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Colunista

Bolsonaro, ser ou não ser um liberal?

A decisão do presidente do Brasil de intervir na política de preços da Petrobras chega como uma decepção em Wall Street

Se pensa em investir nas ações da Petrobras por causa da guerra, você ainda não entendeu nada sobre investimentos. (Foto: Sergio Moraes/Reuters)
Se pensa em investir nas ações da Petrobras por causa da guerra, você ainda não entendeu nada sobre investimentos. (Foto: Sergio Moraes/Reuters)

Para Jair Bolsonaro, bancar o liberal na economia é uma delícia. Ser, na prática, é um pesadelo. Principalmente se você estiver no lugar certo, mas na hora errada. Entre o querer e o ser, parte do Brasil que vota se alimenta de intenções, enquanto a parte do Brasil que produz, emprega e é empregado, regurgita frustrações. A decisão do Presidente Bolsonaro de intervir na política de preços da Petrobras, demitir seu Presidente e nomear um general para a função, chega como uma decepção em Wall Street e não necessariamente como um choque. O governo já demonstrou muitas vezes que é um governo de “direita” em temas muito específicos e autointitulados, mas nunca de uma forma ampla e compreendida pelo mercado como “liberal”.

Pois bem, sempre a realidade se impõe, seja em um governo que se autointitule de esquerda ou de direita. Quem rotula é a História e o observador, nunca o observado. Ao menos dentro do ângulo de uma parte relevante do mercado financeiro, ser liberal, pró-diminuição do Estado, a favor de simplificações processuais e burocráticas, além de privatizador, não é uma postura do Presidente Bolsonaro. São novidades trazidas por Paulo Guedes que soaram interessantes, porém se mostraram difíceis de implementar dentro de um ambiente político onde o Presidente agiu como um piloto solitário de um monomotor que anunciou o sequestro do próprio avião e mudou a rota completamente, deixando o solo perplexo, só não ele.

O reajuste de preços por parte da Petrobras tende a ser uma desagradável necessidade. “Quando o governo interfere numa estatal, principalmente em uma como a Petrobras, é um péssimo sinal”, disse um gestor de um fundo de NY especializado em commodities na América Latina, “quando faz isso e ainda afirma que não está interferindo de forma alguma, aí é pior ainda, pois normaliza uma tendência que certamente veremos novamente em breve”, concluiu.

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Tudo é expectativa e entrega. Nas primeiras horas após o anúncio, as ADRs da Petrobras registravam queda de quase 16%. Essa queda contabiliza um pouco da decisão em si em relação a não reajustar o valor do combustível, mas grande parte dessa queda se dá pela famosa expressão de “ihhhh”.

A Petrobras entra em uma posição complicada. Não vale a pena investir em ações da empresa até ter uma clareza maior em relação a como seria uma gestão do General Silva Luna e até que ponto o governo seguirá intervindo. Com isso, mesmo com a possibilidade de recuperação nos preços do barril do petróleo no curto prazo, a empresa estará manchada pela mão do governo naquilo que mais machuca quando se mexe: política de preços.

Há de compreender os aspectos políticos também. À medida que Bolsonaro percebe a dificuldade de expandir o auxílio emergencial e retomar o volume de distribuição do auxílio que vimos no ano passado, sua popularidade entre parte da população que se beneficiou desse auxílio cai. A mensagem do Ministério da Economia é que novos e contínuos pacotes de auxílio gerarão uma pressão fiscal que só vai dificultar mais ainda lá na frente. A intervenção direta no preço do combustível traz um aspecto populista importante (tentar a manutenção de uma parte do eleitor que voltou a mostrar dúvidas em relação ao governo), mas afasta alguns formadores de opinião do mercado financeiro no Brasil que defendem a postura econômica do Presidente.

Entre um caminho que mostrava dezenas de privatizações e um triunfante rumo em direção à recuperação econômica e outro onde as dificuldades reais e autogeradas da manutenção da governabilidade restringiriam parte desses objetivos privatizantes e reformistas, seguimos um que não estava necessariamente listado: o mais do mesmo.

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Livre mercado no Brasil é bom para o governo dos outros. O Brasil não deixa de atrair investidores por conta da sua magnitude e das oportunidades geradas ainda pelo setor privado. O governo não ajuda e nem atrai. Quanto maior o silêncio e a falta de notícia, maiores os sinais para investidores de que “se não tem notícia, está tudo no mesmo”.

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