Assim que cheguei à COP em Belém, me deparei com um grupo de lideranças indígenas em um dos palcos organizados pela World Climate Foundation, fazendo o seguinte pedido:
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Assim que cheguei à COP em Belém, me deparei com um grupo de lideranças indígenas em um dos palcos organizados pela World Climate Foundation, fazendo o seguinte pedido:
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“Cuidar da natureza é cuidar do espírito.
Neste momento vivemos uma crise. Esta crise não é sobre a matéria, é sobre o espírito. Precisamos trazer a sabedoria ancestral para o encontro da ciência. A ciência deve respeitar a sabedoria ancestral.
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As coisas estão mudando muito rapidamente. Muitas vezes queremos fazer mais com menos, queremos realizar algo que não está nas nossas mãos. Isso acaba nos afastando das estruturas e princípios originais. Acabamos causando grandes perdas se levarmos em consideração a entidade humana.
Não somos a única espécie neste mundo. Somos apenas mais uma espécie no ecossistema. Precisamos respeitar a vida, a família, o ecossistema, o Pai Céu e a Mãe Terra.
Continuar explorando a estrutura dessa maneira significa abandonar este planeta. Convidamos todos a viver em harmonia, viver com responsabilidade, viver com profundo respeito pelos sistemas da vida.
Queremos viver em uma economia circular. Convidamos vocês a viver com este planeta e não DO planeta. Convidamos vocês a viver COM a família e não DA família. Viver em colaboração com governos, instituições e empresas que prosperam com respeito. Apelamos por uma transição justa e pela regeneração da vida.
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Queremos olhar para a restauração do clima, mas não podemos fazer esta restauração se não tivermos pensamentos puros.
Se instituição na qual você trabalha ou sua maneira individual de ser está afetando outros seres, então você precisa se transformar. Se a sua empresa não está defendendo a vida ou não está cuidando da vida, é preciso transformar.
Chegou a hora de viver em harmonia com responsabilidade.
Precisamos trazer consciência, não apenas individual, mas coletiva. Precisamos ir do “eu” para o “nós”.
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A chave é trazer ideias puras e belas se quisermos ter sucesso. Ideias puras significam realmente honrar a vida e respeitar outros seres.”
Apesar das questões orçamentárias e logísticas que antecederam a conferência, a COP-30 se consolidou como uma das maiores da história, reunindo 56.118 delegados — entre participantes virtuais e presenciais — incluindo mais de 110 chefes de Estado e de Governo, cerca de 3.000 organizações observadoras e a maior delegação indígena já registrada. Belém ficou atrás apenas de Dubai (COP-28) em número de participantes.
Este encontro ocorreu em um momento simbólico: dez anos após o compromisso histórico de 195 países para manter o aumento da temperatura global bem abaixo de 2°C e buscar limitar a 1,5°C. Infelizmente, as projeções indicam que o mundo pode atingir 1,5°C já no início da década de 2030, mesmo com as promessas atuais — reforçando a urgência de ação.
Os países tinham grandes expectativas para a COP-30, mas não se chegou a um acordo para a saída de combustíveis fósseis e foi difícil construir confiança para uma agenda de financiamento mais robusta.
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Quem acompanhou as notícias no final do ano, provavelmente, se deparou com diversas opiniões, relatos e análises dos principais acontecimentos da COP30 no âmbito político. Teve incêndio, protesto, discussão sobre adaptação, implementação e justiça climática. Não teve EUA nem Mapa do Caminho (para fora dos Combustíveis Fósseis). A conferência trouxe à tona os desafios globais mais urgentes relacionados às mudanças climáticas e as maiores discussões multilaterais em relação aos próximos passos.
Do ponto de vista otimista, vários temas avançaram: a incorporação mais explícita do comércio internacional na agenda climática; Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e de financiamento avançaram, mas ficaram aquém do esperado, o fortalecimento de processos e mecanismos de estruturação como plataformas nacionais e coligações financeiras.
Estive na COP como diretora da Anbima, representando o mercado de capitais. O foco da conferência é transformar compromissos climáticos em investimentos reais, com escala, rastreabilidade e impacto. O mercado de capitais deve ser o veículo para as oportunidades de financiamento dessa transição. A Anbima também organizou eventos com a CNSeg (Confederação Nacional das Seguradoras), a Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), participou de painéis da Green Zone e Blue Zone e patrocinou o Investment COP, evento organizado pela World Climate Foundation. Acho que foi um exemplo de trabalhar em conjunto.
Por outro lado, houve progressos importantes:
Também pude presenciar o lançamento do 4° leilão do Eco Invest, focado em Bioeconomia. O Eco Invest Brasil é um programa do Tesouro Nacional brasileiro lançado em 2024, baseado em blended finance: combinação de capital público catalítico (incluindo garantias e fundos subordinados) com investimentos privados, visando mitigar riscos e alavancar recursos. Os quatro leilões já mobilizaram mais de R$70 bilhões.
Como no gráfico abaixo, do Climate Policy Initiative, o que aprendemos na COP-30 é que a solução climática não será alcançada por uma única abordagem ou por um único ator, mas por meio de uma rede colaborativa, onde todos têm algo a contribuir.
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Fonte: Climate Policy Initiative
Um exemplo disso foi o encontro organizada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) com a India Climate Collaborative (ICC) e a Shakti Sustainable Energy Foundation para colaboração entre Brasil e Índia para uma ação pró Clima (Climate Action). Outro exemplo foram grandes empresas europeias criando estruturas de blended finance no Brasil para ajudar a financiar agricultura regenerativa com taxas mais atrativas.
Para quem estava lá, especialmente para os representantes da sociedade civil, setor privado e organizações financeiras, o destaque não estava apenas nas negociações formais, mas nas conexões, nas conversas informais e no verdadeiro potencial de colaboração que surgiu entre diferentes grupos. Ver gente do mundo todo reunida por um único objetivo é muito animador.
O início de 2026 trouxe um cenário geopolítico turbulento que dificultou a diplomacia climática: a captura de Nicolás Maduro pelos EUA e a declaração de Donald Trump sobre controlar a Venezuela e suas reservas de petróleo aumentaram tensões globais e as preocupações quanto ao futuro dos combustíveis fósseis e a intensidade de sua utilização em meio a eventos climáticos relevantes.
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De outro lado, conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia pressionaram mercados energéticos, com a OPEC+ mantendo cortes para sustentar preços; a rivalidade entre EUA, a China e a Rússia se intensificou, afetando cadeias de suprimento de tecnologias verdes; a ausência dos EUA na COP-30 sinalizou prioridades domésticas sobre compromissos globais; e países vulneráveis enfrentaram dificuldades para financiar adaptação em meio a juros altos e instabilidade econômica. Para piorar, a recente declaração de Donald Trump sobre a intenção de “tomar a Groenlândia” reacendeu tensões diplomáticas e pode gerar um conflito sem precedentes com países da OTAN.
Esse contexto tornou a busca por consenso ainda mais desafiadora, mas essencial para preservar o multilateralismo.
“O recurso mais escasso não é o petróleo, os metais, o ar puro, o capital, a mão de obra ou a tecnologia. É a nossa disposição para ouvir uns aos outros, aprender uns com os outros e buscar a verdade em vez de buscar estar certos.” Donella Meadows
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