Esse abismo entre teoria e prática mina qualquer chance de mudança real. Dentro de casa, as crianças seguem aprendendo o que realmente influencia: o comportamento dos pais. Elas veem os adultos parcelando compras no cartão como se fosse algo automático, escutam diariamente frases como “não tenho dinheiro”, “tô endividado”, e crescem achando que isso é o normal. Que viver no limite faz parte da vida adulta.
Os números reforçam essa herança perigosa. Mais de 77% das famílias brasileiras estão endividadas. Quase 30% têm dívidas em atraso. E uma parcela cada vez maior da população jovem entra na vida adulta sem saber organizar o próprio orçamento. A consequência? Um ciclo de endividamento que se repete e se fortalece a cada geração.
O Brasil não tem só um problema de dívida. Tem um problema de mentalidade. E mentalidade não se muda apenas com uma apostila de educação financeira. A transformação exige consistência, continuidade e, principalmente, coerência entre o que se ensina e o que se vive. É por isso que a formação dos professores precisa ser tratada como prioridade. Não adianta cobrar que eles ensinem algo que nunca aprenderam. Precisamos investir na preparação desses profissionais, com conteúdo técnico, apoio psicológico e até educação financeira voltada para eles próprios. O professor precisa estar bem para ensinar bem.
Ao mesmo tempo, é essencial trabalhar a conscientização dentro das famílias. A escola sozinha não consegue competir com anos de hábitos enraizados. É preciso abrir espaço para diálogo, criar campanhas públicas que levem o tema para dentro das casas e, principalmente, parar de normalizar o endividamento como estilo de vida. A criança aprende o tempo todo, não só na aula. Aprende com os pais, com os professores, com o que ouve no almoço de domingo ou na fila do supermercado. Se quisermos mudar a história financeira do país, essa mudança precisa começar cedo, e precisa ser vivida por todos à volta.
A boa notícia é que isso é possível. Já existem projetos bem-sucedidos em pequenas cidades que mostram que, quando a escola, a família e a comunidade caminham juntas, os resultados aparecem. Mas para isso, é preciso parar de fingir que o problema está resolvido só porque o tema entrou na grade escolar. Educação financeira não pode ser tratada como conteúdo complementar. Ela é um instrumento de transformação social. E, quando feita com seriedade, tem o poder de mudar não só o comportamento individual, mas o futuro de um país inteiro.