovic, comunicou que iria buscar uma negociação com as autoridades americanas, antes de qualquer retaliação.
Caso o bloco europeu siga os mesmos passos do gigante asiático, Rafael Meyer, Gestor do Solutions MFO do grupo SWM, diz que o caos global poderia chegar a um nível extremo. A economia global sofreria uma desaceleração mais acentuada e os investidores migrariam os seus investimentos para ativos de menor risco, como ouro e títulos públicos do governo americano. Neste cenário pessimista, o real sofreria uma forte queda frente ao dólar, pressionando os juros e a inflação brasileira. “Teríamos uma aceleração dos juros para atrair o capital estrangeiro e também para conter uma alta da inflação por causa do dólar”, diz Meyer.
No entanto, os analistas acreditam que os efeitos das tarifas não causariam consequências tão extremas, apesar da alta volalidade. O cenário base dos mercados é que haja um avanço nas negociações entre os países mais afetados pelas tarifas ao passo de resultar em alíquotas de importação próximas de 10%. O mercado espera ainda uma queda na taxa de juros americana para evitar uma recessão econômica nos EUA.
O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, disse hoje que, em discurso na conferência anual da Society for Advancing Business Editing and Writing (SABEW), que a maioria das medidas de inflação de longo prazo “permanecem bem ancoradas”. Vale lembrar que, em sua última reunião, o Fed sinalizou a possibilidade de retomar o ciclo de afrouxamento monetário em 2025 após manter inalterados os juros americanos. Se isso acontecer, a tendência é que o mercado brasileiro fique mais atrativo para os “olhos” do investidor estrangeiro devido à diferença entre as taxas. Isso porque a diferença entre os juros resultaria um prêmio interessante para o investidor gringo.
Como proteger a carteira do caos global?
O pânico dos mercados com a escala das tensões comerciais exige dos investidores cautela antes de realizar qualquer alocação. Cristian Pelizza, economista-chefe da Nippur Finance, destaca que a diversificação – inclusive a geográfica – torna-se fundamental para o portfólio. Ele também recomenda ter exposição a ativos indexados à inflação para proteger dos efeitos das tarifas. “É muito difícil ter visibilidade sobre uma escala no fechamento comercial entre países neste nível. Então, cautela e diversificação são as palavras-chave neste momento”, afirma.
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Para Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, os investimentos de renda fixa possuem a melhor relação risco-retorno para o atual cenário. “As LTNs (títulos do Tesouro Direto prefixados) e as NTNBs (títulos públicos indexados à inflação) possuem taxas implícitas bastantes altas e o cenário que está se moldando é que tenhamos juros mais baixos em um a dois anos”, afirma Siqueira.
Já Meyer recomenda alocar até 30% do patrimônio em ativos dolarizados para proteger dos momentos de volatilidade. Além disso, orienta priorizar as ações de empresas resilientes a períodos de crise. “Migrar para carteiras de ações com empresas boas geradoras de caixa ou carteiras de crédito com baixa alavancagem tendem ser mais resilientes”, diz o gestor.
Com informações do Broadcast