Nesses movimentos, empresas de capital fechado adquirem o controle de uma companhia já listada na B3. Em geral, empresas cujas ações não têm liquidez ou que estão muito desvalorizadas. Alteram a denominação, o objeto das atividades, o código de negociação (ticker) e transferem suas atividades para ela.
Com isso, empresários com negócios promissores poupam tempo e trabalho de listar suas empresas. Os investidores que não concordarem com a medida têm direito de recesso, apesar de sempre haver ruído entre os minoritários. E há um ponto positivo para o mercado como um todo: uma empresa listada sem representatividade ganha uma nova oportunidade de brilhar nos pregões e de remunerar o capital dos investidores.
Fictor Alimentos e Atompar
Houve dois casos nos últimos tempos. Um deles envolveu as ações da antiga holding Atompar (ATOM3). Sua história é bastante conturbada. A Atompar já frequentou os pregões com o nome de Inepar. A companhia industrial paranaense chegou a ser a 15ª maior empresa listada na bolsa em valor de mercado na década de 1990, mas erros estratégicos a levaram a uma recuperação judicial em 2014. Apesar das reestruturações sucessivas e dos problemas insolúveis, a companhia nunca fechou capital.
Em junho de 2024, a empresa de participações Fictor Alimentos adquiriu 76% das ações da Atom por R$ 20 milhões. A finalidade do IPO reverso foi captar recursos para fazer essas alocações estratégicas. Sua tese é ser controladora ou investidora relevante em empresas do agronegócio. Em um primeiro momento o foco é no setor de aves, mas a companhia não descarta a diversificação para outros negócios envolvendo proteína animal.
A companhia estreou na B3 no dia 20 de dezembro. O ticker mudou de ATOM3 para FICT3. E como uma companhia listada, a Fictor tem acesso facilitado a futuras captações de recursos e a movimentos societários como aquisições por meio de trocas de ações.
Reag e GetNinjas
O outro exemplo é o da REAG Investimentos, com estreia nos pregões agendada para o dia 10 de janeiro. A empresa é a nova denominação da GetNinjas, que abriu capital em 2021 como uma startup para conectar profissionais de serviços domésticos. Os negócios não prosperaram, as ações se desvalorizaram e a companhia foi objeto de uma aquisição hostil em outubro de 2023. A REAG adquiriu gradativamente ações da GetNinjas até assumir 20% de participação e realizou uma Oferta Pública de Aquisição (OPA).
Seria um passo para fechar o capital, mas a GetNinjas, com nova administração e escopo, permaneceu listada. Agora a REAG colocou suas atividades de gestão de recursos e estruturação de investimentos sob a empresa listada. No dia 10, o ticker vai mudar de NINJ3 para REAG3 e a REAG vai estrear nos pregões sem ter de passar pelo processo demorado e desgastante de um IPO. E será a primeira companhia de investimentos a ter seu capital negociado nos pregões.
Mais candidatas
Essa estrutura de negócios pode ganhar novos adeptos. Os IPOs têm obstáculos estruturais e financeiros. Antes de mais nada, listar uma empresa na Bolsa é um processo demorado e trabalhoso. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é um xerife exigente – e é bom que seja assim. E nos últimos tempos a alta dos juros dificulta atrair investidores. O negócio terá de ser muito bom para superar os ganhos prometidos para a renda fixa nos próximos meses.
Mesmo assim, há inúmeros empreendedores cujas companhias iriam desabrochar se suas ações fossem listadas na Bolsa. Uma maneira de facilitar esse caminho é por meio dos IPOs reversos. E há várias empresas já abertas que poderiam servir a esse propósito.
A consultoria Elos Ayta realizou um estudo e levantou que há 41 empresas listadas que são pouco líquidas (tem volume médio inferior a R$ 1 milhão por dia) e têm dono: mais de 50% das ações pertencem ao mesmo acionista, excluindo empresas estatais – federais, estaduais ou municipais.
Há nomes tradicionais nos pregões e empresas de vários setores. Muitas delas não têm negócios todos os dias e movimentam pouco dinheiro na Bolsa. É importante lembrar que não há nenhuma irregularidade nisso. Em algum momento no passado, os controladores decidiram abrir capital, cumpriram as formalidades e listaram as ações. Se optaram por não usar os recursos do mercado de capitais, isso é uma decisão totalmente individual e que deve ser respeitada.
No entanto, vale lançar uma ideia na mesa: por que não aproveitar melhor essas estruturas que estão funcionando (e têm valor)? O processo não é simples, mas é conhecido. É possível transferir os ativos para os controladores atuais e aproveitar o CNPJ listado (e conhecido pela B3 e pela CVM) para permitir que novos empreendedores tenham acesso ao mercado.