Como forma de reação, Trump anunciou nesta sexta-feira que assinará ainda hoje um decreto impondo uma tarifa global de 10% com base na Seção 122 da Lei de Comércio. “A decisão da Suprema Corte é profundamente decepcionante”, afirmou em coletiva convocada após o veredicto. “Tenho vergonha de certos membros da Suprema Corte”, disse, ao mesmo tempo em que parabenizou os juízes dissidentes que votaram a favor das tarifas.
O republicano afirmou que a nova tarifa global de 10%, com base na Seção 122, será aplicada “além das tarifas normais já cobradas”, o que indica caráter cumulativo e não substitutivo em relação às tarifas já em vigor. Segundo Trump, a taxa global entrará em vigor em três dias e deverá permanecer válida por cerca de cinco meses, enquanto seu governo reorganiza a política comercial após a decisão da Suprema Corte.
“Tenho e sempre tive o direito de impor tarifas”, destacou. O presidente indicou ainda que poderá elevar a pressão sobre setores específicos, afirmando que pode impor tarifas de 15% a 30% sobre automóveis. Ele ainda voltou a defender a tarifa de 20% sobre produtos chineses relacionada ao combate ao fentanil. Questionado sobre eventual reembolso dos valores arrecadados com as tarifas invalidadas pela Corte, Trump disse que o tribunal “não discutiu esse assunto” e previu uma longa disputa judicial. “Acho que o reembolso terá que ser judicializado pelos próximos anos. Estaremos nos tribunais pelos próximos cinco anos”, afirmou.
O principal destaque no mercado brasileira, antes da decisão da Suprema Corte, era a divulgação da Pnad Contínua, índice que mede o desemprego em solo brasileiro. De acordo com os dados de desemprego divulgados hoje, no quarto trimestre de 2025 o País tinha 1,074 milhão de pessoas nesta situação em mais longo prazo, ou seja, em busca de um trabalho há pelo menos dois anos. Se considerados todos os que procuram emprego há pelo menos um ano, esse contingente em situação de desemprego de longa duração sobe a 1,706 milhão.
Lá fora, além da decisão sobre as tarifas dos Estados Unidos, os holofotes estiveram no índice de preços de gastos com consumo, o PCE, medida de inflação preferida do Federal Reserve (Fed), banco central do país. Também foi feita a leitura preliminar do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre.
Ibovespa hoje: veja os destaques desta sexta-feira (20)
Suprema Corte impõe derrota a Trump ao derrubar tarifas
Ao derrubar as tarifas impostas por Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês), a Suprema Corte dos EUA reforçou de forma explícita que o poder de taxar importações pertence ao Congresso e sinalizou limites ao uso de leis amplas para sustentar medidas de grande impacto econômico. As conclusões constam no documento da decisão divulgado nesta sexta-feira (20).
A Corte concluiu que “a IEEPA não autoriza o presidente a impor tarifas” e que “os termos da IEEPA não autorizam tarifas”, afastando a interpretação utilizada para sustentar as medidas.
Na avaliação de Peterson Rizzo, gerente de Relações com Investidores da Multiplike, a decisão tende a beneficiar as exportações brasileiras ao reduzir incertezas e enfraquecer barreiras comerciais impostas de forma unilateral. Segundo ele, o movimento diminui a pressão sobre o mercado de capitais ao melhorar a previsibilidade, aliviar o câmbio e reduzir a aversão ao risco. Há também um ganho relevante em segurança jurídica, elemento central para decisões de longo prazo.
Embora as tarifas não deixem de existir automaticamente, a base legal usada para criá-las foi enfraquecida, o que reduz o risco de mudanças repentinas nas regras. Para as empresas, o cenário favorece planejamento, investimentos e acesso a financiamento; para os investidores, o impacto é positivo, com menor risco político e melhores condições de alocação de capital.
Para Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, a decisão da Suprema Corte reforça a segurança jurídica ao limitar o uso unilateral de tarifas, reduzindo o risco de decisões abruptas que afetem contratos e cadeias globais. Na avaliação do executivo, para exportadores brasileiros isso melhora a previsibilidade, mas não elimina a necessidade de uma estrutura financeira robusta. Alternativas como antecipação de recebíveis, Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs), securitização de contratos de exportação e linhas estruturadas em moeda estrangeira ajudam a proteger o fluxo de caixa e a reduzir a exposição cambial.
Em um cenário de juros ainda elevados e de volatilidade global, o acesso a crédito estruturado e a gestão ativa de riscos tornam-se ferramentas centrais para manter a competitividade e preservar margens.
Na avaliação da advogada tributarista Mary Elbe Queiroz, presidente do Cenapret e sócia do Queiroz Advogados, o governo americano pode ter de devolver até US$ 175 bilhões a importadores que se considerem prejudicados e busquem reembolso judicial. Do ponto de vista tributário, tarifas são tributos sobre importação e sua cobrança exige fundamento legal estrito e respeito às competências constitucionais. Ao entender que o presidente invadiu prerrogativas do Congresso, a Corte reforça o princípio da legalidade tributária e da separação de poderes.
Exterior reage a dados econômicos positivos
Os mercados acionários na Europa perderam o ímpeto visto pela manhã após dados de PMIs da Alemanha e da zona do euro, além da surpresa com o crescimento das vendas no varejo do Reino Unido.
No fechamento, a bolsa de Londres teve alta de 0,56% e a de Frankfurt subiu 0,81%. O índice de Paris ostentou a maior alta, de 1,39%, e o de Lisboa caiu 0,06%.
Os índices das bolsas de Nova York, por sua vez, fecharam em alta após a primeira leitura do PIB do 4º trimestre, que ficou abaixo das expectativas.
Já as bolsas da Ásia e do Pacífico fecharam em baixa nesta sexta-feira, depois de preocupações renovadas com inteligência artificial (IA) pesarem em Wall Street ontem e em meio a temores de possível conflito entre Estados Unidos e Irã. Na contramão, o mercado sul-coreano avançou a novo recorde pelo segundo dia consecutivo.
O índice japonês Nikkei caiu 1,12% em Tóquio, enquanto Hang Seng recuou 1,10% em Hong Kong. Por outro lado, o sul-coreano Kospi subiu 2,31% em Seul, ao nível inédito de 5.808,53 pontos, graças a ações de defesa, de energia e financeiras.
Na Oceania, a bolsa australiana acompanhou o viés negativo da Ásia e fechou em baixa marginal: o índice S&P/ASX 200 recuou 0,05% em Sydney, a 9.081,40 pontos.
O que os dados dos EUA sinalizaram?
O PIB dos EUA cresceu a uma taxa anualizada de 1,4% no quarto trimestre de 2025. O desempenho veio aquém das expectativas de analistas ouvidos pela FactSet que previam incremento de 1,9%.
Além disso, também configura uma forte perda de fôlego ante o trimestre anterior, quando a economia dos EUA avançou 4,4%. Em 2025, a maior economia do mundo cresceu 2,2%, desempenho que aponta uma desaceleração quando comparado à expansão de 2,8% no ano anterior.
Minutos antes da divulgação do desempenho econômico americano, o presidente Donald Trump afirmou que “o shutdown dos democratas custou aos EUA pelo menos dois pontos no PIB”.
Já o PCE dos EUA teve alta mensal de 0,4% e anual de 2,9% em dezembro, abaixo das expectativas. O núcleo do indicador, entretanto, veio em linha em ambas as comparações.
Commodities
Os contratos futuros de petróleo fecharam próximos à estabilidade, um dia após Trump sugerir que os EUA podem lançar ataques ao Irã se os dois lados não chegarem a um acordo sobre o programa nuclear de Teerã em até 15 dias.
O barril do petróleo WTI para abril subiu 0,12% na Nymex, a US$ 66,48, enquanto o do Brent para maio avançou 0,04% na ICE, a US$ 71,3.
Ações destaque do pregão
As ações da Vamos (VAMO3) lideraram os ganhos, com alta de 4,01%, cotadas a R$ 4,67. Na sequência apareceram Vale (VALE3), que subiu 3,23% a R$ 86,81, e Santander Brasil (SANB11), que avançou 3,12% a R$ 36,70.
As maiores baixas do pregão foram lideradas por Raízen (RAIZ4), que recuou 3,23% a R$ 0,6. Em seguida veio Hapvida (HAPV3), com queda de 2,69% a R$ 10,50. Também fecharam no campo negativo C&A (CEAB3), em baixa de 1,58% a R$ 13,08, Ambev (ABEV3), que cedeu 0,87% a R$ 16,03, e Vivara (VIVA3), com desvalorização de 1,88% a R$ 30,75.
No caso da Raízen, o movimento ocorreu após a divulgação da aprovação, pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), do ato de concentração envolvendo Raízen Energia, Raízen Biomassa e Sumitomo Corporation, conforme despacho publicado no Diário Oficial da União (DOU).
Esses e outros indicadores tiveram peso sobre as decisões dos investidores e ditaram os rumos do Ibovespa hoje.
*Com informações de Aline Bronzati, Daniela Amorim, Luciana Xavier, Silvana Rocha e Sérgio Caldas, da Broadcast