Estrangeiro não acha que um Lula 4 será muito pior do que é hoje, diz Stuhlberger
Fluxo de capital estrangeiro na B3 já soma 17,7 bilhões, impulsionando o Ibovespa a novos recordes; CEO da Verde Asset discorda da avaliação de risco, mas mantém posições "pró Brasil" na carteira do fundo
Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset. (Foto: Jorge Bianco/UBS)
A entrada relevante de capital estrangeiro na Bolsa brasileira mostra que o investidor internacional não está tão preocupado com as eleições presidenciais de 2026 ou uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), avalia Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset. “Eu posso até discordar, mas esse movimento do gringo ignora solenemente a questão eleitoral”, disse o gestor nesta terça-feira (27), na Latin American Investments Conference (LAIC), evento promovido pelo UBS e UBS BB em São Paulo.
Até o pregão da sexta-feira (23), dado mais recente disponibilizado pela B3, o fluxo de capital estrangeiro somava R$ 17,72 bilhões. É mais do que a metade de toda a entrada na Bolsa brasileira em 2025, suficiente para fazer o Ibovespa saltar mais de 13% somente neste mês de janeiro.
Boa parte desse movimento ainda tem a ver com um cenário mais benigno para ativos de risco no exterior, com a rotação de carteiras que vinham há tempos muito concentradas no mercado dos Estados Unidos e agora buscam outras geografias. É a continuidade da história que já vinha acontecendo em 2025 e fez o IBOV subir 34% no ano passado.
No mercado local, 2026 começou com certa preocupação se essa alta, que levou o índice a patamares nunca vistos antes, seria sustentável. Afinal, os anos de eleições costumam ser tradicionalmente mais voláteis e o investidor poderia tirar o pé do acelerador. No entanto, com o exterior se sobrepondo e gringo “ignorando” esse tema, o fluxo de entrada nas ações brasileiras permanece muito elevado.
Nesse cenário, a Verde Asset não tem planos de abrir mão das posições pró-Brasil que tem na carteira, que inclui uma seleção de Bolsa, NTN-Bs 2035 e algumas estruturas de câmbio. É uma exposição equilibrada, com instrumentos de hedge capturar os ganhos vindos do fluxo elevado de capital estrangeiro, mas proteger o fundo.
“Ainda tem algumas coisas baratas nesse bull market. Em algum momento do ano terei de pensar se fico com as posições pró Brasil, mas, devido à natureza binária da eleição, é melhor manter. Não é óbvio que o investidor consiga se posicionar faltando poucos dias para as eleições, se chegar lá sem nada. O mercado vai ficar ilíquido”
As preferências dos gestores
Como mostramos aqui, na última carta de gestão mensal, a Verde aumentou as posições em real e mantém as operações via opções no mercado local para se proteger de eventuais riscos políticos.
A maior assimetria na visão de Stuhlberger está no câmbio. O gestor acredita que o fair value da moeda hoje seria uma cotação de R$ 4,40, muito abaixo dos atuais R$ 5,2. E que o presidente americano Donald Trump seguirá fazendo o “possível e o imaginável” para manter o dólar desvalorizado.
“Tem algumas coisas baratas nesse bull market. Para quem tem facilidade de comprar hedge barato, acho bom. Não faria posição nova de Bolsa porque já andou muito”, disse.
Já Bruno Coutinho, CEO da Mar Asset, vê uma assimetria maior nas NTN-Bs longas. O argumento, porém, já tem a ver com eleições. “A discussão de fluxo é sempre sedutora, mas complexa, porque nunca sabemos quando ele vai aparecer e quando vai embora. Na gestão, acabo me atentando ao que consigo enxergar; e são as contas de cenários para as eleições”, explicou.
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Pelos cálculos da gestora, a Bolsa hoje precifica 55% de chance de Lula não ser reeleito, enquanto o câmbio está precificado por uma disputa 50/50. A disparidade maior está nos títulos do Tesouro, cujas taxas indicam uma precificação de 60% de chances de reeleição petista. “O investidor estrangeiro que entrou no Brasil é um investidor de Bolsa, que compra EWZ e carrega o câmbio junto. As NTN-Bs são os ativos mais fora do lugar; se a conta caminha para 50% de chances de reeleição, já estaríamos falando de um fechamento de 70 pontos na curva. É muita coisa”, afirmou Coutinho.
A gestora vem transferindo as posições de EWZ para aumentar a alocação de renda fixa.