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Fernanda Camargo é sócia-fundadora da Wright Capital

Investimento com propósito

Fernanda Camargo é sócia-fundadora da Wright Capital Wealth Management e tem mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro, 15 dos quais em Gestão de Patrimônio, com passagens por Vinci Partners, Gávea Arsenal Gestão de Patrimônio, Standard Bank, Deutsche Bank e Merrill Lynch. Ela é uma das fundadoras do Instituto LiveWright, OSCIP dedicada a gestão do esporte olímpico no Brasil e faz parte do Conselho da ONG Atletas pelo Brasil.

Escreve mensalmente, às sextas-feiras

Fernanda Camargo

Investimentos sustentáveis: boas notícias para as novas gerações

Títulos verdes estão crescendo e até junho deste ano, as emissões somavam R$ 40,5 bilhões na América Latina

A preservação de matas se tornou um importante ativo financeiro para as companhias. (Fonte: Shutterstock/TH2I Shutter Rich/Reprodução)
  • Como todos sabem, os mercados têm grande impacto no mundo que vivemos. Os investimentos que fazemos em determinadas empresas ou setores reflete nossa escolha de futuro
  • O mercado de capitais está mudando. O número de fundos sustentáveis nas plataformas de investimento cresce diariamente
  • Dentre as boas notícias, agora em outubro, a Anbima anunciou que está definindo critérios para identificar fundos sustentáveis

Comecei a escrever essa coluna bem no início da pandemia, em junho de 2020. Naquele momento as pessoas estavam começando a olhar mais para investimentos sustentáveis. De lá pra cá, muita coisa aconteceu. Ainda precisamos de uma mudança cultural maior e isso leva tempo. Minha tia, Esther Figueiredo Ferraz, que dedicou a vida a educação, sempre dizia que algumas mudanças levam gerações para acontecer, mas que nem por isso devemos parar de lutar, pois se hoje estamos aqui, alguém lutou antes de nós.

Lembrando: em janeiro de 2020, em Davos, o assunto principal foi mudanças climática. Um pouco antes, em agosto de 2019, mais de 200 CEOs assinaram o Business Roundatable, onde se comprometiam com todos os stakeholders e com o bem-estar social. E, logo em seguida, março de 2020 a pandemia começou.

Como todos sabem, os mercados têm grande impacto no mundo que vivemos. Os investimentos que fazemos em determinadas empresas ou setores reflete nossa escolha de futuro. Neste sentido, é importante construirmos portfólios para um mundo novo onde o carbono emitido, o uso da água, o tratamento de resíduos, a maneira que a empresa trata a comunidade na qual está inserida, a fonte de energia, o tratamento dos funcionários – tudo isso está sendo precificado e passa a fazer parte do balanço da empresa.

O mercado de capitais está mudando. O número de fundos sustentáveis nas plataformas de investimento cresce diariamente. Logo que o movimento começou, em meados de 2020, lembro que fizemos uma busca por fundos com o nome ESG, ASG, Sustentável, Verde etc – em poucos meses, mais de 50 fundos novos haviam surgido. Obviamente que cada um com seu próprio critério.

Dentre as boas notícias agora, em outubro, a Anbima anunciou que está definindo critérios para identificar fundos sustentáveis. O Fundo que quiser usar IS (Investimento Sustentável) no nome terá que comprovar ferramentas, processos e equipes capazes de assegurar a aderência dos fundos às normas. O intuito é assegurar, via autorregulação, um crescimento saudável e robusto destes produtos. A Anbima pretende publicar as regras no começo do ano, já incorporando eventuais alterações que possam surgir até o final da audiência pública – que termina hoje.

Em setembro, o Banco Central também divulgou cinco normas (BCB n139, BCB n140, Resolução CMN 4943, 4944 e 4945) que tratam do gerenciamento de riscos sociais, climáticos e ambientais por parte dos bancos e que estabelecem regras para um reporte dessas questões que passará a ser obrigatório para as instituições financeiras a partir de 2023. Ou seja, para uma instituição financeira dar crédito para uma empresa, terá que colocar na conta o risco climático, social e ambiental. Essas normas seguem a linha do Task-Force on Climate-Related Disclosures (TCFD), lançado na reunião sobre o Acordo de Paris, em 2015. O TCFD trata apenas de riscos e oportunidades climáticas. Aqui, o Banco Central foi mais longe, pedindo informações sociais e ambientais mais amplas.

O mercado de títulos “verdes” também está crescendo. Até junho deste ano, as emissões somavam R$ 40,5 bilhões, 30% do total emitido na América Latina. Segundo Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI, o mercado de emissão de títulos de dívidas “verdes” pode chegar a R$ 100 bilhões nos próximos 4 anos no Brasil e US$ 1 trilhão no mundo. Aqui também novas regulamentações podem ajudar no desenvolvimento do mercado de finanças verdes no Brasil: o Decreto 10.387/20, que visa acelerar a emissão de debêntures verdes, e a Lei 13.986/20 que permite que CRAs sejam emitidos em moeda estrangeira.

A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que tem o objetivo de fiscalizar, normatizar, disciplinar e desenvolver o mercado de valores, também está trabalhando numa nova resolução para modificar a Instrução 480, que trata sobre a divulgação de informações ao mercado por parte das empresas listadas e está incorporando as questões ESG e climática.

Com a crise energética, ficou mais clara a necessidade de investimento em uma matriz energética diversificada. Além disso, como muitos países estão se comprometendo com a transição para uma economia de baixo carbono, o investimento em energias renováveis se tornou essencial. Neste sentido, o Brasil poderia se beneficiar muito.

Segundo uma pesquisa realizada pela Ernst & Young e publicada na 57ª edição do Índice de Atratividade de Países em Energia Renovável (RECAI), mesmo com a pandemia que começou em 2020 os investimentos em energia renovável cresceram 2% em todo mundo. O valor investido em 2020 foi de US$ 303,5 bilhões, segundo maior registrado.

O mesmo estudo apontou ainda que, para atingir o valor líquido zero de emissões de GEE (Gás de Efeito Estufa) no mundo, é preciso um investimento adicional de US$ 5,2 trilhões para viabilizar a transição energética. O Brasil aparece na 11ª posição no ranking, subindo quatro posições em relação ao ano anterior. O avanço se deve aos planos de implantação de capacidade eólica offshore e projetos de lei para incentivar o setor renovável.

Para finalizar, como todos sabem, começa neste final de semana a COP26 em Glasgow. Entre seus objetivos, discutir a implementação do Acordo de Paris é considerado um dos mais importantes compromissos multilaterais para a redução de emissão de gases de efeito estufa. A maior discussão gira em torno das compensações para países em desenvolvimento afetados pelas mudanças climáticas. Países ricos haviam prometido US$ 100 bilhões por ano para ajudar nações mais pobres até 2020 – aparentemente, essa meta não foi atingida e os países ricos estão sendo cobrados.

Na Cop26, os países signatários do Acordo de Paris terão a oportunidade de criar um robusto mercado de carbono. Para isso, será necessário que nações cheguem a um consenso no que diz respeito ao Artigo 6º do Acordo de Paris, que assegura que esses países possam negociar créditos de carbono uns com os outros a fim de garantir suas reduções de emissões de gases de efeito estufa por meio da venda de créditos de emissões excedentes, caso já tenham cumprido seus compromissos.

Hoje no Brasil, o mercado de carbono é voluntário, formado por empresas. O artigo 6 descreve os mecanismos de mercado para que haja a transição para uma economia de baixo carbono a partir da compra e venda de créditos entre os países – criando um mercado regulado.

A delegação brasileira deve oficializar a meta de reduzir as emissões em 37% até 2025, em 43% até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Mas o Artigo 6 reforça a necessidade de mecanismos regulatórios internos específicos, tanto públicos como privados, para incentivar e viabilizar uma economia de baixas emissões de carbono. Infelizmente, o Brasil vai precisar fazer muita lição de casa.

Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, o Brasil teve um aumento de 9,5% nas emissões de gases poluentes em 2020, em plena pandemia. A média global de emissões sofreu uma redução de 7%, por conta das paralisações de voos, indústrias e serviços ao longo do ano passado. O Brasil liberou 2,16 bilhões de toneladas de gás carbônico em 2020, contra 1,97 bilhão em 2019 – o maior responsável foi o aumento do desmatamento.

Gostaria de terminar este artigo contando mais notícias boas. O Brasil poderia ser um dos grandes beneficiados da COP26. Mas, como disse minha tia, não vamos parar de lutar. As próximas gerações merecem.

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