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Colunista

Javier Milei quer perder de propósito as eleições argentinas?

O candidato presidencial argentino representa um temor maior aos olhos de observadores no mundo inteiro

Por Thiago de Aragão

25/10/2023 | 14:15 Atualização: 25/10/2023 | 14:32

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O candidato da extrema direita nas eleições presidenciais argentinas, Javier Milei (Imagem: Victor Moriyama/The New York Times)
O candidato da extrema direita nas eleições presidenciais argentinas, Javier Milei (Imagem: Victor Moriyama/The New York Times)

No mundo inteiro, a imprensa internacional chama a atenção para a importância da eleição que se realiza atualmente na Argentina. Há quem diga que é a mais importante do país em décadas. A atribuição da excepcionalidade hoje se dá quando um dos candidatos representa um temor maior aos olhos de observadores no mundo inteiro.

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Por mil razões distintas, Sergio Massa, atual ministro da economia, versus Javier Milei, considerado da extrema-direita, é uma disputa de profunda relevância, pois envolve diversas opções políticas – esquerda contra direita, dolarização ou manutenção do peso, extinção ou não do banco central –, bem como a discussão que ela polariza sobre valores relacionados a corrupção, legalidade e tomada de caminhos mais a favor dos Estados Unidos ou da China, ou totalmente contra o país asiático e por aí vai.

Quando analisamos cuidadosamente a estratégia de cada candidato, podemos especular até a mais absurda das possibilidades: Milei quer perder a eleição?

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Primeiramente, é contraintuitivo imaginar que alguém que disputa a eleição presidencial do seu país, com possibilidades reais de ganhar, possa preferir a derrota. Mesmo assim, nesse exercício imaginativo, vamos observar alguns pontos.

Até um mês antes das primárias, Milei não havia montado estrutura minimamente organizada para uma campanha eleitoral (mesmo no auge da campanha, a equipe dele não passava de poucos indivíduos na base do “deixa a vida me levar”). Até ficava claro que não estava pensando nisso e que ia ver como as coisas se dariam.

Já em plena campanha, foi instruído por dois dos seus assessores mais próximos a adequar suas mensagens, mas sem mudar a essência, afim de conquistar o voto mais central, focalizado até esse momento em Patrícia Bullrich, que ficou em terceiro lugar nas eleições do último domingo (22).

Por mais racional que fosse, Milei não quis fazer isso. Para o apoiador e simpatizante emocionalmente atrelado, isso significaria um ato de desvalorização de seus ideais. Pode até não ser perigoso, mas também não seria o ideal para quem quer ganhar.

Aumento do tom

Em cima disso, Milei aumentou seu tom contra a China em um momento no qual os chineses realizaram uma negociação financeira de quase US$ 11 bilhões com os argentinos. Por ser fato consumado, a posição aberta anti-China (que nunca é a postura inteligente, já que a discrição configura a melhor forma de rejeitar o outro no campo das relações internacionais) poderia gerar um problema grave na manutenção das dívidas crescentes e existentes com o país asiático, além de, claro, aumentar a dependência comercial que a Argentina tem em relação à segunda maior economia do mundo.

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Durante a campanha, Milei não fez nenhum esforço para organizar sua base nas províncias (perdeu 4 em relação às 16 que ganhou nas primárias) nem organizou uma narrativa uníssona com seus candidatos a deputados e ao Senado. Uma candidata aliada de Milei chegou a dizer que apresentaria um projeto de lei no qual o pai de uma mulher grávida poderia escolher reconhecer ou não o filho caso ela não o informasse da gravidez em até duas semanas após o diagnóstico. Esse tipo de ideia, além de esdrúxula, prejudica (como prejudicou) a reta final de uma campanha.

Um empresário em uma das províncias na qual Milei perdeu, contou que o candidato parecia não estar interessado no apoio dos políticos ou empresários locais.

Exercício especulativo feito, por que Milei não gostaria de vencer (se é que isso é possível)?

Burrice?

Bom, Milei pode ser tudo menos burro. Aliás, ele é considerado brilhante até por políticos que discordam profundamente de suas ideias. Ele sabe que, eleito, envolto em sua controvérsia, e sem apoio no Congresso, sua presidência e seu projeto de poder estariam liquidados antes mesmo de engrenar.

Javier Milei é um candidato com tração popularidade, suas ideias ainda não são. Não há uma base pronta de potenciais deputados, senadores e governadores que estejam na mesma sintonia que o candidato. Se eleito, Milei estaria sozinho, realizando concessões para se proteger do Congresso e de eventuais retaliações.

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Enquanto, no Brasil, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da silva puderam, e podem, liberar bilhões e bilhões de reais em emendas, na Argentina um presidente não tem um peso furado para fazer isso.

Milei é uma usina de ideias (loucas para uns, sensatas para outros) sem linhas de transmissão para outros políticos. Se tornando presidente agora, poderia significar seu fim como fomentador de ideias distintas. É natural que ele tema ser o Castillo argentino.

Explica-se: governando sem apoio, Pedro Castillo levou um pé na bunda de um Congresso que cansou de suas ideias e narrativas malucas. Milei poderia ser o próximo, pois o Parlamento se desenha para ser bem hostil a ele.

Vantagens

Qual a vantagem de perder? Por incrível que pareça, há vantagens. Milei seria o incontestável líder da oposição onde a assimilação de suas ideias por outros políticos poderia ocorrer de forma mais ordenada caso ele queira e seja organizado o suficiente para isso. Se ele tem tanta confiança no fracasso econômico de Massa, sua ideia para solucionar pode ser aceita de forma orgânica.

Milei pode vir a ganhar e se tornar o próxima presidente argentino. A chance de fracasso, caso isso ocorra, é muito alta. A dolarização não ocorrerá e uma “yuanizacao” pode acabar acontecendo, pois reservas em moeda chinesa estão crescendo, enquanto as em dólar estão no negativo. Um Congresso hostil esperará o primeiro erro (que não tardará a ocorrer ) para agir.

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Já Massa dificilmente trará algo novo para a mesa. Ministro de uma administração que elevou a inflação para 140% ao ano, não vemos o candidato sendo o solucionador do problema acentuado no governo de Alberto Fernández.

Para Milei, Massa eleito o coloca como líder da oposição e com tempo de tentar adequar sua linguagem na espera de um melhor momento, por mais difícil que isso pareça.

  • Veja também: Como é lidar com dinheiro na Argentina com inflação de 138%

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