O aumento não veio de um surto de eficiência nacional. Ele segue a regra em vigor, correção pela inflação do INPC somada a um bônus vinculado ao crescimento do PIB. Ou seja, o país cresce um pouco, o mínimo sobe um pouco. O detalhe incômodo é que o crescimento do PIB não tem se traduzido em salto de produtividade. O Brasil continua produzindo praticamente o mesmo por trabalhador, ano após ano. Dados de institutos que acompanham produtividade mostram variações mínimas e até retrações recentes. Nada que explique, do ponto de vista econômico, um país mais rico por hora trabalhada.
O PIB, é verdade, segue positivo. O IBGE registrou crescimento sustentado pelo setor de serviços e pelo consumo das famílias ao longo de 2025. O país não está parado. Mas crescer não significa produzir melhor. Crescer puxado por consumo, crédito caro e serviços de baixa intensidade tecnológica não transforma produtividade estrutural. Em outras palavras, a economia anda, mas não acelera.
O resultado é um velho conhecido. O custo do trabalho formal sobe sem que a produção por trabalhador acompanhe. Pequenas e médias empresas, responsáveis pela maior parte dos empregos formais, absorvem a diferença como podem. Algumas repassam preços. Outras adiam investimentos. Outras contratam menos. Não por maldade empresarial, mas por aritmética simples.
O discurso de que o aumento “coloca dinheiro na economia” também não é falso. Apenas incompleto. Coloca dinheiro no curto prazo, mas aumenta o custo no médio. É como comemorar a compra parcelada sem olhar a fatura do mês seguinte. A conta sempre chega, apenas não no mesmo discurso.
Fora dos palanques, o mercado de trabalho segue convivendo com um contingente estrutural de quase 40 milhões de trabalhadores informais. Tornar o emprego formal mais caro em um país de produtividade estagnada não elimina informalidade, apenas a torna mais atraente. A formalização exige produtividade. Sem ela, o custo pesa.
E há ainda o efeito silencioso sobre o Estado. O salário mínimo indexa aposentadorias, pensões e benefícios assistenciais. Cada R$ 1 de aumento eleva a despesa previdenciária em R$ 420 milhões. Com o aumento de R$ 103, o impacto adicional estimado é de R$ 43 bilhões ao ano. Parece pouco no anúncio, mas atravessa a Previdência, o assistencialismo e toda a máquina pública, multiplicando o efeito.
Nada disso significa que o salário mínimo não deva subir. O problema é tratá-lo como solução social isolada em um país que evita discutir eficiência, tecnologia, qualificação e ambiente de negócios. Países que sustentam aumentos reais de renda primeiro elevam produtividade. Aqui, eleva-se o número e espera-se que o resto acompanhe.
Até acompanha, às vezes. Preços sobem. Margens comprimem. O investimento recua. A informalidade persiste. A economia se ajusta. Não por vontade política, mas por necessidade matemática.
No fim, o ciclo é conhecido. Comemora-se o reajuste. Meses depois, procura-se entender por que o emprego desacelerou, o crédito encareceu e o custo de vida apertou. O problema não é o salário subir. É subir sozinho, enquanto a produtividade segue estacionada, observando, como sempre, da arquibancada.