“O início iminente do ciclo de cortes na taxa de juros no Brasil, combinado com um cenário externo sob controle, que também permite a continuidade dos cortes de juros pelo Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA], nos leva a manter nossa postura otimista em relação ao mercado acionário“, afirma o Safra, no seu relatório de estratégia.
Esse pano de fundo levou o banco a revisar parâmetros-chave do modelo: a projeção para a taxa livre de risco foi reduzida de 4,3% para 4,1%, e o risco-país caiu de 2,7% para 2,4%, o que resultou em um custo de capital próprio de 14,3%, ante 14,8% anteriormente.
Do lado dos fundamentos, o Safra elevou levemente a estimativa de lucro por ação (LPA) do índice, para 21.283 pontos, contra 21.179 na projeção anterior. Aplicado a um múltiplo preço/lucro (P/L) alvo de 9,3 vezes, esse conjunto de premissas sustenta a meta de 198 mil pontos, nível próximo ao marco simbólico dos 200 mil.
Apesar do viés positivo, o banco reconhece que o ambiente para 2026 tende a ser mais desafiador. As incertezas em relação às eleições 2026 no Brasil aparecem como um fator central de risco, com potencial de afetar as perspectivas fiscais e econômicas de longo prazo.
Além disso, embora o Ibovespa ainda negocie a múltiplos descontados em relação à média histórica, esses descontos já são menores do que os observados no início de 2025, o que limita o espaço para reprecificação sem melhora adicional do cenário.
As empresas queridinhas do Safra
Diante desse quadro, o Safra optou por um posicionamento mais seletivo. Segundo o relatório, “para enfrentar o cenário de 2026, decidimos selecionar empresas que combinam qualidade de ativos e gestão, alavancagem controlada e algum potencial de crescimento para suportar a maior volatilidade esperada para o próximo ano”.
Entre os nomes destacados estão Gerdau (GGBR4), Rede D’Or (RDOR3), Copel (CPLE3), Motiva (MOTV3) e Telefônica Brasil (VIVT3). O banco também traçou cenários alternativos (otimista e pessimista), a depender da evolução da percepção sobre o ciclo fiscal e econômico à medida que o debate eleitoral avance.
O relatório chama atenção, ainda, para um conjunto amplo de riscos que podem alterar essa trajetória. Entre eles estão uma desaceleração mais acentuada da economia global, com impacto sobre as commodities; deterioração fiscal adicional no Brasil; crescimento menor do Produto Interno Bruto (PIB); piora do ambiente geopolítico; um aperto monetário mais intenso nos Estados Unidos, afetando o diferencial de juros; e mudanças tributárias desfavoráveis às empresas.
E a B3?
Além da visão para o índice, o Safra também avaliou as perspectivas para a B3 (B3SA3) em 2026, adotando um tom mais cauteloso. O banco classificou como neutras as orientações divulgadas pela companhia em relação a dividendos, despesas operacionais, investimentos, depreciação, amortização e alavancagem.
“O ponto médio das despesas ajustadas (+6% A/A) sugere um crescimento acima da inflação e alguma aceleração em relação ao ritmo atual”, observa o Safra, destacando que, sem uma aceleração mais forte da receita, o cenário aponta para mais um ano de compressão da margem de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda).
O banco também ressalta que a B3 anunciou um novo programa de recompra de ações, menor do que o anterior, equivalente a até 4,6% do total de papéis.
O Safra enxerga espaço para o Ibovespa se aproximar dos 200 mil pontos em 2026, sustentado por juros mais baixos e fundamentos ainda sólidos, mas ressalta que a trajetória será marcada por maior volatilidade e dependerá, em grande medida, da evolução do cenário político e fiscal no Brasil e das condições financeiras globais.