O dólar encerrou 2025 com a maior queda anual em oito anos e investidores projetam novas perdas caso o próximo presidente do Fed adote cortes mais agressivos de juros. A sucessão de Jerome Powell entra no radar do mercado. (Imagem: Adobe Stock)
A fraqueza do dólar não se limita a um movimento pontual de 2026. Desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, a moeda norte-americano vem se depreciando em função da escalada das tensões geopolíticas e do aumento das expectativas de corte nos juros nos Estados Unidos. A combinação desses dois fatores tem levado os investidores estrangeiros a buscar diversificar o portfólio, tanto em ativos de proteção quanto em mercados emergentes, como o Brasil.
Dados da Economatica mostram que, em janeiro de 2026, o dólar acumula uma depreciação de 4,78% frente ao real. No acumulado dos últimos 12 meses, a queda chega a 14%. O enfraquecimento da moeda americana também é observado no cenário internacional. O índice DXY, que compara o desempenho do dólar contra outras seis divisas fortes, recua 12,76% no mesmo período.
Essa depreciação tem relação direta com as ações do novo governo de Donald Trump. Logo no início do seu mandato, o republicano anunciou um amplo pacote de tarifas de importação que atingiu mais de 90 países. A medida elevou a incerteza sobre o comércio global e desencadeou disputas da Casa Branca com diversos parceiros comerciais, como o Brasil.
Já em 2026, novos riscos geopolíticos entraram no radar do mercado. No último dia 3, tropas americanas bombardearam Caracas, capital do país, e capturaram o ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, sob a justificativa de que o líder venezuelano teria conspirado para o narcoterrorismo. A ação desencadeou uma série de dúvidas no mercado quanto aos desdobramentos da ofensiva e seus impactos sobre a oferta global de petróleo.
Na sequência, o republicano voltou a defender publicamente a compra da Groenlândia ao classificá-la como prioridade para a segurança nacional dos EUA. O presidente até cogitou o uso da força militar para tomar a região e ameaçou a impor tarifas contra os países da União Europeia contrários à proposta.
Ainda em janeiro, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) recebeu uma intimação do Departamento de Justiça (DoJ, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Segundo Jerome Powell, presidente do órgão, a ameaça de acusação criminal diz respeito ao seu testemunho prestado no Senado dos EUA em julho passado, sobre o projeto de renovação do edifício do Fed. No entanto, para ele, a ação faz parte de uma campanha contínua de Trump contra sua gestão, que não tem cedido às pressões por cortes mais intensos de juros. Nesta quarta (28), o Fed decidiu manter as taxas no intervalo entre 3,5% e 3,75%, após três cortes seguidos e em meio à pressão de Trump por mais reduções.
“Tudo isso tem penalizado o dólar no exterior. Vemos espaço para a extensão deste movimento nos próximos meses”, diz Clara Negrão, economista da Ágora Investimentos.
Gringo derruba dólar e faz bolsa subir
A sucessão desses eventos, aliada à imprevisibilidade dos seus desfechos, desencadeou um movimento de rotação de portfólio, com os investidores reduzindo suas alocações nos Estados Unidos e redirecionando para mercados emergentes, como o Brasil. Até o dia 23 de janeiro, os estrangeiros aportaram R$ 17,728 bilhões na Bolsa brasileira neste ano, segundo dados da B3. Para efeito de comparação, eles haviam ingressado com R$ 25,473 bilhões em 2025
Na bolsa brasileira, o reflexo desse movimento tem sido imediato. Em 2026, o índice sobe 12,91%, ampliando os ganhos dos últimos 12 meses para 45,70%. Já na terça-feira (27), enquanto o dólar fechou no seu menor nível desde maio de 2024, o Ibovespa renovou o seu recorde histórico e fechou acima dos 181 mil pontos pela primeira vez.
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Além da diversificação geográfica, o interesse dos estrangeiros visa obter lucros com a diferença de juros entre as duas economias. Esse movimento ajuda a enfraquecer o dólar e fortalecer o real.
Dólar pode cair abaixo dos R$ 5?
Caso o fluxo estrangeiro em direção ao Brasil se mantenha nos próximos meses, é provável que o dólar prossiga em queda frente ao real e volte a ser negociado abaixo dos R$ 5. Para Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset, o valor justo da moeda hoje seria uma cotação de R$ 4,40, muito abaixo dos atuais R$ 5,20. Durante a Latin American Investments Conference (LAIC), evento promovido pelo UBS e UBS BB em São Paulo, o gestor afirmou que Trump faria “possível e o imaginável” para manter o dólar desvalorizado.
Há um porquê por trás desse interesse. Segundo William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue e colunista do E-Investidor, a iniciativa tende a favorecer a indústria dos Estados Unidos. “O dólar mais fraco torna o produto americano mais competitivo em nível global”, esclarece. O cenário doméstico, contudo, pode limitar esse movimento de queda em função das eleições presidenciais, previstas para outubro deste ano.
Segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, é esperado que, a partir de meados de abril e ao longo do segundo semestre, o tema eleição passe a dominar a precificação dos ativos no Brasil. E neste contexto, a agenda doméstica tende a prevalecer na análise de risco dos investidores.
“A questão fiscal brasileira está longe de ser equacionada e a próxima administração terá de enfrentar um processo de ajuste fiscal”, diz o especialista. Por isso, Rodrigo Miotto, gerente de câmbio da Nippur Finance, acredita que o dólar abaixo de R$ 5 seja pouco provável. “A maioria dos bancos projeta o câmbio entre R$ 5,30 a R$ 5,50 para o fim de 2026″, diz Miotoo.
Vale investir em dólar agora?
O cenário não retira a importância de destinar parte do patrimônio em ativos dolarizados. Isso porque os títulos soberanos dos EUA continuam com rentabilidades acima de 3,5% em moeda forte e ainda atuam na diversificação de portfólio. A estratégia ainda protege o capital do “risco Brasil” que, segundo Castro Alves, poderá pressionar o mercado de câmbio nos próximos meses, especialmente com a proximidade das eleições presidenciais. “Momentos de queda do dólar são sempre uma oportunidade de dolarizar parte da carteira. E olhando para a frente, tenho minhas dúvidas se os fundamentos da economia brasileira sustentam uma valorização do real”, avalia o estrategista chefe da Avenue.
Já o nível de exposição vai depender do perfil de risco de cada investidor. O método mais conservador, na avaliação dos analistas, consiste em fazer aportes periódicos (mensais, semanais ou trimestrais) para obter um preço médio do dólar. “O mais aconselhável é definir previamente a fatia do patrimônio que será destinada ao exterior e seguir fielmente o plano, sem se preocupar excessivamente com oscilações pontuais na cotação do dólar“, orienta Sahini.