Banco do Brasil divulga balanço do 4T25 em meio à pressão no crédito do agronegócio e expectativa por sinalizações para 2026. (Foto: Adobe Stock)
O Banco do Brasil (BBAS3) divulga nesta quarta-feira (11), após o fechamento do mercado, o balanço do quarto trimestre de 2025 (4T25). O resultado chega cercado de expectativas e cautelas após um ano marcado por forte deterioração da qualidade da carteira de crédito, sobretudo no agronegócio, aumento expressivo das provisões e revisão para baixo do guidance (projeções) ao longo de 2025.
O E-Investidor reuniu as principais análises de especialistas sobre o que o acionista deve observar no balanço e nas sinalizações para 2026.
Carteira de crédito segue pressionada pelo agronegócio
O principal ponto de atenção continua sendo a qualidade da carteira de crédito. O Banco do Brasil mantém cerca de um terço de sua exposição concentrada no agronegócio, característica estrutural do banco, que funciona como alavanca em momentos favoráveis, mas pesa nos ciclos adversos.
“Não devemos ver grandes mudanças estruturais na carteira no curto prazo”, afirma Victor Bueno, sócio e analista de ações da Nord Investimentos. Segundo ele, o banco colheu frutos entre 2022 e 2024, período de super safra, preços favoráveis e juros mais baixos, mas agora enfrenta o movimento inverso.
“Mesmo com safra recorde em 2025, o produtor está pressionado por juros elevados e por dívidas carregadas dos últimos anos, o que eleva a inadimplência e as provisões”, explica Bueno.
Essa leitura é compartilhada por Tiago Veloso, economista formado no Ibmec, que destaca o caráter estrutural da exposição do BB ao agro. “Quando o setor está bem, isso impulsiona o resultado. Em períodos de estresse, essa mesma característica pesa contra”, afirma. Para ele, o grande desafio do banco é reduzir a inadimplência acima de 90 dias e conseguir rolar essas dívidas de forma organizada, sem comprometer a rentabilidade futura.
No terceiro trimestre de 2025, a inadimplência acima de 90 dias saltou para 4,93%, enquanto provisões cresceram 77%. Para o 4T25, a expectativa do mercado é de continuidade da pressão, sem sinais claros de reversão imediata, segundo análise de Régis Chinchila, da Terra Investimentos.
Em relação à margem financeira, os analistas não esperam grandes surpresas na comparação trimestral. A margem financeira bruta tende a se manter relativamente estável, sustentada pelo crescimento da carteira de crédito e pela contribuição da tesouraria, que ainda se beneficia de juros elevados.
“O problema não está na geração de margem bruta, mas no custo do crédito”, explica Victor Bueno. “As provisões seguem consumindo parte relevante do resultado financeiro, o que deve pressionar novamente a margem financeira líquida”, afirma o especialista.
Na comparação com os grandes bancos privados, o banco aparece em desvantagem.
“O BB depende muito do agro e tem menos flexibilidade para repassar custos do que Itaú, Bradesco e Santander”, afirma Tiago Veloso.
Enquanto os privados contam com carteiras mais diversificadas e maior eficiência na precificação do risco, o BB sofre mais em cenários de estresse de crédito.
Ainda assim, segundo Tales Barros, líder de renda variável da W1 Capital, a margem do banco segue resiliente. “No trimestre anterior, a margem foi sustentada pelo crescimento das receitas com crédito e por uma boa contribuição da tesouraria. Isso tende a se repetir, ainda que com alguma compressão no acumulado do ano”, detalha Barros.
ROE segue deprimido e distante dos pares
Outro ponto-chave do balanço é a rentabilidade. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) do Banco do Brasil caiu de 21,5% no terceiro trimestre de 2024 para 8,4% no 3T25, refletindo o impacto direto do aumento das provisões.
Para o 4T25, a expectativa é de leve melhora sequencial, mas ainda em patamar baixo. “Devemos ver um ROE na casa de 8% a 9%, o que colocaria o banco muito distante dos pares”, afirma o sócio da Nord. Itaú (ITUB4), por exemplo, reportou ROE próximo de 24%, enquanto Bradesco (BBDC4) e Santander (SANB11) operam entre 15% e 17%.
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Na visão do economista Veloso, esse diferencial é relevante em um cenário de juros em queda. “Quando o juro cai, o investidor passa a pagar mais por previsibilidade, qualidade e consistência de resultados. Para recuperar esse prêmio, o BB precisa mostrar uma normalização clara da carteira, especialmente no agronegócio”, explica.
O líder de renda da W1 Capital pondera que o banco pode estar próximo de um piso cíclico de rentabilidade. “A queda do ROE não reflete uma deterioração operacional estrutural, mas sim o pico do custo de crédito. Existe potencial de recuperação à medida que esse custo normalize, especialmente a partir do segundo semestre”, afirma.
Guidance de 2026 no centro das atenções
Se o balanço do trimestre deve trazer poucas surpresas, o grande foco do mercado estará noguidance para 2026. Ano passado, o BB começou o ano com projeções otimistas, mas foi forçado a revisar números e cortar expectativas de lucro e dividendos ao longo do caminho. “O mercado chega bastante cético”, diz Bueno.
“O banco já sinalizou payout [porcentagem de lucro líquido distribuído aos acionistas] de 30% para 2026, o que reforça uma leitura mais conservadora, com menos espaço para dividendos”, defende o sócio.
Segundo Régis Chinchila, a expectativa é de um guidance prudente, com crescimento mais moderado da carteira e forte ênfase no controle de custos e de risco. “A grande dúvida é se o banco conseguirá sinalizar estabilização das provisões no agronegócio. Isso seria fundamental para projetar um lucro mais robusto”, afirma Chinchila.
O economista Tiago Veloso destaca três pontos que devem nortear o guidance:
O nível de conforto com as provisões;
O ritmo de crescimento do crédito em um cenário de juros ainda elevados; e
A disciplina de custos em um ambiente competitivo.
“A queda de juros ajuda, mas a conta dos juros altos contratados no passado ainda não foi totalmente paga”, acrescenta.
Na visão de Barros, há espaço para um tom um pouco mais construtivo para o Banco do Brasil, olhando adiante. Com a perspectiva de início do ciclo de cortes de juros e alguma recuperação nos preços das commodities agrícolas, o cenário para 2026 pode ser mais equilibrado. “A administração tem mostrado disciplina de custos e foco em tecnologia para ganhar eficiência operacional”, ressalta o especialista.