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Investimentos

Quem perde mais com o novo JCP? Veja as ações e setores mais impactados

Diante do novo JCP, as empresas encaram um dilema: abrir mão da eficiência tributária ou arriscar a perda de interesse dos investidores. Qual estratégia vai prevalecer?

Por Katherine Rivas
Editado por Geovana Pagel

12/06/2025 | 3:00 Atualização: 13/06/2025 | 15:28

JCP (Foto: Adobe Stock)
JCP (Foto: Adobe Stock)

Como já era temido por muitos, o investidor acabou pagando o pato pelo desequilíbrio fiscal do governo. Na tentativa de conter os danos pela alta do IOF, investimentos de renda fixa antes isentos passaram a ser tributados. E até a turma dos dividendos foi atingida, com o anúncio do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que os juros sobre capital próprio (JCP) passarão a ser taxados de 15% para 20% de imposto.

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A medida provisória, publicada em decreto nesta quarta (11) como uma das propostas do governo para aumentar a arrecadação, ainda precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional. Segundo informou o Ministério da Fazenda ao E-Investidor, a alíquota de 20% sobre os JCP estará vigente a partir de 01 de janeiro de 2026. Portanto, os investidores ainda terão um respiro.

Nos últimos anos, ideias para taxar dividendos ou extinguir o JCP foram discutidas, mas não avançaram. Agora, com a urgência de arrecadação e um ano eleitoral à frente, o cenário parece diferente.

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Mas se a alíquota subir mesmo para 20%, quem perde mais: empresas ou investidores?

Antes de tudo, é preciso separar os conceitos. Dividendos são lucros distribuídos e isentos para o investidor, pois o imposto é pago pela empresa. Já o JCP é classificado como despesa financeira, o que permite dedução no IR da companhia, mas quem arca com o tributo é o acionista.

Justamente por esse benefício fiscal, muitas empresas priorizam o uso de JCP. E, mesmo com a alíquota maior, analistas acreditam que o instrumento continuará sendo usado com a taxa de 20%. Para Pedro Ávila, analista da Varos Research, no caso das empresas, não muda quase nada, já que o benefício fiscal prevalece. Mas o impacto recai todo sobre o investidor. Segundo ele, o valor distribuído ao acionista pode cair de 4% a 5% na média da Bolsa.

Ele exemplifica: uma empresa com lucro de R$ 100 mil distribui R$ 20 mil em JCP. O imposto incide sobre R$ 80 mil, gerando uma carga de R$ 28 mil. O lucro líquido fica em R$ 72 mil. Com imposto de 15%, o investidor recebia R$ 17 mil. Com 20%, passa a receber R$ 16 mil e a empresa segue lucrando os mesmos R$ 72 mil.

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Empresas que usam muito JCPs podem perder atratividade diante dos investidores, com pressão sobre o preço das ações. Ainda assim, Ávila avalia que a maioria seguirá com a prática: “Não acredito que uma alta de 15% para 20% vai mudar muito o comportamento das companhias”, ressalta Ávila. Mas não descarta que algumas pensem em reinvestir no próprio negócio.

Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, lembra que a diferença parece pequena, mas pesa no longo prazo. Um JCP de R$ 1 por ação antes entregava R$ 0,85 ao investidor. Agora, R$ 0,80. “Quando se tem mil, dez mil, cem mil ações, o impacto é relevante.” Para ele, a saída é buscar ações com bom preço e margem de segurança na hora da compra.

Oliveira aponta que empresas podem usar outras formas de retorno ao investidor, como aumentar dividendos, recomprar ações ou conceder bonificações e subscrições. Mesmo assim, o JCP ainda é a forma mais eficiente sob a ótica tributária – recompras, por exemplo, dependem do momento de mercado.

E isso significa o fim da estratégia de proventos? Para Marcos Duarte, analista-chefe da Descomplica Investimentos, não. “Quem recebe dividendos, que ainda são isentos, está bem posicionado. O impacto no curto prazo é real, mas não invalida a estratégia no médio e longo prazo”, observa.

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Do lado das empresas, ele acredita que muitas já pensam em ajustes para manter a atratividade, seja via dividendos, recompras ou modelos híbridos. “Essas estratégias já estão no radar delas, sem dúvida.”

Oliveira concorda: a estratégia de dividendos segue viva, mas exige mais critério. “O único ajuste é comprar ações mais baratas e a Bolsa, atualmente, está cheia de oportunidades com desconto.”

Quem usa mais JCP na Bolsa?

Para entender o impacto do aumento da alíquota de IR sobre os juros sobre capital próprio (JCP) para quem investe com foco em renda, o E-Investidor solicitou à Elos Ayta Consultoria um levantamento com ações de setores preferidos por investidores de proventos, como bancos, elétricas, seguros, saneamento, telecomunicações, petróleo e gás, entre outros.

A consultoria listou 20 papéis com maior retorno via JCP na mediana dos últimos cinco anos, comparando as rentabilidades ao dividend yield (JCP + dividendos) total das ações. Também foi apresentada a participação dos JCP no total de proventos pagos.

Banco do Brasil (BBAS3), Cemig (CMIG4), Banco ABC (ABCB4), Copasa (CSMG3) e Sanepar (SAPR4) lideraram em retorno com JCP nos últimos cinco anos.

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Já empresas como Banco ABC, Sanepar, Bradesco (BBDC3; BBDC4), Isa Energia (ISAE4), Ferbasa (FESA4) e Multiplan (MULT3) usaram o JCP para 100% dos proventos pagos na mediana do período, o que, segundo analistas, pode exigir ajustes nas políticas de remuneração para manter a atratividade com os investidores.

Einar Rivero, sócio-fundador da Elos Ayta, aponta que os JCP distribuídos por essas 20 ações somaram R$ 22,06 nos 12 meses até 9 de junho, com R$ 3,30 retidos na fonte (15%). Com alíquota de 20%, a retenção subiria para R$ 4,41 — R$ 1,10 a menos no bolso do investidor.

“A mudança deve afetar setores com uso intensivo de JCP, como financeiro e energia elétrica. Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Copel e Engie estão entre os maiores pagadores de JCP”, afirma. Para ele, além de revisão nas políticas de remuneração, a medida acende um alerta para novas tributações no contexto da reforma tributária.

Veja abaixo as ações mais impactadas pela alta da alíquota do JCP

Empresa Ação Setor Mediana de retorno com JCP em 5 anos Mediana de dividend yield (dividendos + JCP) em 5 anos Quanto o JCP representa do total de proventos pagos por ação na mediana de 5 anos?
Banco do Brasil BBAS3 Bancos 7,08% 8,36% 84,60%
Cemig CMIG4 Energia elétrica 6,88% 10,51% 54,30%
ABC Brasil ABCB4 Bancos 6,73% 6,73% 100,00%
Copasa CSMG3 Saneamento 6,04% 10,22% 77,20%
Sanepar SAPR11 Saneamento 5,7% 5,7% 100,00%
Bradesco BBDC3 Bancos 5,68% 5,68% 100,00%
Banrisul BRSR6 Bancos 5,42% 6,18% 91,30%
Copel CPLE6 Energia elétrica 5,21% 8,82% 37,80%
Bradesco BBDC4 Bancos 5,19% 5,19% 100,00%
Copel CPLE3 Energia elétrica 5,16% 8,98% 37,80%
Itaú ITUB3 Bancos 5,07% 5,98% 57,50%
Santander SANB11 Bancos 4,9% 5,63% 87,60%
Isa Energia ISAE4 Energia elétrica 4,56% 8,73% 100,00%
Itaúsa ITSA4 Holdings 4,45% 5,59% 66,30%
Tim TIMS3 Telecomunicações 4,44% 6,48% 70,50%
Itaú ITUB4 Bancos 4,4% 5,14% 57,50%
Ferbasa FESA4 Siderurgia 4,26% 5,86% 100,00%
Vibra VBBR3 Exploração refino e distribuição 4,07% 8,21% 71,70%
Multiplan MULT3 Exploração de imóveis 3,72% 3,72% 100,00%
Porto Seguro PSSA3 Seguradoras 3,71% 5,33% 72,30%

Fonte: Elos Ayta Consultoria

Quem sente mais a pressão

Bancos

Tradicionalmente, os bancos são os maiores distribuidores de JCP, usando o instrumento para otimizar a carga fiscal. Por isso, devem ser os mais impactados pela nova alíquota. Para Milton Rabelo, analista da VG Research, é provável que instituições financeiras aumentem o uso de dividendos, bonificações ou recompra de ações, embora de forma marginal. Ele vê efeitos mais relevantes para Bradesco, Santander, além de bancos médios como BMG (BMGB4) e ABC Brasil.

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Mesmo com os ajustes, o dividend yield segue atrativo: Bradesco deve pagar 8,5% nos próximos 12 meses; Santander, 6,5%; BMG, 9,5%; e Banco ABC, 8%, segundo Rabelo.

Para Oliveira, todos os bancos serão afetados pela mudança, especialmente Banrisul (BRSR6) e Banco do Brasil (BBAS3), mas isso não compromete o histórico robusto do setor de décadas. “Se comprou ação de banco ciente dos fundamentos, mantenha, mas se comprou seguindo alguma dica, reavalie as empresas e o custo psicológico de tê-las”, aconselha.

Entre os bancões, o dividend yield projetado por Oliveira é de 8,22% para Banco do Brasil, 7,82% para Bradesco, 5,94% no Santander e 6,92% no Itaú.

Elétricas

O setor elétrico também será afetado pela alta da alíquota do JCP, especialmente empresas como Isa Energia (ISAE4), que fazem uso intenso do instrumento. Para Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, migrar para dividendos ou recompras pode afetar o lucro líquido das empresas ou depender de fatores como alavancagem e precificação. “É possível contornar, mas com limitações”, afirma.

Ele considera que manter o mesmo nível de remuneração das elétricas pode ser desafiador.

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Copel (CPLE6) e Isa Energia estão entre as mais impactadas, segundo Simão. Na Copel, o dividend yield pode cair de 6,2% para até 5,8%, mas os efeitos da privatização e nova política de dividendos são positivos. Já a Isa Energia deve ver o dividend yield recuar de 7% para 6,5%, com as mudanças tributárias.

Para Oliveira, dificilmente a Isa Energia tentará trocar o JCP por dividendos, porque sempre priorizou a eficiência tributária. Ele projeta dividend yield de 8,58%,

Por outro lado, empresas como Alupar (ALUP11), Cemig (CMIG4), Eletrobras (ELET6) e CPFL (CPFE3) devem manter remuneração sólida com uso equilibrado entre dividendos e recompra, aponta Duarte, da Descomplica. Ele recomenda compra para Copel, com dividend yield projetado entre 6,30% e 7,72% para os próximos 12 meses.

Para a Isa Energia, a indicação de Duarte é aguardar, com projeção de proventos entre 10,25% e 11%.

Outros setores perenes

Fora bancos e elétricas, a mudança no JCP afeta também outros setores. Em seguros, a mais impactada deve ser a Porto Seguro (PSSA3), já que BB Seguridade e Caixa Seguridade distribuem principalmente dividendos e, portanto, ficam livres de efeitos.

No saneamento, os efeitos recaem sobre Sanepar e Copasa. Em telecomunicações, empresas como Vivo, Tim e Unifique tendem a sofrer menos, com maior flexibilidade para migrar para dividendos, recompras ou bonificações.

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