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Colunista

China: Revolução 3.0

Nem toda revolução é espalhafatosa ou envolve desfile de armas, um inimigo claramente definido ou violência

Por Thiago de Aragão

10/11/2021 | 11:30 Atualização: 10/11/2021 | 13:52

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(Foto: glaborde7/Pixabay)
(Foto: glaborde7/Pixabay)

Nem toda revolução é espalhafatosa ou envolve desfile de armas, um inimigo claramente definido ou violência. Por mais que a República Popular da China tenha sido um produto de uma sangrenta guerra civil entre os comunistas de Mao Tse Tung contra os nacionalistas de Chiang Kai-Shek, a liderança comunista passa, de tempos em tempos, por drásticas mudanças internas.

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A primeira ocorreu via o próprio Mao, quando sua política de Revolução Cultural e o Grande Salto levaram o país ao caos, à pobreza e a questionamentos internos anos após sua morte. Mesmo assim, Mao é visto como a liderança que impediu que o país se esfacelasse em sua fase mais crítica: a implementação de um regime comunista, que muitas vezes se viu paranóico em relação a seus próprios membros.

Um desses membros que sofreu com a paranoia de Mao foi Deng Xiaoping. Deng passou de assessor mais próximo a semi-expurgado e escanteado, para novamente voltar a posição de líder máximo após a morte de Mao, em 1976. A revolução de Deng foi a de inserir a China no mundo industrializado, mercantil, exportador e consumidor. Isso não ocorreu sem suas próprias tragédias internas, mas Deng soube manter a unidade do partido e liberar o país mais populoso da Terra por mais de uma década.

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Xi Jinping é o terceiro líder chinês, quando o poder não encontra as fronteiras rígidas e pré-estabelecidas pelo partido com o intuito de impedir novas lideranças de gozar de poderes absolutos. Assumiu a liderança do país em 2013 e hoje, em novembro de 2021, se prepara para um terceiro mandato (5 anos), que possivelmente será encavalado em mais um, totalizando mais 10 anos à frente da República Popular da China.

A reunião de outono, que ocorre em Pequim, reúne dezenas de líderes políticos, militares e partidários em um hotel militar na zona norte da capital. Lá, Xi Jinping consolidou uma liderança que não era vista desde Deng Xiaoping, mas com fortes requintes de elementos típicos do maoísmo. Alunos nas centenas de milhares de escolas espalhadas pelo país estudam o pensamento de Xi, histórias e aventuras de sua infância e adolescência e, o mais importante, sua visão de futuro.

Xi estipulou várias novas regras que afetam não só seu país, mas todo o mundo. Destaco as mais importantes as quais qualquer investidor, empresário ou curioso deveria conhecer para melhor navegar entre as nuances e narrativas globais:

1. Para impedir que a produção industrial chinesa alcance um platô perante o consumidor interno, o país deve exportar mais. A Rota da Seda foi a saída clara para isso, mas, para que isso ocorra de forma eficiente, Xi acredita que o país que receberá produtos, serviços e tecnologias chinesas precisa estar preparado para tal. Logo, investir na infraestrutura desses territórios facilita o acesso.

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2. Xi entende que a polarização e as tensões com os EUA não acabarão tão cedo. Por isso, precisa de narrativas “positivas” para contrabalancear as narrativas negativas que são vocalizadas pelos EUA. A transição energética e a proteção ao meio ambiente foram algumas dessas narrativas. A grave crise energética que o país atravessa minou temporariamente a credibilidade dessa narrativa (explicando a ausência de Xi na COP26). A distribuição da vacina funcionou menos do que ele esperava. O próximo passo deverá focar na colaboração tecnológica com países que não têm a capacidade de atingir um nível de detenção de tecnologia, por conta própria, em várias áreas.

3. A reformulação das Forças Armadas é extremamente significativa. Até o ano passado, não existia um controle conjunto de operações das quatro forças (Marinha, Exército, Aeronáutica e Cibernética). Este agora existe, e o foco é Taiwan, onde grupos de estudo analisam as posturas americanas no Afeganistão, Iraque, além da postura política e o processo de tomada de decisão durante a invasão russa na Criméia.

4. Xi vem firmando uma aliança com a Rússia. Visa contrabalançar as alianças americanas com a Índia e a Austrália.

5. Xi acredita que a dependência exagerada de commodities em cima de certos países é negativa para a China. Isso inclui a soja brasileira, o minério brasileiro e australiano, além de minerais raros. O foco é diversificar fornecedores. A África é um foco para isso, tendo a Tanzânia e a República Democrática do Congo como centrais nessa estratégia. Com a Tanzânia, estudam subsidiar plantações de soja e melhorar a infraestrutura de escoamento. Com o R.D. Congo, o foco são os minerais raros, diluindo a “responsabilidade” da Argentina, Chile e Peru como futuros fornecedores.

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6. Xi visa manter as empresas de alta tecnologia debaixo das regras chinesas. Para isso, agradeceu silenciosamente as decisões da SEC americana de impedir certas empresas de ingressarem na bolsa de NY. Impediu também que a Huawei entrasse na bolsa de Frankfurt, sabendo que as regras domésticas desses países se sobressairiam às regras chinesas. Assim, expande e fortalece a “Nasdaq” chinesa (Star Market de Xangai), cria a bolsa de Pequim, voltada para pequenas e médias empresas, fortalece a tradicional bolsa de Xangai e coopta, aos poucos, a bolsa de Hong Kong. Xi sabe que a inovação dessas empresas funciona como o gatilho para atrair investidores estrangeiros para operar nas bolsas chinesas.

7. O governo trabalha num processo de convergência entre as empresas de tecnologia de ponta — principalmente as que pesquisam e desenvolvem tecnologias de computação quântica, inteligência artificial e armas eletromagnéticas — e as Forças Armadas. Assim, a incorporação e militarização de novas tecnologias ocorrerão de forma mais rápida e coordenada.

8. Xi entendeu que marcas chinesas não precisam gastar tempo lutando por credibilidade internacional se a tecnologia chinesa pode ser incorporada em produtos e softwares estrangeiros. Por isso, há um foco especial na zona de startups de Medellín (RutaN) e no centro tecnológico de Guadalajara.

9. Mesmo com toda a onda em cima da diplomacia “Wolf Warrior”, a China percebeu que ainda não domina a arte da diplomacia ocidental. Ao invés de costurar alianças com grupos comerciais, empresariais, sindicatos e ONGs via seus diplomatas, Xi entendeu que essas deveriam ocorrer via grupos chineses de características similares. Assim, Tijuana, no México, se tornou um laboratório dessas interações entre associações comerciais chinesas e mexicanas. O mesmo vem acontecendo em Lima, no Peru.

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Em meio a tudo isso, Xi Jinping deixa claro, domesticamente, que o foco internacional deve diminuir, e o foco interno deve aumentar. Claro que a crise energética, a crise imobiliária e algumas bolhas que surgem aceleraram essa decisão, mas Xi também entende que quanto maior a exposição internacional do partido, maiores as chances de informações, notícias e análises que fogem do seu controle acabarem reverberando aos ouvidos de uma sociedade profundamente conectada, onde o controle da informação é eficiente mas não é infalível.

Ele sabe que sua permanência depende mais do que ele faz domesticamente do que internacionalmente, e, mesmo se a China parecer resignada e silenciosa nos próximos meses, devemos sempre nos lembrar que a cronologia de suas estratégias e formulações de políticas públicas são bem mais lentas do que as que estamos acostumados no Ocidente.

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