Balanços dos grandes bancos dos EUA no 4T25 testam a tese de soft landing e calibram expectativas para 2026
Resultados de Bank of America, Wells Fargo e Citigroup reforçam a leitura de resiliência da economia americana, mas indicam que o melhor momento do ciclo de juros para o setor bancário pode ter ficado para trás
Os resultados do 4T25 dos grandes bancos americanos reforçam a leitura de desaceleração ordenada da economia, mas mantêm o investidor atento à trajetória dos juros em 2026 (Foto: Adobe Stock)
A temporada de balanços do quarto trimestre de 2025 (4T25) nos Estados Unidos começa com os grandes bancos no centro das atenções e cumpre, até aqui, um papel mais de termômetro inicial da economia do que de gatilho para grandes movimentos de mercado. Para o investidor, os números ajudam a calibrar expectativas sobre crescimento, juros e risco, mas ainda não encerram o debate sobre 2026.
Um primeiro ponto de atenção é a própria estrutura do sistema bancário americano. Diferentemente do Brasil, onde poucos grandes bancos concentram a maior parte do crédito e dos resultados, o setor nos EUA é altamente pulverizado.
“O setor bancário americano, por mais que você tenha os gigantes, é muito mais pulverizado. Não é igual aqui no Brasil, em que o resultado de quatro bancos já dá uma boa noção do mercado”, observa Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.
Segundo ele, essa fragmentação faz com que problemas em instituições menores, como já ocorreu em episódios recentes, possam gerar ruídos relevantes, mesmo quando os grandes bancos seguem sólidos.
Ainda assim, os balanços dos bancões trazem sinais importantes. Na leitura de Cruz, eles continuam se beneficiando do ambiente de juros mais altos em comparação com o padrão observado nos últimos 15 anos. Após um longo período de taxas próximas de zero, a perspectiva de juros em torno de 2,75% a 3% segue relativamente atrativa.
No entanto, ele pondera que, nos EUA, a principal fonte de lucro dos grandes bancos não está apenas na renda fixa. “Não é da renda fixa que eles tiram boa parte dos seus lucros. É corretagem, transação, fusão e aquisição, investment banking“, diz.
Resultados resilientes apesar da desaceleração econômica
Essa dinâmica ajuda a explicar por que os resultados recentes mostram resiliência mesmo em um cenário de desaceleração gradual da economia.
Para Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, os balanços de instituições como Bank of America e Wells Fargo reforçam, neste momento, a narrativa de soft landing (uma desaceleração ordenada, sem recessão iminente).
“A resiliência da receita com juros e a inadimplência ainda controlada, especialmente no crédito corporativo e em segmentos de maior renda, mostram que a economia americana segue desacelerando de forma organizada”, afirma.
Os dados de crédito, por enquanto, corroboram essa leitura. O consumo segue sustentado e o mercado de trabalho ainda dá suporte à capacidade de pagamento das famílias.
Há, é verdade, sinais iniciais de aumento da inadimplência em cartões de crédito e no crédito ao consumidor de menor renda, mas de forma gradual e já amplamente monitorada pelo mercado. “Não dá para dizer que existe um risco sistêmico. O sistema está sólido, com capital robusto e provisões adequadas”, ressalta Boragini, embora reconheça que o risco para 2026 é assimétrico, especialmente se os juros permanecerem elevados por mais tempo.
Margem financeira ganha centralidade
Na avaliação de Boragini, o pico de expansão das margens já ficou para trás. Os bancos ainda extraem valor do atual patamar de juros, mas o efeito positivo é menor do que em 2023 e 2024.
O aumento do custo de captação, a competição maior por depósitos e a perda de tração do crédito começam a aparecer nos balanços. “Juros altos ainda ajudam o resultado, mas com eficiência decrescente. Se o Fed mantiver juros elevados por muito tempo, o efeito pode passar de positivo para neutro”, explica.
Essa leitura dialoga com a visão mais ampla sobre política monetária e ativos globais. Para Boragini, os resultados dos grandes bancos reforçam a tese de “higher for longer” (juros mais altos por mais tempo) ainda que não eliminem a possibilidade de cortes mais à frente.
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Isso reduz a urgência do Federal Reserve em flexibilizar a política monetária, sustenta um dólar mais forte e pressiona os yields dos Treasuries, sobretudo nos vencimentos intermediários e longos.
Para mercados emergentes como o Brasil, o impacto tende a ser misto, com fluxo externo mais cauteloso, alguma pressão sobre o câmbio, mas sem choque, desde que a desaceleração global siga ordenada.
Pano de fundo macro projeta um 4T25 positivo
Na visão da XP Investimentos, esse pano de fundo macroeconômico ainda permite esperar uma temporada de resultados construtiva no 4T25 para as empresas americanas.
A casa projeta crescimento de 8,0% do lucro por ação (LPA) do S&P 500 na comparação anual, com viés assimétrico para surpresas positivas. O cenário combina resiliência da atividade econômica, redução das distorções causadas por tarifas e uma proporção elevada de guidances (quando empresas de capital aberto divulgam projeções e expectativas) positivos.
Mesmo após revisões positivas ao longo do trimestre, a XP avalia que as estimativas ainda refletem o choque negativo gerado pelas incertezas do chamado Liberation Day (quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou taxas de importação a dezenas de nações).
Riscos em 2026
Para os bancos, esse contexto se traduz em um equilíbrio delicado. De um lado, a economia ainda longe de uma ruptura e um sistema financeiro capitalizado; de outro, sinais de que o melhor momento do ciclo de juros já passou para o setor.
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Boragini acredita ser “um cenário de desaceleração controlada, mas com riscos crescendo no horizonte de 2026”. Já para Cruz, os balanços bancários seguem sendo mais uma leitura inicial da temporada do que um divisor de águas para os mercados, ajudam a entender o estado da economia, mas não determinam, sozinhos, os próximos movimentos de Treasuries, dólar ou bolsas globais.
Para o investidor, a mensagem central é de cautela construtiva. Os resultados confirmam resiliência no curto prazo, mas exigem atenção redobrada à evolução do crédito, das margens e, sobretudo, à trajetória dos juros ao longo de 2026.