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Colunista

Amor, violência e dívidas: lições de Ana Hickmann sobre amarras invisíveis

Entre os fatores de destaque para a permanência das mulheres nas relações abusivas está a questão financeira

Por Ana Paula Hornos

18/11/2023 | 7:30 Atualização: 17/11/2023 | 16:10

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Ana Hickman durante visita na sede do Jornal O Estado de São Paulo (Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO)
Ana Hickman durante visita na sede do Jornal O Estado de São Paulo (Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO)

O registro de violência doméstica feito em boletim de ocorrência pela apresentadora Ana Hickmann contra seu marido, Alexandre Correa, trouxe à tona outra crise do casal: a financeira.

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Além das acusações feitas por Ana sobre agressões físicas sofridas – incluindo cabeçadas e o fechamento de uma porta sobre seu braço esquerdo – a imprensa expôs, esta semana, pedidos na justiça de grandes instituições financeiras como Banco do Brasil (BBAS3) e Safra, de bloqueio de bens do casal, devido a dívidas significativas contraídas na empresa familiar. Hickmann Serviços Ltda enfrenta processos judiciais e cobranças que totalizam mais de R$ 3,5 milhões.

Apesar de muito triste, não é incomum relatos como o caso de Ana Hickmann.

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Em 2005, a Organização Mundial da Saúde (OMS) trouxe um estudo multinacional que reconheceu a violência contra mulheres como um desafio de saúde pública que afeta diversas idades, etnias, crenças e classes sociais. A pesquisa coletou dados de mais de 24 mil mulheres em 15 locais de 10 países diversos em diferentes contextos culturais como Bangladesh, Brasil, Etiópia, Japão, Namíbia, Peru, Samoa, Sérvia e Montenegro, Tailândia e República Unida da Tanzânia.

Outra pesquisa feita em 2013 pelo DataSenado, instituto da Secretaria da Transparência do Senado Federal, destaca a prevalência da violência doméstica, frequentemente perpetrada por parceiros íntimos, sendo que 31% das mulheres que relataram violência, ainda convivem com os agressores.

Permanecer em uma relação abusiva, quer seja física, psicológica e/ou patrimonial faz parte de um contexto de controle coercitivo estabelecido no par vítima-agressor que muitas vezes, pelas características sutis e manipulativas, é muito difícil romper ou até mesmo identificar a situação.

O ciclo abusivo envolve diversos episódios de ameaças, falas e comportamentos subliminares que visam subjugar, isolar e controlar a vítima. Este processo cíclico se desdobra em quatro fases. Inicialmente, há um momento de tensão, marcado por desaprovações implícitas que alimentam a insegurança da vítima, levando-a a fazer esforços para agradar o agressor que mantém o controle.

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O segundo estágio é a agressão explícita, onde frases ofensivas e agressões físicas minam a autoestima da vítima, fazendo-a sentir-se culpada, mesmo sendo ela a pessoa agredida.

Quando a corda é esticada demais e a vítima percebe que algo está muito errado, vem a terceira fase quando o agressor traz pedidos de desculpas e promessas de mudança, seguidos da quarta fase de um tipo de “lua de mel” na quando o agressor usa sedução e recompensas para manter a vítima próxima, reiniciando assim o ciclo de tensão gradual.

A permanência das mulheres nas relações abusivas

Um estudo publicado em 2022 pelo periódico científico The Lancet aponta que uma em cada quatro mulheres no mundo já sofreu violência doméstica ao longo da vida. E entre os fatores de destaque para a permanência das mulheres nas relações abusivas está a questão financeira.

Os motivos podem ser distintos, ora envolvendo o medo da instabilidade financeira provocada por uma eventual separação, a segurança financeira estimulada na permanência, ou mesmo a dependência psicológica que alimenta falsa sensação de segurança, mesmo que seja a mulher a própria provedora do casal. É frequente entre mulheres, por questões culturais, como visto no caso de Ana Hickmann, a mulher delegar ao homem a administração das finanças, o que favorece o controle coercitivo quando a relação é disfuncional.

Vítimas que enfrentam abuso emocional podem adotar comportamentos compulsivos, como compras excessivas, investimentos intensivos ou um trabalho excessivo, numa tentativa de agradar parceiros, familiares, chefes ou amigos.

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Em alguns casos, movidas pela sensação de incapacidade, abandonam ou nem iniciam suas carreiras, tornando-se dependentes financeira e psicologicamente. Sentem culpa e acreditam ser incapazes de serem amadas, esforçando-se cada vez mais para agradar, chegando a emprestar dinheiro, compartilhar contas bancárias, CPF ou até entregar suas fontes de renda para o agressor.

Como sair do ciclo abusivo

Romper com relações abusivas pode ser desafiador, mas é um passo crucial para o bem-estar emocional. Aqui vão recomendações, algumas delas, possivelmente já incorporadas por Ana e percebidas quando observamos suas declarações:

  1. Reconheça o abuso: esteja ciente do comportamento abusivo e reconheça que você merece um relacionamento saudável;
  2. Estabeleça limites claros: defina limites firmes sobre o que é aceitável e o que não é. Comunique esses limites ao parceiro abusivo;
  3. Busque apoio: converse com amigos, familiares ou profissionais de saúde mental. O apoio é fundamental durante esse processo;
  4. Planeje com cautela: se possível, faça um plano para a sua segurança antes de terminar a relação. Isso pode incluir mudança de residência, suporte legal etc.;
  5. Mantenha-se firme: antecipe a resistência do agressor e permaneça firme em sua decisão. Não ceda a pressões ou promessas vazias;
  6. Busque empoderamento financeiro: traga a gestão financeira de sua vida para próxima de si. Construa um orçamento, acompanhe seus gastos, confira faturas e extratos. Aprofunde sua educação financeira, busque conselhos e conhecimento;
  7. Cuide de si mesma(o): foque em autocuidado. Esteja atenta(o) à sua saúde física e emocional.

Lembre-se, romper com uma relação abusiva é um passo corajoso e você não está sozinha(o). Procure apoio e recursos disponíveis para ajudá-la(o) durante esse processo.

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