A revisão do Produto Interno Bruto (PIB) para 1,6% reacende um problema que o País tenta evitar há anos, porque o crescimento fraco não derruba apenas expectativas econômicas, ele pressiona um sistema que já opera no limite.
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A revisão do Produto Interno Bruto (PIB) para 1,6% reacende um problema que o País tenta evitar há anos, porque o crescimento fraco não derruba apenas expectativas econômicas, ele pressiona um sistema que já opera no limite.
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Enquanto o debate político continua distraído por disputas imediatas, o Brasil envelhece em silêncio, vive mais, tem menos filhos, reduz a base de contribuintes e amplia a de beneficiários, enquanto o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) permanece preso a um desenho que pertence a outra época, quando havia jovens suficientes para sustentar quem já tinha saído do mercado de trabalho.
O País envelhece antes de enriquecer e essa combinação é explosiva porque a conta não fecha para nenhum modelo previdenciário que depende do fluxo atual para pagar o benefício futuro. O número de pessoas que entra no mercado formal não cresce no ritmo necessário para sustentar quem está saindo, enquanto cada ano adicional de expectativa de vida adiciona uma pressão que não aparece nos discursos públicos, mas que se acumula nos cálculos técnicos e nas projeções internas do governo.
É esse descompasso que explica por que a Previdência Social já consome mais de 12,3% do PIB e deve ultrapassar, em ciclo contínuo, a barreira de R$ 1 trilhão anuais. E ainda existe um dado que desmonta a ilusão de que o problema se resolve com gestão: cada aumento de R$ 1 no salário mínimo cria R$ 420 milhões adicionais de despesa previdenciária. Não há eficiência administrativa capaz de neutralizar uma aritmética desse tamanho. Com uma população que vive mais e contribui menos, o gasto cresce automaticamente, mesmo quando a economia não cresce junto.
A discussão pública tenta suavizar esse cenário como se fosse apenas um impasse fiscal ou conjuntural, mas não é. As despesas obrigatórias sobem porque há mais aposentados, porque eles vivem mais tempo, porque a base de contribuintes diminui e porque as regras ainda seguem uma lógica de país jovem. O dilema é matemático, não ideológico: menos contribuintes sustentando mais beneficiários. Nenhum discurso eleitoral corrige isso, porque o problema está na estrutura, não na narrativa.
O juro alto, repetidamente tratado como vilão, reflete essa engrenagem. Com um Estado amarrado a gastos que crescem sozinhos e um PIB que não acompanha, o risco sobe, o financiamento fica mais caro e a política monetária se torna o único instrumento capaz de evitar que a inflação escape. A Selic elevada não é um acidente, mas uma compensação. Enquanto a política fiscal não encara a realidade demográfica, o Banco Central (BC) continua pagando a conta com juros altos.
A última reforma da Previdência adiou o colapso, mas não o eliminou. Criou fôlego, não sustentabilidade. E esse fôlego tem prazo.
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A matemática do envelhecimento, somada ao peso crescente do salário mínimo sobre os benefícios, empurra o País para outra reforma, inevitável e mais dura, com aposentadorias mais tardias, benefícios menores e critérios mais rígidos. Não por vontade política, mas porque a aritmética não oferece alternativa. E, diante do ritmo atual de envelhecimento, já existe quem projete a idade mínima avançando muito além do que parece razoável hoje.

Se nada mudar, o Brasil pode caminhar para uma realidade em que se aposentar aos 75 anos deixe de ser provocação e passe a ser necessidade fiscal. Não porque alguém queira, mas porque a conta simplesmente não fecha com o volume de idosos que o País terá nas próximas décadas.
A experiência internacional confirma a direção. Países ricos, com produtividade alta e renda elevada, precisaram revisar seus sistemas múltiplas vezes. Itália, França, Alemanha e Espanha enfrentam há anos protestos justamente porque não conseguiram escapar da mesma equação: mais idosos, menos jovens, pressão crescente. A diferença é que esses países ficaram velhos depois de enriquecer. O Brasil faz o contrário, o que torna o ajuste mais pesado, mais urgente e mais difícil de administrar sem dor social.
Por isso, depender apenas do INSS deixou de ser planejamento e passou a ser risco. A Previdência não está colapsada, mas está pressionada por forças que não mudam com discursos, decretos ou promessas. A demografia não negocia e a conta não espera. Guardar dinheiro, nesse contexto, deixa de ser conselho financeiro e se torna necessidade prática.
O País caminha para aposentadorias mais tardias, mais tempo de contribuição e menor garantia de benefício integral. E, se a idade mínima continuar avançando na velocidade que o envelhecimento impõe, quem tem 30 ou 40 anos hoje pode, de fato, enfrentar uma aposentadoria que chega perto dos 75 anos.
O Brasil pode empurrar a discussão, suavizar a retórica, adiar a decisão e colocar remendos temporários, mas não pode escapar da equação que estrutura o problema. E, quando ela finalmente estourar, cada indivíduo estará onde sempre esteve: responsável pela própria margem de segurança.
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