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Colunista

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra: o que o governo Trump realmente entregou para o Bitcoin

Entre expectativa e realidade, Trump impulsionou o Bitcoin, mas o caminho veio com ruído, custo e volatilidade

Por Fabrício Tota

27/03/2026 | 14:22 Atualização: 27/03/2026 | 14:22

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O que o governo Trump de fato entregou ao Bitcoin. Entre regulação mais clara, avanço dos ETFs e entrada institucional, entenda por que a alta perdeu fôlego. (Imagem: Adobe Stock)
O que o governo Trump de fato entregou ao Bitcoin. Entre regulação mais clara, avanço dos ETFs e entrada institucional, entenda por que a alta perdeu fôlego. (Imagem: Adobe Stock)

Se você está tentando entender o momento atual do Bitcoin e do mercado cripto, este texto é para isso: você vai sair daqui com um mapa simples sobre por que o BTC conseguiu ir até uma máxima histórica de US$ 126 mil (perto de R$ 670 mil) e, hoje, ronda a faixa de US$ 70 mil (perto de R$ 360 mil), uma queda de quase 50%.

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A minha tese é direta: o caminho para entender a queda é compreender a alta que a precedeu. E a alta teve nome e sobrenome: Donald Trump.

Em novembro de 2024, eu escrevi aqui no E-Investidor sobre como a eleição de Trump redefinia o mundo cripto, e como o mercado passou a precificar um “modo turbo” para a indústria cripto nos EUA.

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Agora, em março de 2026, dá para fazer o que o investidor adora (e ao mesmo tempo odeia): um confronto entre expectativa versus realidade. Só que com um detalhe importante: em cripto, expectativa e realidade por vezes se chocam com a intensidade de um míssil hipersônico.

A seguir, quatro expectativas que viraram preço. E como a realidade entregou, mas com ruído, custo e alguns sustos no caminho.

Expectativa 1: “Vai mudar a SEC e acabar com a dor de cabeça”.

Expectativa: Trump tiraria o “freio regulatório” e colocaria alguém pró-cripto na SEC.

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Realidade: sim, isso aconteceu. Paul Atkins foi confirmado e tomou posse como chairman da SEC em 21 de abril de 2025.

E aqui vem a parte que vale guardar: muita gente confundiu “pró-cripto” com “sem regra”, deixar o mercado evoluir livremente. Não é isso. O que Atkins vem fazendo é outra coisa: está trocando ambiguidade por clareza.

No último dia 17, por exemplo, a SEC publicou uma interpretação dizendo, com todas as letras, que pretende esclarecer como as leis federais de valores mobiliários se aplicam a criptoativos e transações com cripto. A frase mais importante, para mim, é a que muita gente esperou por uma década: a SEC reconhece que a maioria dos criptoativos não é, por si só, um valor mobiliário, que um criptoativo que nasceu como valor mobiliário pode deixar de sê-lo ao longo do tempo.

Ou seja: nem tudo vira “ação disfarçada”, e nem tudo fica eternamente preso numa interpretação elástica. Isso é enorme. Tanto ETH quanto XRP se beneficiam enormemente dessa interpretação.

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Expectativa 2: “Com Trump, vem uma nova máxima histórica”

Expectativa: Bitcoin faria uma nova máxima com a “onda Trump”.

Realidade: aconteceu. Quando Trump venceu em novembro de 2024, o BTC acabava de romper a máxima histórica e estava na casa dos US$ 75 mil.

Menos de um ano depois, em 6 de outubro de 2025, ele bateu a máxima na faixa de US$ 126 mil.

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Esse foi o momento em que muita gente confundiu duas coisas:

“O mundo institucional entrou”;

“Então agora não cai mais.”

O institucional entrou, sim. Mas até mesmo o capital de longo prazo não tem paciência infinita. Aliás, muitas vezes é capital institucional sim, mas capital especulativo. Mas com comitê, rebalanceamento, stop, mandato, janela, controle de risco e um cardápio extenso de opções de investimento que não se restringe ao mundo cripto.

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Bitcoin continua sendo bitcoin: um ativo global, sem dono, com liquidez 24 horas por dia e sem Banco Central para atuar no mercado e segurar preço.

ETFs vão trazer um rio de dinheiro?

Expectativa 3: “Os ETFs vão trazer um rio de dinheiro e pronto”

Expectativa: os ETFs spot de bitcoin seriam a grande tubulação do dinheiro institucional.

Realidade: viraram uma tubulação, sim, e a foto mais honesta é comparar eleição vs agora.

Na eleição do Trump, os ETFs spot de BTC nos EUA somavam pouco menos de 1 milhão de BTC, algo perto de US$ 70 bilhões. Hoje, estão em torno de 1,3 milhão de BTC, perto de US$ 85 bilhões. No meio do caminho, chegaram a romper US$ 100 bilhões por um período, o que ajudou a consolidar a narrativa de “agora vai”.

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Só que aqui vem o detalhe que quase ninguém quer encarar: tubulação reduz fricção para entrar, e reduz fricção para sair. Isso muda a dinâmica do mercado. ETF é, sim, alocação estrutural. Mas também é ferramenta institucional com comportamento de portfólio:

giro rápido quando o cenário macro complica;

realização quando a alta vem rápido demais;

saída coordenada quando o risco global aperta e o comitê manda reduzir exposição.

Teve mês em que o mercado sentiu isso na pele. E é quase óbvio: uma parte relevante do ajuste de preço vem dessa combinação de acesso fácil com saída fácil. Quando o mundo fica tenso, o dinheiro que entrou pela porta da frente pode ir embora pela mesma porta, só que em bloco e sem sentimento. Nada de “diamond hands”, HODL forever e outros jargões e memes bitcoiners nessas decisões.

“Pacote regulatório vai destravar o setor”

Expectativa 4: “Agora teremos clareza regulatória completa”

Expectativa: com Trump, finalmente viria um pacote regulatório que destrava o setor.

Realidade: veio pela metade, e a outra metade virou novela.

O GENIUS Act veio rápido e com impacto real. Virou lei nos EUA em 18 de julho de 2025, criando um arcabouço federal para stablecoins, moedas digitais que buscam manter paridade com uma moeda fiduciária, tipicamente o dólar.

E aqui está o dado que mostra por que isso importa: na época da eleição do Trump, o mercado total de stablecoins estava na casa de US$ 175 bilhões. Hoje, está em torno de US$ 315 bilhões. Em outras palavras, esse trilho quase dobrou de tamanho enquanto a indústria ganhava esse carimbo institucional.

A Tether, emissora do USDT, segue como a líder global do segmento em circulação e uso. E não é exagero dizer que stablecoin virou o produto cripto que Washington entende com facilidade: é dólar, só que com distribuição melhor, sem fronteiras. É uma nova forma de “exportar dólares” para novas jurisdições, sem pedir licença e ajudando a financiar a dívida pública americana.

A lei acertou em cheio em pontos que o mercado pedia há anos, e que são o alicerce de confiança para escalar:

Reservas 100% em ativos líquidos e de alta qualidade, na prática, “dólar e equivalentes” (como Treasuries);

Transparência recorrente sobre as reservas;

Exigências fortes de compliance e prevenção a lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo;

Capacidade técnica e jurídica para congelar, apreender ou queimar unidades quando houver ordem legal.

Isso é um avanço enorme para adoção. Mas também é o “preço” da institucionalização: stablecoin sai do mito cypherpunk e entra no mundo da regra, auditoria e supervisão. O

E a consequência é a parte bonita: stablecoins conseguem crescer até meio que “descoladas” do ciclo cripto tradicional, porque o principal uso delas não é especulação, é trilho. Pagamento internacional, remessa, liquidação entre empresas, comércio. Tem muito usuário usando stablecoin sem nem perceber, porque na experiência ele só viu “enviei, funcionou”. E quando a tecnologia desaparece e sobra só a eficiência, é aí que a adoção vira inevitável.

CLARITY Act: o impasse do yield

Já o CLARITY Act, que mira a estrutura de mercado (quem regula o quê, como corretoras e plataformas operam, etc.), bateu num ponto que parece pequeno, mas é explosivo: pagar juros em stablecoins.

Essa é a prática de se oferecer uma remuneração para quem “deixa parada” uma stablecoin na plataforma ou em sua carteira própria. Bancos enxergam isso como competição direta com depósitos. Parte do setor cripto enxerga como inovação óbvia.

O resultado foi turbulência política e de mercado: notícias de propostas para restringir ou proibir esse tipo de remuneração derrubaram ações do setor cripto e adicionaram ruído ao mercado neste mês.

Aqui a realidade se impõe, mais uma vez: “clareza regulatória” não significa “caminho sem atrito”. Na prática, clareza regulatória é o começo do debate de poder. Esse debate atrai muita gente, principalmente quem está de fora no mercado e vê nessa clareza a oportunidade perfeita para mergulhar de cabeça no setor cripto.

Expectativa final: “Vai ser um passeio no parque”

Expectativa: com Trump pró-cripto, o setor ia viver um ciclo de felicidade plena.

Realidade: bem… Donald Trump.

Quando um mercado passa a depender de sinais políticos, ele acaba convivendo com tempestade como rotina. E não faltou tempestade:

Geopolítica e guerra mexendo com petróleo, inflação e humor global. Nesta semana, tensão envolvendo EUA e Irã voltou a pesar em ativos de risco, incluindo cripto.

Tarifa, comércio global e incertezas quando ao formato final da regulação, tudo isso como ruído macro recorrente.

E o capítulo mais caricato: o próprio Trump orbitando o mercado com uma memecoin associada ao seu nome, às vésperas de sua posse, levantando discussões de conflito de interesse e ética.

Eu não estou falando isso para “moralizar” o tema. Estou falando por que preço odeia ruído macro, aquele que não tem nada a ver com o setor em si, e odeia ainda mais quando o ruído macro tem dedo político e manchete todo dia.

O balanço é positivo, mas o investidor precisa de um novo jeito de ler o ciclo.

Aqui é a parte que interessa para quem investe: em preço, a gente está perto de onde estava quando a euforia Trump começou.

Só que por baixo do preço, a indústria está em outro lugar. Nos EUA, uma lei federal de stablecoins existe, a SEC colocou no papel uma visão mais clara de “o que é e o que não é” e o debate de estrutura de mercado está quente, mesmo com impasse.

Em poucas semanas, o grande termômetro disso tudo vai ser o Consensus Miami 2026, de 5 a 7 de maio, com a indústria inteira reunida. Vale observar além do evento em si, como um indicador de confiança e direção.

Por fim, pare de tentar prever o próximo topo e comece a classificar o que move o bitcoin em quatro caixas. Toda vez que o preço despenca ou dispara, pergunte:

Isso é macro (guerra, juros, petróleo, tarifa)?

Isso é política e regulação (lei, SEC, Congresso)?

Isso é canal institucional (fluxo e tamanho de ETFs, adoção)?

Isso é idiossincrasia cripto (escândalo, falência, hack, alavancagem)?

Se você fizer isso, deixa de ser refém de narrativa pronta e vira dono de sua própria leitura. O resto, de tamanho da alocação até o que fazer em momentos agudos de alta ou queda, fica muito mais administrável.

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