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Colunista

Critério ESG na seleção de ativos também é obrigação de um gestor

Ao negligenciar isto, o advisor poderá incorrer em riscos e ignorar oportunidades

Por Fernanda Camargo

10/01/2022 | 7:56 Atualização: 10/01/2022 | 12:52

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Os novos ETFs da XP Asset seguem indicadores globais ESG, compostos por empresas de países emergentes e desenvolvidos. Foto: twenty20photos
Os novos ETFs da XP Asset seguem indicadores globais ESG, compostos por empresas de países emergentes e desenvolvidos. Foto: twenty20photos

(Fernanda Camargo e Rubens Freitas) – Desde a fundação da Wright Capital, há 7 anos, engajamo-nos numa verdadeira cruzada pela incorporação de princípios de sustentabilidade e geração de impacto socioambiental na construção de portfólios para nossos clientes.

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No início éramos vistos com certo ceticismo pelos gestores nos quais investimos e até mesmo pelos nossos concorrentes. Depois de insistir no assunto e com acontecimentos como Paris 2015, Davos, Business Roundtable, pandemia e COP26, temos assistido, com satisfação, a incorporação de princípios de análise de riscos ambientais, sociais e de governança pela comunidade de investimentos brasileira, análise essa que se convencionou chamar de ASG (Ambiental, Social e Governança).

Apesar de tal evolução, ainda é frustrante constatar que boa parte dos gestores e advisors não levam esse assunto a sério. Não nos referimos aqui apenas ao nosso dever moral de entregar para as próximas gerações um planeta habitável, relações sociais e de trabalho mais justas e até mesmo o conceito básico de governança e ética nos negócios, mas ao nosso dever fiduciário como profissionais de investimentos.

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Entendemos que a integração de critérios ASG no processo de seleção de ativos é parte das obrigações de um gestor. Ao negligenciar isto, postergando a adoção de uma política formal e integrada de análise de tais fatores ao seu processo de investimento, o gestor/advisor poderá incorrer em riscos e ignorar oportunidades que desconhece, não precificando assim seus ativos corretamente.

Utilizando a questão climática como exemplo, um gráfico divulgado pelo Federal Reserve Bank of San Francisco mostra dois cenários extremos de emissão de Gases de Efeito Estufa com base em dados do “Climate Action Tracker”.

[—#{“ESTADAO-CONTEUDO-INFOGRAFICO”:[{“ID”:”zK876y”,”PROVIDER”:”UVA”}]}#—]

A linha vermelha é a extrapolação do comportamento “business as usual” (continuamos agindo da mesma forma). Já a linha azul assume que comportamentos sociais, políticas de governos, reguladores e empresas, em conjunto com novas tecnologias, se tornam realidade, mostrando que podemos estabilizar as emissões, fazendo-as declinar para níveis suportáveis pelo planeta. Mas, para isso, incorreremos no “Risco de Transição”: transição para uma nova maneira de fazer negócios e gerar riqueza, ou seja, oportunidades e riscos.

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Pela linha vermelha, se não fizermos nada diferente, a temperatura média do planeta pode atingir 3ºC a 5ºC acima das temperaturas observadas nos últimos anos do século XIX (revolução industrial). Isto é, no mínimo, assustador e certamente irresponsável, levando a grandes efeitos financeiros, além de efeitos sociais inimagináveis.

O prejuízo para a economia mundial e para o meio ambiente e principalmente para milhões de pessoas será enorme. Não só por ameaçar a solvência de várias instituições e governos e até mesmo a estabilidade do sistema financeiro global, mas a vida como se conhece em nosso planeta. Milhões de pessoas perderam suas casas.

Tomemos como exemplo os chamados “Universal Owners”, investidores institucionais como fundos de pensão, “endowments” e fundos soberanos, que, de tão grandes, têm seus portfólios necessariamente investidos em praticamente todas as classes de ativos globais.

Neste caso, seu retorno de longo prazo está fortemente atrelado ao crescimento da economia como um todo. Se riscos como o climático não forem endereçados, como poderão honrar suas obrigações de longo prazo dado que tais riscos cobrarão um quinhão significativo do crescimento global em futuro próximo? Não seria obrigação de seus advisors protegê-los destes riscos?

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Parte do problema está na visão de curto prazo, acreditando que, “no momento certo” ou “se e quando acontecer”, seus gestores estarão prontos para livrá-los do desastre iminente. Como profissionais de investimento sabemos que “Market Timing” é pouco eficiente na geração de valor consistente.

Esta mesma visão “curtoprazista” não está enxergando os riscos no longo prazo e pode não enxergar oportunidades ligadas a novos processos, tecnologias, hábitos de consumo ou mudanças demográficas e geracionais. A qualidade e resiliência de um portfólio exigem visão de longo prazo.

É cada vez mais nítido que gestores e advisors que não se engajarem na chamada “Agenda ASG” perderão relevância no mercado pois, entre vários outros riscos, as empresas investidas poderão ser alvo de processos judiciais, multas, novas regulamentações e interferências de governos e ainda ter custo de financiamento maior (movimento que já vem acontecendo) e ser menos produtivas ao não otimizar o uso de recursos naturais e humanos.

A lista é imensa e leva ao risco reputacional: consumidores, colaboradores e investidores, mais conscientes de sua responsabilidade, tenderão a se afastar de tais práticas, não desejando pactuar com este modelo “old fashioned” e ineficiente; pelo contrário, vão querer sentir orgulho do quê e de quem compram, para quem trabalham e no quê e com quem investem, e isto impacta diretamente nos resultados.

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Enquanto os mais céticos demoraram a perceber as mudanças por vir, a CVM – Comissão de Valores Mobiliários, após anos de debates e de audiência pública sobre o tema, no final de dezembro, a Resolução CVM 59, alterando a Instrução CVM 480, que trata das informações públicas a serem apresentadas no formulário de referência pelas companhias de capital aberto.

As normas editadas, embora não obriguem as companhias a adotarem comportamentos específicos em relação a práticas ASG, impõem a elas a obrigação de praticar ou explicar suas condutas em relação a:  i) se divulgam explicações específicas sobre o tema ASG e, em caso negativo, porque não; ii) a metodologia aplicável para tanto; iii) se tais informações são auditadas; iv) se tais relatórios consideram a divulgação e a matriz de materialidade e segundo quais indicadores; v) se seus relatórios levam em consideração os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU e as recomendações do TCFD (Força Tarefa para divulgações Financeiras Relacionadas às Mudanças Climáticas); vi) se fazem inventário de emissões sobre mudanças climáticas, com o escopo das respectivas emissões inventariadas; e, ainda, quanto aos recursos humanos, vii) solicitando informações sobre indicadores de diversidade, identidade autodeclarada de gênero, cor ou raça de sua equipe e colaboradores.

A partir do momento em que as práticas ASG se tornam de conhecimento público, como ocorrerá com as empresas de capital aberto, inicia-se um processo irreversível de aferição de valores por parte dos diversos stakeholders, o que invariavelmente afetará comportamentos, relações de consumo e decisões de investimento.

Como gestores de patrimônio, entendemos que é fundamental que os gestores nos quais investimos apresentem um processo formal de avaliação de fatores ASG na decisão de investimento, afinal, são fatores de risco. Considerar esses fatores ajuda na construção de um portfólio mais robusto, com uma melhor relação retorno sobre risco no longo prazo.

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Para aqueles que ainda acreditam que a integração ASG significa uma restrição de investimento, que pode reduzir o potencial de retorno de seus portfólios, é importante dizer que adotar essa agenda não significa restringir nada, mas sim ter governança e processo formal que garanta o correto mapeamento e precificação de tais riscos que, até pouco tempo atrás, eram completamente ignorados. A integração ASG vem para somar.

Como podemos falar em preservação de capital se não exigirmos também dos gestores nos quais alocamos um processo formal de mapeamento desses riscos e oportunidades? Não é apenas uma questão de propósito, mas da correta aplicação do dever fiduciário para com nossos clientes. Tomamos emprestado aqui um termo usado na publicação de um grande gestor “Quant” brasileiro para afirmar que: ESG Investing é “INignorável”.

Estamos felizes por termos sido um dos precursores desta agenda e por estarmos entregando retornos consistentes, com um planeta mais sustentável com impacto positivo na vida de milhões de pessoas. Parabéns à CVM por mais este passo fundamental na regulação do mercado de capitais e por deixa-lo mais transparente e ético.

*Rubens Freitas é sócio da Wright Capital

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