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Colunista

Trump, sua política tarifária e os impactos para a economia mundial

A imposição de tarifas pode gerar um crescimento econômico artificial e de curto prazo

Por Eduardo Mira

14/02/2025 | 9:27 Atualização: 14/02/2025 | 9:27

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A imposição de tarifas pelo presidente Donald Trump traz riscos para a economia mundial. (Foto: Adobe Stock)
A imposição de tarifas pelo presidente Donald Trump traz riscos para a economia mundial. (Foto: Adobe Stock)

Desde a ascensão de Donald Trump ao poder, sua política tarifária focada em proteger a indústria estadunidense e reduzir o déficit comercial tem sido um tema central nas discussões econômicas e políticas.

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Essa abordagem remete à era de protecionismo econômico do século XIX, quando o presidente William McKinley implementou tarifas como forma de arrecadação e estímulo à indústria nacional. No contexto atual, contudo, essa estratégia levanta preocupações sobre seus efeitos reais na economia dos Estados Unidos e no comércio global.

Onde Trump pretende chegar com suas políticas tarifárias?

A lógica por trás da política tarifária de Trump é simples: encarecendo produtos importados, as empresas americanas se tornariam mais competitivas no mercado doméstico, promovendo a reindustrialização e a criação de empregos. Entretanto, essa estratégia parece ignorar fatores estruturais, como a automação e a globalização das cadeias de suprimentos, que diminuíram a necessidade de mão de obra industrial nos EUA.

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Além disso, há evidências de que tarifas protecionistas podem gerar um crescimento econômico artificial e de curto prazo, mas com efeitos colaterais de longo prazo. O governo de George W. Bush, por exemplo, impôs tarifas sobre o aço em 2002, resultando em retaliações comerciais e na perda de aproximadamente 200 mil empregos na indústria que depende da liga metálica, superando os empregos preservados no setor siderúrgico.

Quais os riscos para os Estados Unidos?

A imposição de tarifas pode gerar um efeito inflacionário ao aumentar o custo de produtos importados, pressionando tanto as empresas quanto o consumo das famílias. Isso já foi verificado em 2018 e 2019, quando as tarifas sobre produtos chineses elevaram os preços de bens de consumo nos EUA, como eletrodomésticos e eletrônicos.

Além da inflação, outro risco vem da retaliação comercial por parte dos países afetados, o que pode diminuir as exportações americanas. Também no período 2018-2019, o setor agrícola foi um dos mais prejudicados pelas tarifas impostas à China, com exportações de soja em declínio, levando a um aumento na necessidade de subsídios de emergência do governo para mitigar os danos.

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Outro efeito colateral significativo é a volatilidade nos mercados financeiros. A guerra comercial entre EUA e China gerou incertezas que levaram empresas a adiar investimentos e contratações. Com a economia sob maior pressão e riscos inflacionários elevados, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) pode ser obrigado a adotar uma postura mais cautelosa em relação às taxas de juros, limitando o crescimento econômico.

Impactos na economia mundial

As tarifas de Trump têm repercussões globais, alterando a dinâmica do comércio internacional. Países que dependem fortemente das exportações para o mercado americano, como Canadá, México e China, sofrem diretamente com as barreiras tarifárias. No caso do México, as ameaças de Trump de tarifas de importação sobre automóveis em 2019 geraram instabilidade econômica e incerteza para investidores.

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A União Europeia ameaça retaliar tarifas americanas sobre aço e alumínio com taxas sobre produtos icônicos dos EUA, como bourbon e motocicletas Harley-Davidson. Diante das restrições comerciais, Pequim intensificou esforços para diversificar seus mercados e reduzir sua dependência das exportações para os EUA. Como parte dessa estratégia, o país acelerou acordos comerciais na Ásia e investiu em cadeias produtivas alternativas, o que pode, a longo prazo, diminuir a influência americana no mundo.

Entre a retórica e a realidade: as tarifas como ferramenta política

O discurso protecionista de Trump muitas vezes se baseia mais em retórica política do que em fundamentos econômicos sólidos. A ideia de que os déficits comerciais são ponderados, ignora o papel dos fluxos de capital e da especialização produtiva global.

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Essa retórica agressiva pode ser vista como uma tentativa de desviar a atenção dos problemas internos dos Estados Unidos para os quais o atual governo ainda não tem um plano consistente, como a desindustrialização e a crescente desigualdade econômica. Além disso, a abordagem de “ganha-perde” que Trump adota pode alienar aliados e parceiros comerciais, dificultando a construção de um consenso.

Falta transparência nos objetivos de Trump

Trump frequentemente justifica tarifas como uma forma de pressionar parceiros comerciais a renegociar acordos. O Acordo EUA-México-Canadá (USMCA), que substituiu o NAFTA, foi resultado dessa estratégia, mas seus impactos e eficácia ainda são debatidos entre economistas.

Entretanto, há indícios de que a política tarifária de Trump pode ter sido motivada por interesses mais específicos do que a simples proteção da indústria americana. Algumas tarifas parecem ter sido desenhadas para beneficiar setores estratégicos e grupos empresariais alinhados ao governo, levantando questionamentos sobre sua real intenção.

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Embora a retórica protecionista de Trump sugira uma preocupação com a reindustrialização e com a classe trabalhadora, muitas análises têm apontado que suas medidas favoreceram indústrias específicas, especialmente aquelas com forte influência política e econômica. Um exemplo claro foi a imposição de tarifas sobre painéis solares em 2018, que beneficiou empresas tradicionais de energia em detrimento do setor de energia renovável.

Além disso, o setor de aço e alumínio, fortemente representado em estados decisivos na eleição de Trump, como Pensilvânia e Ohio, se beneficia diretamente por tarifas protecionistas.

Ao usar tarifas como ameaça, Trump busca forçar outros países a transferirem investimentos para os Estados Unidos, o que pode, na prática, beneficiar uma elite corporativa em detrimento da classe trabalhadora americana.

Políticas tarifárias e o risco de inflação nos EUA

Uma rápida pesquisa na internet traz inúmeros estudos sobre a relação entre tarifas e inflação, mas a equipe de Trump não parece se debruçar sobre isso, pelo menos por enquanto. Em 2018, a imposição de tarifas sobre importações chinesas levou a um aumento médio de 0,3% na inflação americana. Nos setores mais dependentes de importação, como o de eletrônicos e vestuário, os aumentos foram ainda mais expressivos.

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Se as tarifas forem implementadas em larga escala, a tendência é de aumento imediato da inflação nos Estados Unidos, afetando não apenas o poder de compra dos consumidores, mas também resultando em um ambiente econômico instável. Isso pode levar o Fed a protelar o corte das taxas de juros ou até mesmo a aumentá-las, reduzindo o crescimento econômico e potencializando o risco de recessão americana.

O êxito das políticas tarifárias é questionável

Embora possa haver um ganho temporário em alguns setores industriais, o aumento dos custos para consumidores e empresas tende a superar os benefícios dessa política, e os efeitos a longo prazo são incertos. Enquanto alguns economistas acreditam que pode haver um retorno à industrialização, outros argumentam que a falta de uma estratégia industrial abrangente e a resistência de parceiros comerciais podem levar a uma derrocada econômica.

A dependência de cadeias globais de suprimentos significa que muitas indústrias americanas precisam de insumos importados para manter sua produção competitiva. Tarifas elevadas sobre esses insumos podem tornar a produção doméstica menos viável, em vez de mais competitiva.

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Vale lembrar que a guerra comercial com a China incentivou países a buscar novos acordos comerciais sem os EUA, como a Parceria Regional Econômica Abrangente (RCEP), em vigor desde janeiro de 2022, incluindo 15 países da Ásia-Pacífico e se tornou o maior bloco comercial do mundo, cobrindo algo em torno de 30% do PIB global.

Agora, com a imposição de tarifas adicionais sobre produtos chineses nos EUA, a resposta da China foi a implementação de tarifas retaliatórias sobre produtos americanos, além de iniciar uma investigação contra o Google e restringir a exportação de minérios. A realidade é que os Estados Unidos estão em uma posição frágil, e a dependência de importações torna a economia vulnerável a mudanças no cenário mundial.

Impacto na Economia Mundial

Os impactos das tarifas no mercado global podem aparecer na forma de desaceleração econômica. Ainda em 2024, o Fundo Monetário Internacional (FMI) emitiu um relatório onde alertava sobre os riscos de um aumento do protecionismo global. O relatório indicou que, caso tarifas mais elevadas afetem uma parte significativa do comércio mundial até meados de 2025, isso poderia reduzir o produto econômico global em 0,8% em 2025 e 1,3% em 2026.

Países emergentes, altamente dependentes do comércio internacional, tendem a ser os mais prejudicados. Brasil e Argentina, grandes exportadores de commodities para China e EUA, podem enfrentar pressões econômicas devido a uma potenciall redução da demanda global.

  • Confira ainda: As novas tarifas de Trump e o impacto no dólar e nos juros no Brasil

Em suma, o retorno ao protecionismo por parte dos Estados Unidos, tem implicações complexas e multifacetadas. Enquanto busca proteger sua indústria, os riscos associados a essa abordagem podem resultar em consequências adversas para a economia.

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A falta de uma estratégia econômica clara e a dependência de medidas de curto-prazismo podem levar a um cenário de incerteza e instabilidade, desafiando a liderança econômica dos Estados Unidos, sob gestão de Donald Trump, no mundo contemporâneo.

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