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Comportamento

Como era a Bolsa na primeira vez em que o Brasil se perguntou “quem matou Odete Roitman?”

Em 1988, o mercado de ações era analógico, menos expressivo e lutava para sobreviver à hiperinflação da época

Por Igor Markevich

07/10/2025 | 19:05 Atualização: 07/10/2025 | 19:05

Em 1988, enquanto o país se perguntava “quem matou Odete Roitman?”, a Bolsa brasileira vivia sob hiperinflação, sem internet e com pregões à completamente diferentes | Foto: Globo/Divulgação
Em 1988, enquanto o país se perguntava “quem matou Odete Roitman?”, a Bolsa brasileira vivia sob hiperinflação, sem internet e com pregões à completamente diferentes | Foto: Globo/Divulgação

Era 1988. A inflação era uma sombra diária: os preços subiam mais rápido do que os salários e as notas de cruzado mudavam de valor antes de sair do bolso. Ao mesmo tempo, uma novela de muito sucesso questionava, a cada episódio, se realmente “Vale Tudo” para chegar aos seus objetivos, dilema moral que pautava as telas da televisão brasileira, na obra de Gilberto Braga.

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Entre jantares finos e intrigas empresariais, o Brasil se via com a atenção voltada à figura magnética de Odete Roitman, à época interpretada por Beatriz Segall: a personagem de uma mulher poderosa, fria, símbolo de uma elite que prosperava enquanto o País cambaleava na alta de preços e desigualdades históricas.

Fora das telas, outros enredos moviam os ânimos, entre eles os das Bolsas de Valores. Sim, “bolsas” no plural. No final da década de 1980, o Brasil ainda tinha dois grandes centros de negociação: a Bovespa, em São Paulo, e a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (BVRJ), a mais antiga do País. O Ibovespa, criado em 1968, tentava se firmar como termômetro de um mercado que vivia sob o calor sufocante da hiperinflação.

Inflação de quase 1000%: como investir em ações em 1988?

A economia brasileira fechava o ano com preços acumulando alta de quase 1.000% (o IPCA bateu 980,21%). Investir em ações podia ser tão arriscado quanto os jogos de azar. Havia pouco mais de 80 mil investidores individuais registrados em todo o país, número sessenta vezes menor que as 5 milhões de pessoas físicas que hoje operam na B3. 

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Os grandes nomes do pregão eram Petrobras, Vale do Rio Doce(ainda estatal) Bradesco, Itaú, Unibanco, Banco do Brasil e Banespa, que figuravam entre os papéis mais negociados, enquanto instituições como Nacional e Bamerindus ainda simbolizavam a força dos bancos privados em meio ao turbilhão inflacionário. Eram eles que puxavam boa parte da liquidez do mercado, sustentando um ambiente que começava a entender o poder do capital financeiro no País.

Investir na Bolsa era uma experiência completamente diferente da atual. Nada de internet, aplicativos ou gráficos em tempo real: as cotações só eram conhecidas no dia seguinte, publicadas nos jornais ou repassadas por corretores.

Enquanto o público especulava sobre quem matou Odete Roitman, o mercado de capitais brasileiro caminhava para um escândalo real, que tinha como protagonista o investidor Naji Nahas, culminaria na quebra da Bolsa do Rio em 1989 (mesmo ano em que a novela acabou). O episódio, causado por operações alavancadas e falhas regulatórias, marcou o fim da BVRJ e consolidou São Paulo como o centro do mercado financeiro nacional.

Trinta e sete anos depois, o Brasil volta a sentar-se em frente à televisão para cantar a música de Cazuza na voz de Gal Costa, agora em outra configuração, com as redes sociais e os pregões digitais refletindo um mundo completamente diferente, mas não menos intenso. A B3 é hoje uma das maiores bolsas da América Latina, opera em tempo real, com um índice que tem prensão de chegar aos 150 mil pontos — uma escala impensável para quem operava entre 1988 e 1989, quando cada oscilação era registrada manualmente e as negociações dependiam de ligações telefônicas.

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Em 2025, Odete, agora interpretada por Débora Bloch, volta à cena como símbolo de poder e mistério, sob o olhar de um Brasil completamente transformado e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.

Afinal, em meio à popularização de criptoativos, ETFs, BDRs, FIIs, derivativos, produtos ESG e da inteligência artificial, uma velha pergunta reemerge no imaginário do país: quem matou Odete Roitman?

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