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Colunista

FIDCs, Cetipados e COEs: mentiras sinceras te interessam?

Produtos sem volatilidade atraem clientes, mas escondem riscos e custos

Por Luciana Seabra

06/05/2025 | 15:00 Atualização: 06/05/2025 | 15:43

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Mercado financeiro (Foto: Adobe Stock)
Mercado financeiro (Foto: Adobe Stock)

Sou obrigada a concordar que grande parte dos investidores é avessa à volatilidade. Os fluxos não mentem: seja qual for o ativo, períodos de perdas costumam gerar resgates.

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Ou, como costumam dizer nos bastidores do mercado, clientes não gostam da “volatilidade para baixo”; já “volatilidade para cima” todo mundo curte – como se fosse possível ter a segunda sem topar a primeira.

Interpreto tal fato como reflexo de falta de educação financeira e informação de qualidade para investidores. Um mínimo de estudo sobre investimentos de risco mostra que, para ter ganhos, é preciso aprender a lidar com prejuízos.

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Agora, se você não conhece fogos de artifício e de repente ouve um estrondo e vê fumaça, sua tendência é correr. E essa é uma reação totalmente racional.

Solução óbvia, na minha opinião: é preciso investir mais em educação financeira, a fim de que as pessoas sejam capazes de montar uma carteira diversificada para o longo prazo sem fazer o pior possível, que é colocar dinheiro depois que subiu e retirar depois que caiu.

É isso que os agentes de mercado têm feito? Têm investido mais em educação financeira? De forma geral, não. É lamentável ver que eles buscaram a saída mais fácil – que, infelizmente, com frequência não é a melhor para quem investe.

O que tenho ouvido em minhas interações com o mercado é o foco na oferta e desenvolvimento de soluções que mascaram a volatilidade.

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Nesses produtos o risco existe – e pode até ser maior do que em investimentos cujo valor oscila –, mas ele não aparece claramente para quem investe.

É o caso por exemplo do crescimento expressivo de patrimônio em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), de R$ 93 bilhões somente nos últimos 12 meses, conforme dados da Anbima, associação que representa o mercado. Tudo isso em um período em que houve saída de R$ 372 bilhões de multimercados e R$ 49 bilhões de fundos de ações.

Veja bem, não sou contra os FIDCs, mas contra a venda errada deles. Esses produtos promovem uma desintermediação bancária. Para simplificar, costumo explicá-los assim às pessoas físicas: imagine uma varejista de vestuário que oferece cartão de crédito para seus clientes. Ela prefere focar sua operação em moda e, por isso, repassa os recebíveis a um FIDC, em troca da antecipação do valor.

E assim a varejista recebe tudo hoje – claro, com um desconto. E os investidores do fundo ficam com o direito ao crédito futuro.

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Há oportunidades em FIDCs, mas os produtos mais rentáveis – e, sendo assim, favoritos de quem investe de olho somente no retorno – estão entre os fundos mais arriscados do segmento de crédito privado.

De forma geral, as operações são mais complexas, menos transparentes e, em geral, o risco de inadimplência é maior do que em fundos de crédito privado tradicionais, que alocam em Certificados de Depósito Bancário (CDBs), letras financeiras e debêntures – e às vezes um pouco também em FIDCs. Antes de investir, é preciso analisar com cuidado as opções.

O pulo do gato para a venda é que, nos FIDCs, a volatilidade é praticamente ausente, porque as operações ficam restritas em geral a poucas carteiras.

Não há tanta negociação quanto nos demais ativos de crédito, que costumam ser detidos por vários investidores diferentes. E, assim, os preços não são marcados com tanta frequência. Afinal, só quando algo é vendido de fato que sabemos precisar com segurança seu preço.

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Costumo recomendar FIDCs como parte de um portfólio diversificado, não como a totalidade da carteira. Acontece que esses fundos são frequentemente apresentados para investidores como alternativas aos fundos de crédito tradicionais, sem explicações quanto aos riscos. E a ausência de volatilidade – apesar de mascarar o risco – acaba facilitando a venda.

A falta de oscilação é também o que tem fortalecido, infelizmente, a venda dos chamados fundos cetipados. Eles são assim chamados porque, em vez de listados em Bolsa, são negociados fora do pregão – no chamado mercado de balcão, antiga Cetip.

Enquanto na Bolsa há negociação transparente com formação de preço a partir da interação entre compradores e vendedores, no mercado cetipado, o preço é definido unilateralmente pela corretora.

Ao manter para si a precificação, a corretora pode definir livremente os chamados spreads, na entrada e na saída.

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Sem a tela do home broker que dá acesso ao valor real do ativo, resta a você aceitar o preço indicado pelo assessor ou gerente. Se eles venderem a você por mais do que o ativo realmente vale ou comprarem de você por menos do que isso, embolsam o restante.

Fundos de debêntures de infraestrutura ou imobiliários, por exemplo, naturalmente têm volatilidade – seja pela oscilação do valor dos ativos que carregam seja pela oferta e demanda em Bolsa. Na versão cetipada, entretanto, investidores não conseguem ver todo esse agito. Ao comprar ou vender, pedem o preço a quem lhes atende.

Ou seja, a redução da oscilação aparente pode custar caro a quem investe.

A demanda, entretanto, tem sido relevante – e também, pelo que tenho ouvido nos corredores da Faria Lima, a pressão de distribuidores para que os gestores façam fundos neste formato. Alguns mais responsáveis se recusam, por entenderem que investidores acabam reféns da estratégia de venda dos distribuidores nesses casos, o que é fato.

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Reforço: nos fundos cetipados, o risco continua existindo. Ele é mascarado, entretanto, por meio da ausência de negociação em mercado aberto. O que em geral as pessoas não percebem é que, no escuro, também podem levar uma mordida nada agradável em seu retorno, graças ao conflito de interesses de quem vende.

Os Certificados de Operação Estruturada (COEs), por sua vez, já estão bastante queimados, mas ainda aparecem nas carteiras de investidores, muitas vezes com peso relevante. Ainda recebo com frequência relatos de clientes que se arrependeram de ter os recursos travados em operações de longo prazo que mal entenderam.

Aqui assessores e gerentes apostam no argumento do capital garantido, ou seja, de que o capital investido inicialmente não encolherá. Preciso lembrar que R$ 50 mil daqui a cinco anos não equivalem a R$ 50 mil hoje? Pode haver sim perda de poder de compra.

Seduzidos pelo capital garantido, entretanto, investidores topam deixar o dinheiro travado por longos períodos. Em muitos casos, entretanto, quem realmente ganha é a corretora – e não eles.

Bom dizer que abrir mão de liquidez por anos pode fazer muito sentido na composição de portfólio – desde que seja para uma parcela do patrimônio com horizonte condizente, que haja uma expectativa de retorno relevante e transparência quanto aos custos.

Se o objetivo for proteger o cliente do impulso de resgate antes da hora, há formas melhores de fazê-lo. Sou defensora, por exemplo, de fundos com prazo de carência longo, como fundos de crédito estruturado com resgate em 90, 180 ou 360 dias. Nesse caso, a volatilidade segue visível e as regras estão mais claras, assim como os custos. O gestor protege a estratégia (e clientes) ao não ter que vender ativos às pressas em casos de crise.

Produtos com volatilidade e carência são mais difíceis de vender nas plataformas e por isso menos comuns – é o que eu ouço por aí. Claro, exigem vendedores dispostos a explicar e educação financeira. E isso deveria ser parte do negócio.

O que investidores não percebem ao topar a oferta ostensiva de produtos como FIDCs, COEs e fundos cetipados sem uma análise mais profunda é que estão assinando embaixo da menor transparência.

Lembre-se: os buracos seguem na estrada, você somente topou entrar nela de olhos vendados. E abrir mão de olhos bem abertos em um mercado financeiro tão conflitado não costuma acabar bem.

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