Apesar do crescimento de quase 18% no lucro das empresas listadas, análise detalhada mostra compressão operacional, dependência de fatores externos e protagonismo absoluto de poucas companhias e do setor financeiro.
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Apesar do crescimento de quase 18% no lucro das empresas listadas, análise detalhada mostra compressão operacional, dependência de fatores externos e protagonismo absoluto de poucas companhias e do setor financeiro.
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O fechamento da temporada de balanços de 2025 das empresas listadas na B3 revela um cenário que, à primeira vista, parece positivo: o lucro agregado avançou, a receita cresceu acima da inflação e o mercado corporativo demonstrou resiliência.
Mas uma análise mais criteriosa, como a realizada pela consultoria Elos Ayta, mostra que o desempenho está longe de ser homogêneo. Há ganhos relevantes, sim, mas também sinais claros de compressão operacional, aumento do endividamento e, principalmente, forte concentração de resultados.
As 265 empresas não financeiras analisadas registraram receita líquida de R$ 2,96 trilhões em 2025, alta de 6,69% sobre 2024, acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,26%, o que configura crescimento real.
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Do ponto de vista contábil, há um elemento importante: o custo dos produtos vendidos (CPV) cresceu praticamente no mesmo ritmo (+6,64%), preservando o equilíbrio econômico das operações. Como consequência, o lucro bruto avançou 6,87%, mantendo a margem estável em 24,26%.
Sob a ótica da teoria contábil, esse comportamento indica estabilidade da margem de contribuição. Em termos práticos, as empresas conseguiram repassar custos e preservar sua estrutura de rentabilidade na linha mais básica do resultado.
As 265 empresas não financeiras foram analisadas sem a inclusão de três companhias específicas: Petrobras, Vale e Axia Energia.
A exclusão dessas empresas tem fundamento técnico e visa evitar distorções relevantes na leitura da amostra:
• Petrobras (PETR3; PETR4): apresenta lucro de magnitude muito superior às demais empresas e com elevada volatilidade, fortemente influenciado por fatores exógenos como preço internacional do petróleo, câmbio e política de dividendos. Esse volume de resultado acaba distorcendo a leitura do lucro agregado.
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• Vale (VALE3) e Axia Energia (AXIA3): ambas possuem estruturas de despesas operacionais e dinâmicas específicas que fogem ao padrão da maioria das empresas analisadas. No caso da Vale, há forte exposição ao ciclo global de commodities, enquanto a Axia Energia apresenta níveis de despesas operacionais que comprometem a comparabilidade.
Dessa forma, a exclusão dessas três empresas permite uma análise mais fiel da dinâmica operacional das 265 empresas não financeiras, reduzindo vieses estatísticos e efeitos de concentração.

Se até o lucro bruto o desempenho é equilibrado, a partir das despesas operacionais o quadro muda.
Essas despesas cresceram 10,74% em 2025, bem acima da receita. Pela teoria de alavancagem operacional, esse é um sinal de deterioração de eficiência.
O impacto aparece diretamente na margem EBIT, que recuou de 12,47% para 12,06%.
O lucro EBIT somou R$ 357,9 bilhões em 2025, crescimento de 3,22%.
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Esse indicador representa o resultado operacional antes dos efeitos financeiros e tributários, sendo a principal métrica da capacidade de geração de resultado do negócio.
O crescimento mais lento do EBIT em relação à receita reforça o diagnóstico de perda de eficiência operacional.
Apesar da pressão operacional, o resultado financeiro ajudou a sustentar o lucro.
O déficit financeiro caiu 11,07%, impulsionado pela valorização do real. O dólar Ptax recuou 11,14%, gerando ganhos de variação cambial para empresas com dívida em moeda estrangeira.
Esse efeito reduz o valor da dívida em reais e melhora o resultado financeiro, ainda que não represente entrada de caixa imediata.
Sem considerar Petrobras, Vale e Axia Energia, o lucro líquido das 265 empresas não financeiras atingiu R$ 124,7 bilhões em 2025, alta de 6,12%.
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O crescimento acompanha a receita, com margens estáveis e leve melhora no retorno sobre patrimônio (ROE).
A inclusão de Petrobras, Vale e Axia Energia altera significativamente o resultado agregado.
Essas empresas somaram R$ 130,5 bilhões em lucro em 2025, alta de 66,08%, com destaque absoluto para a Petrobras.
Sozinha, a Petrobras registrou lucro de R$ 110,1 bilhões, o equivalente a aproximadamente 88,3% de todo o lucro das outras 265 empresas não financeiras analisadas, que somaram R$ 124,7 bilhões.
Esse dado evidencia o grau extremo de concentração: uma única companhia praticamente iguala o resultado de todo o restante da amostra.
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Com a inclusão dessas três empresas, o lucro total das companhias não financeiras sobe para R$ 255,2 bilhões, crescimento de 30,15%, um avanço fortemente influenciado por poucos protagonistas.
O setor financeiro registrou lucro de R$ 149,6 bilhões em 2025, crescimento de 1,45%.
Mais relevante que o crescimento é a comparação: o setor financeiro, sozinho, lucrou cerca de 20% a mais do que as 265 empresas não financeiras analisadas.
Esse resultado evidencia a elevada concentração de rentabilidade no sistema financeiro brasileiro.
A dívida bruta atingiu R$ 1,82 trilhão (+6,35%) e a dívida líquida R$ 1,23 trilhão (+10,07%), enquanto o caixa permaneceu praticamente estável.
Esse movimento indica aumento da alavancagem e redução relativa da liquidez.

Os dividendos pagos somaram R$ 129,6 bilhões em 2025, alta de 41,39%, impulsionados pela antecipação de pagamentos diante de mudanças tributárias previstas para 2026.
O balanço de 2025 das empresas listadas na B3 revela um cenário de crescimento relevante, mas com qualidade desigual quando analisado em profundidade.
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Na base da amostra, com 265 empresas não financeiras, observa-se um crescimento real de receita, disciplina na formação de preços e estabilidade na margem bruta, sinais positivos do ponto de vista operacional.
No entanto, esse avanço é parcialmente comprometido pelo crescimento mais acelerado das despesas operacionais, que reduz a eficiência e limita a expansão do lucro operacional.
Ao mesmo tempo, o resultado final foi beneficiado por fatores exógenos, especialmente o efeito cambial positivo sobre dívidas em moeda estrangeira, o que melhora o lucro sem necessariamente refletir ganho estrutural de competitividade.
Quando adicionadas Petrobras, Vale e Axia Energia, o lucro agregado cresce de forma significativa, evidenciando o peso desproporcional de poucas empresas na composição do resultado da B3.
Essa concentração se intensifica ainda mais quando se observa o papel do setor financeiro, que, sozinho, gera mais lucro do que todo o conjunto das empresas não financeiras analisadas.
No consolidado das 292 empresas, o crescimento de 17,83% no lucro é expressivo, mas carrega consigo distorções importantes, tanto pela concentração quanto por efeitos não recorrentes.
A leitura final é clara: o mercado corporativo brasileiro cresceu em 2025, mas não de forma homogênea nem necessariamente sustentável em todos os setores. Mais do que olhar o número consolidado, é fundamental entender a composição desse resultado, onde poucos protagonistas e fatores pontuais ainda exercem influência determinante sobre o desempenho agregado da B3.
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