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Colunista

COP 15: vamos falar sobre biodiversidade racial?

Acordo da COP 15 também reconhece explicitamente os direitos territoriais e culturais dos povos indígenas

Por Fernanda Camargo

21/12/2022 | 7:26 Atualização: 21/12/2022 | 14:00

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A biodiversidade de raça é um tema pouco discutido (Foto: Reuters/Siegfried Modola)
A biodiversidade de raça é um tema pouco discutido (Foto: Reuters/Siegfried Modola)

Esta foi uma das finais de Copa do Mundo mais emocionantes da história. Apesar da rivalidade histórica, torci muito pela Argentina e pelo Messi.

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A Argentina estava merecendo e o Messi, com sua genialidade e humildade, também. Fiquei feliz por ver um país latino-americano ganhando o torneio, apesar das declarações do Mbappé sobre os europeus serem mais preparados que os latinos. 

A biodiversidade de raça é um tema pouco discutido, mas até na Copa do Mundo, ela se destaca. A França terminou a partida com 10 jogadores de descendência africana (exceto o goleiro, Lloris).

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Por outro lado, o time da Argentina era majoritariamente (se não completamente) composto por descendentes de europeus. Isso não quer dizer que um time é melhor ou pior por ser diverso; mas reflete a complexidade e diversidade da nossa sociedade.

Terminou nesta segunda-feira  (19), em Montreal, no Canadá, a COP 15 com um acordo que reconhece explicitamente os direitos territoriais e culturais dos povos indígenas, como forma eficaz de proteger a biodiversidade.

O marco também prevê financiamento de iniciativas de proteção da diversidade biológica. Representantes de 193 países aprovaram um compromisso global para interromper a perda da diversidade biológica e promover a restauração da natureza. O volume financeiro estimado para a proteção da natureza deve atingir US$ 200 bilhões por ano, ainda distante dos US$ 700 bilhões necessários para reverter a perda de biodiversidade.

Falando em biodiversidade, em novembro deste ano, na COP27 – reunião entre líderes mundiais e a ONU para debater mudanças climáticas, seus impactos financeiros e a colaboração para conter o aquecimento global, o discurso da Rainha da tribo Bakwa Luntu do Congo (RDC), Diambi Kabatusuila, foi muito impactante e mostrou que as discussões sobre desenvolvimento sustentável acabam seguindo o mesmo ponto de vista: o dos países desenvolvidos. Esperamos que com esse acordo da COP15, isso mude.

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Trago aqui o discurso para nossa reflexão:

“Devemos começar falando da biodiversidade humana. 

Criamos uma civilização que segue apenas um tipo de mentalidade, uma civilização que não é inclusiva. Precisamos proteger a biodiversidade do ser humano. O fato de sermos diferentes deve ser encarado como um ativo para podermos encontrar soluções. Somos diferentes para que possamos entender a Natureza de diferentes maneiras e assim podemos ser mais completos na nossa visão do que é melhor, juntos.

Muitas vozes estão sendo deixadas de fora do discurso econômico e de mudanças climáticas. Temos que incluir essas vozes. 

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Desenvolvemos uma sociedade para viver com os recursos que temos no planeta, satisfazer nossas necessidades e prosperar na vida – mas trabalhamos apenas com um modelo e esse modelo está criando um caos no planeta. O modelo de desenvolvimento, ou hiperdesenvolvimento. 

O que é desenvolvimento? E quem determina o que é desenvolvimento? 

Dizem que meu país (República Democrática do Congo – RDC) e minha gente é subdesenvolvida. Então temos que nos desenvolver. Desenvolver e “ser menos eu e mais você”? Ser mais o modelo ocidental? 

Todas as referências sobre desenvolvimento vêm dos países desenvolvidos. Então 12% da população mundial é quem determina o que é desenvolvimento. Certo?

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Agora existe o discurso sobre desenvolvimento sustentável. Mas o problema continua o mesmo. Mesmo que se coloque uma maquiagem e o chame de sustentável – as ideias e soluções para resolver os problemas vêm do mesmo lugar, com a mesma mentalidade; fluem dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento.

E o hiperdesenvolvimento? Não seria esse O problema? MAIS, MAIS, MAIS e MAIS? Esse é o modelo de desenvolvimento atual. O sucesso só é medido pela taxa de crescimento da economia, da produção e do consumo. Como é que isso vai ser sustentável?

Não se trata de encontrar uma medida de sustentabilidade, trata-se de encontrar um novo modelo. O problema é sistêmico e estrutural; só medidas superficiais não vão resolver.

Se queremos buscar alternativas, não é possível pedir às pessoas que causaram o problema para que resolvam o problema. Se sua estrutura mental somente te permite pensar de uma maneira, como você vai achar maneiras diferentes? E quem disse que essa maneira não vai criar outros problemas?

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Onde estão os “checks and balances”? Os checks and balances tem que ser sobre diversidade, sobre comunidades que são tão remotas de quem você é e de como você pensa que somente elas podem apontar as discrepâncias do seu sistema.

Uma das causas do desequilíbrio no modelo de desenvolvimento é o racismo ambiental, ou, para colocar em termos práticos, o fato de que as pessoas que mais vão sofrer com as mudanças climáticas são exatamente as que menos tiveram voz e participação nesse processo, as mais pobres, as que foram historicamente marginalizadas. São eles que recebem o problema.

Quando olhamos para a bacia do Congo, os rios estão poluídos com plástico e a água está poluída. As pessoas e os peixes estão contaminados com plásticos vindos de todos os lugares. Estamos adoecendo e matando nossa biodiversidade. E quem foi que causou essa poluição? Não foi o desenvolvimento?

Um dia, não havia plástico no Congo. Quando queríamos beber água, íamos na casa de um estranho e pedíamos um copo. Aí o desenvolvimento chegou, os muros subiram e as portas se fecharam. Nos deram garrafas de plástico e disseram: agora vocês podem beber sua água em uma garrafa de plástico e não precisa mais bater na porta do vizinho – isso é desenvolvimento! Trouxeram a solução sem saber o tamanho do problema que causariam e agora é a população da RDC que sofre as consequências. É assim que o racismo ambiental funciona, sem considerar as perspectivas dessas comunidades remotas.

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Segundo leis da física como a teoria do entrelaçamento quântico (quantum entanglement), estamos todos conectados. Tudo o que você faz para mim, você faz para si mesmo. Gastar dinheiro e tempo para salvar as comunidades mais afetadas com as mudanças climáticas é salvar você mesmo. 

Nosso planeta é um planeta de água. Você não pode poluir um lado da piscina e achar que o seu lado não vai estar também poluído, é o mesmo com o oceano. 

Não existe eu sem você e não existe você sem mim. Segregar soluções para os que podem pagar por elas daqueles que foram levados à pobreza e não podem pagar, no final do dia, irá custar o mesmo para todos. Devemos ser mais inclusivos não apenas na construção de modelos, mas também no desenvolvimento das soluções.

Temos que incluir os povos indígenas na discussão. Mas, se pensarmos bem, somos todos indígenas. Então, devemos nos conectar com nossa ancestralidade para extrair sabedoria de que nossa maior riqueza está na nossa biodiversidade.

Não há como salvar esse planeta sem envolver cada voz, incluindo a minha, a sua e a de cada um de nós.”

*Colaborou: Gustavo Carvalho

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