Se você ainda acha que stablecoin é “uma coisa do mundo cripto”, lamento informá-lo que está equivocado.
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Se você ainda acha que stablecoin é “uma coisa do mundo cripto”, lamento informá-lo que está equivocado.
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Stablecoins são criptoativos desenhados para manter paridade com um ativo de referência, tipicamente uma moeda fiduciária, emitida por um banco central, como dólar ou real. Na prática, elas funcionam como “dinheiro digital” que roda em blockchain: você tem a previsibilidade de preço de uma moeda tradicional, mas com a portabilidade e a liquidação do mundo cripto. Quando alguém fala “stablecoin”, quase sempre está falando de stablecoins de dólar, porque são, disparado, as mais usadas e líquidas do planeta, com mais 99% do estoque da categoria. Mas, conceitualmente, uma stablecoin pode existir atrelada a qualquer moeda fiduciária, do real ao euro, desde que o desenho do emissor e das reservas sustente essa paridade.
O mercado evoluiu. As stablecoins viraram trilho de pagamento do dia a dia para muita gente. E não só dentro do circuito cripto, do tipo “comprei Bitcoin, vendi Bitcoin e fiquei em stablecoin”. Stablecoin hoje é usada para pagamento internacional, liquidação, remessas, tesouraria e para mover dinheiro com menos fricção em lugares onde o sistema tradicional é caro, lento ou simplesmente não conversa bem com o resto do mundo.
O ponto é simples: pagamento todo mundo faz. Você fez um Pix hoje? Ou ontem? Muito provavelmente, sim. No Brasil, a dor do pagamento doméstico foi muito bem resolvida, a ponto de a gente quase esquecer como era antes. Isso muda a percepção do brasileiro sobre stablecoins, porque aqui a fricção do dia a dia é baixa e a gente tem uma preferência natural por operar em reais.
Só que o mundo não é homogêneo. Tem país que é menos conectado, tem moeda local que não é “desejada”, tem sistema bancário que não entrega e tem uma dor transfronteiriça gigante, remessa, importação, freelancer, família fora, liquidação internacional, que segue cara e lenta. Nesses lugares, stablecoin resolve essas dores de um jeito muito rápido e barato.. E mesmo num país relativamente fechado como o Brasil, ela encontra espaço: como trilho alternativo para operações internacionais, como ponte de liquidez e como forma de portar valor em moeda forte quando o contexto pede. A forma mais inteligente de ter exposição em dólares hoje. E ainda consegue ter a rentabilidade do Tesouro americano em muitas plataformas, algo que não era trivial até bem pouco tempo atrás.
O paralelo com a internet é inevitável. Antes, comunicação global era intermediada, cara e cheia de pedágios. A internet transformou isso em pacotes de dados. Stablecoins estão fazendo algo parecido com dinheiro, transformando valor em um formato nativamente digital.
A Tether, emissora do USDT, é o melhor exemplo de como esse trilho ganhou escala. O USDT, a stablecoin de dólares da Tether, está com quase US$ 200 bilhões em circulação, e isso não é um detalhe, é um sinal de infraestrutura construída.
Quando você olha um número desses, a pergunta natural é: “ok, e esse dinheiro está lastreado em quê?”. E aqui entra uma diferença importante em relação ao Bitcoin e outras criptomoedas.
Bitcoin tem política monetária própria. Já a stablecoin é promessa de paridade. O lastro importa, e importa muito.
Esse tema foi questionado lá atrás, há anos, de forma pesada. Hoje, isso está bem mais endereçado, não por fé, mas por prática: a própria Tether mantém uma página de transparência e publica relatórios periódicos de reservas e atestações, virando referência do que o mercado passou a exigir como padrão mínimo de prestação de contas.
E aqui vale um ponto que pouca gente fora do setor percebe: a história do USDT não é só “moeda para trader”. É distribuição. É alcance. É liquidez.
Os dados on-chain (isto é, registrados publicamente em blockchain e observáveis por qualquer um) mostram que stablecoins têm vida própria, com dinâmica de circulação que vai muito além de volume de exchange. E, em muitos recortes, o USDT segue dominante por adoção e uso.
Outro número que dá dimensão da coisa: 500 milhões de usuários. Isso por si só já diz que stablecoin virou produto de massa.
E massa em finanças tem um efeito colateral inevitável: atrai regulação.
No ano passado, os EUA começaram a sair do improviso regulatório. A promessa política de Donald Trump era criar um ambiente menos punitivo por enforcement e mais previsível para inovação. E isso desembocou em duas frentes.
De um lado, a discussão de estrutura de mercado e competências regulatórias ganhou tração com o Digital Asset Market Clarity Act (o “Clarity Act”), que foi a grande peça de mercado de cripto na agenda legislativa de 2025, e segue em discussão nos EUA.
De outro, stablecoin ganhou um trilho próprio com o GENIUS Act, estabelecendo definições e critérios sobre quem pode emitir, sob qual supervisão e com quais exigências para um ativo ser considerado aderente e poder circular dentro do mercado americano de forma regular. Aliás, uma curiosidade: GENIUS é um acrônimo para “Guiding and Establishing National Innovation for U.S. Stablecoins”.
É nesse contexto que nasce a USA₮ (USAT), o “USDT versão Estados Unidos”. É um produto desenhado para caber no arcabouço americano, com emissão e distribuição dentro de uma lógica regulatória específica.
Esse movimento diz muito sobre o estágio do mercado. A promessa de soluções globais, “one size fits all”, vai sendo cada vez mais desafiada. Estamos em uma era de segmentação regulatória.
A Tether não é só o USDT. É uma empresa que hoje discute valuation na casa de US$ 500 bilhões, no clube das maiores negociações privadas do planeta, comparável em com gigantes como a OpenAI.
E o motor disso é balanço. Stablecoin grande vira um negócio de gestão de reservas, liquidez, risco e distribuição.
A própria cobertura recente do Financial Times mostra como a Tether se posiciona, inclusive com exposição relevante a Treasuries, e como o mercado acompanha esse mix de reservas de perto. Se a Tether fosse um país, ela sentaria na mesma mesa dos grandes: com mais de US$ 120 bilhões em Treasuries, ela já chegou a aparecer como o 19º maior detentor de títulos do Tesouro americano, à frente da Alemanha e de Israel, por exemplo. Como referência, o Brasil soberano tem algo como US$ 170 bilhões em Treasuries, ou seja: uma empresa de stablecoin está operando num patamar comparável ao de países inteiros quando o assunto é financiar o governo dos EUA via dívida pública. Isso tem um impacto gigantesco quanto a relevância com que o tema vem sendo tratado na Casa Branca.
Esse fenômeno global tem reflexo direto aqui. Porque o brasileiro já usa stablecoin de dólar. Isso é fato. USDT e outras stablecoins viraram ferramenta de acesso a dólar digital, hedge e movimentação.
Mas uma stablecoin de reais atende outra camada, mais doméstica e, ao mesmo tempo, muito estratégica: criar trilho nativo do real no mundo on-chain, com governança e padrão institucional.
A BRL1 nasce exatamente nessa lógica, como uma stablecoin 1:1 com o real, emitida por uma rede em consórcio com Mercado Bitcoin, Bitso, Foxbit e Cainvest.
E o sinal de demanda veio rápido. Em poucos meses, a BRL1 já apareceu entre os cinco ativos de maior volume nas exchanges brasileiras no último semestre, o que mostra que existe uso real para uma stablecoin de reais, nem que seja no começo como trilho de liquidez entre exchanges.
Só que não para aí. Uma stablecoin de real tem uma lista de casos de uso que conversam com o Brasil do mundo real:
Um trilho alternativo ao Pix, não porque o Pix seja ruim, ele é genial, mas porque o Brasil já aprendeu, na prática, que trilho único cria gargalos, incentiva fraude em massa e concentra risco operacional.
Os EUA já têm lei específica e detalhada para stablecoins. O Brasil ainda não tem essa profundidade de regra cirúrgica focada em stablecoin de real, mas a direção é essa. Estamos entrando numa fase regulatória bem mais séria para o mercado de ativos virtuais.
As Resoluções do Banco Central publicadas no fim de 2025 definem stablecoin como “ativo virtual referenciado em moeda fiduciária”, amarram o conceito de ativos de reserva e trazem um conjunto de requisitos de governança e funcionamento para prestadores de serviços.
E o marco temporal é objetivo, grande parte desse arcabouço entra em vigor agora, em 2 de fevereiro de 2026.
Isso muda o jogo porque muda o padrão de mercado. Produto, infraestrutura, custódia, prova de reservas, governança e controles passam a ser parte do “mínimo aceitável”, não é mais um diferencial de marketing.
O investidor sente isso na ponta como segurança. O mercado sente como institucionalização.
E, quando você junta as peças, dá para ver o desenho completo: Tether globaliza o dólar na forma de stablecoin. USAT mostra o nascimento da versão regulada para o maior mercado do mundo. BRL1 mostra o Brasil construindo sua própria camada de real digital no trilho cripto, com governança e apetite de mercado.
Stablecoin virou infraestrutura. Quem tratar como assunto paralelo, distração ou “coisa do mercado cripto” vai descobrir tarde demais que, no financeiro, o trilho mais eficiente sempre vence.
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