Mas, por ossos do ofício, procurei me informar. Estudar, conhecer do que se trata, me despindo de orgulhos e preconceitos próprios. A imunização racional de Tim Maia.
E eis que tenho uma grande e grata surpresa. As stablecoins representam uma das inovações mais práticas e promissoras no universo das finanças digitais hoje. Deixe-me explicar.
Parece haver 3 problemas com os ativos digitais: (i) uma volatilidade, um sobe e desce que os limita à posição coadjuvante em portfólios, apesar do seu crescimento explosivo e do seu potencial em termos de geração de retornos; (ii) ainda carecem de confiabilidade, o “trust” e a fidúcia que são tão importantes no mercado financeiro; (iii) a dificuldade do uso prático em larga escala, como nas moedas tradicionais – estou falando aqui de conseguir pagar a conta do vinho no bar de fado em Alfama à meia-noite.
Eis que surge algo que parece resolver esses problemas.
Imagine um dinheiro digital que não sobe nem desce loucamente como o Bitcoin ou o Ethereum, que carrega consigo o lastro e a confiabilidade de uma moeda forte como o dólar e que, por isso, apresenta conversibilidade instantânea, permitindo o uso nas situações cotidianas. É interessante notar que, no caso brasileiro, por ora, não há incidência de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na compra de ativos digitais.
Pois bem, as stablecoins são ativos digitais projetados para manter o preço relativamente estável, buscando sempre valer 1 para 1 em relação ao dólar na rede blockchain (cadeia de blocos). Elas reduzem a volatilidade que assusta muita gente e servem para pagamentos rápidos, transferências internacionais baratas, guardar valor sem medo de perdas bruscas e até ganhar rendimento em alguns casos.
Não quero me alongar aqui, mas gosto de saber a origem das coisas, e talvez você também. O primeiro grande nome dessa história foi o Tether (USDT), lançado em 2014, com a proposta de ser um “dólar digital” que facilitasse a vida de quem precisava transacionar ou proteger valor dentro do ecossistema cripto. Dessa origem focada em traders, as stablecoins evoluíram rapidamente.
Depois, veio o USDC, da Circle e Coinbase, que trouxe mais transparência e confiança regulatória. Teve também o DAI, mais descentralizado, e experimentos algorítmicos que deram errado, como o TerraUSD em 2022. Hoje existem dezenas de variantes, com garantias em diferentes mecanismos (dólares em reservas, títulos do Tesouro etc.) e uso para pagamentos, remessas internacionais instantâneas e liquidez em mercados de finanças descentralizadas.
Ok, mas parece coisa de nerd de tecnologia. Diria que, atualmente, essa “coisa de nerd” por si só seria um elogio, mas, para quem cresceu nos anos 90, nem tanto.
Stablecoins: grandes bancos emitindo suas versões
Mas é aí que está… No meio financeiro sério, as stablecoins deixaram de ser “coisa de nerd” e viraram ferramenta real. Grandes bancos americanos, como JPMorgan (que já tem o JPM Coin rodando internamente), Citigroup, Bank of America e até Goldman Sachs, estão explorando ou emitindo suas próprias versões. Eles veem stablecoins como forma de fazer pagamentos internacionais em segundos, com custos bem menores do que os sistemas antigos — às vezes cortando pela metade as taxas de remessas ou transferências cross-border.
Hedge funds (Fundos de hedge, que usam estratégias de investimento de risco, como apostar na direção oposta ao foco do fundo para compensar perdas em suas principais participações) e grandes investidores institucionais também entraram forte: muitos usam stablecoins para ganhar rendimento em DeFi (finanças descentralizadas) ou como ponte para entrar e sair do mercado cripto com menos volatilidade. A adoção institucional explodiu em 2025 e 2026, com volumes diários batendo recordes e empresas como Stripe, Visa e Mastercard integrando stablecoins em cartões e pagamentos cotidianos.
Mas ainda falta um ator importante nessa equação.
O regulador, o governo, o grande irmão de George Orwell. Não estou aqui para defender o “mais Estado”, mas, sem ele, a validação desse novo instrumento em contexto amplo e a aceitação em escala do grande público ficam debilitadas. Mas ele veio. O Estado tem estado presente nesse desenvolvimento.
Aqui nos EUA, a administração de Donald Trump, sensível à necessidade de os EUA estarem na vanguarda do desenvolvimento tecnológico nas diferentes frentes em que ele se apresenta, teve uma postura muito positiva acerca do tema. O governo deu um passo gigante com o GENIUS Act, sancionado em julho de 2025 por Trump. Em meio a tarifas e brigas geopolíticas, essa importante regulação passou despercebida por muitos, mas é a primeira regulamentação federal séria para stablecoins de pagamento.
Em suma, ela exige que só emissores autorizados possam lançar essas moedas, com reservas 100% em ativos líquidos como dólares ou títulos do Tesouro americano, auditorias mensais públicas e regras rígidas contra lavagem de dinheiro. O objetivo aqui não é ter o Estado como protagonista, mas sim como um coadjuvante que valida, fornece confiança institucional, protege o consumidor e evita colapsos, mas sem sufocar a inovação.
Mais uma vez, os EUA se colocam como líder global no tema, competindo com moedas digitais de bancos centrais de outros países. Concomitantemente, e de interesse americano, o GENIUS Act transforma as stablecoins em potenciais compradores massivos de dívida pública americana, pois os emissores precisam manter reservas em títulos do Tesouro para cumprir a lastreabilidade. O objetivo aqui é estratégico: manter o dólar, agora de forma digital, como o ativo global e conservar a influência monetária americana na economia digital do século XXI.
Os benefícios para o investidor de varejo
Ok, tudo muito interessante, mas como diria minha filha de 3 anos: “E eu aqui?” Como eu, brasileiro e leitor do E-Investidor, me benefício disso?
Para você, investidor de varejo brasileiro, penso que há vários benefícios. Estou falando de um sistema financeiro que opera 24 horas por dia, com liquidações instantâneas. Essas características criam as condições para fazer transferências internacionais quase instantâneas e com taxas mais baixas do que via bancos tradicionais. Não ficou claro? Um exemplo resolve!
Enquanto você bebe seu vinho verde ao som do fado português em Alfama, seu filho está em Boston estudando. Você precisa enviar recursos que estão no Brasil para ajudá-lo com as suas despesas. Atualmente, muitos usariam estruturas com spreads cambiais elevados, IOF e outras taxas escondidas, que se mostram caras, ineficientes e que custam tempo.
Com stablecoins atreladas ao dólar, você faz tudo isso em minutos, enquanto espera o garçom trazer outra garrafa de vinho. Você usa seus reais para comprar uma stablecoin por meio de uma operação instantânea, vende essas stablecoins em dólar e consegue enviar dólares para o seu filho com custos drasticamente menores e com muito mais velocidade.
Porta de entrada para serviços financeiros inovadores
Mas os usos vão além. As stablecoins podem ser uma porta de entrada para serviços financeiros inovadores e para o acesso à proteção de patrimônio em moeda forte (dólar, por exemplo). O brasileiro pode acessar mercados internacionais usando stablecoins como ponte para comprar ativos tokenizados (processo de converter os direitos sobre um ativo real ou eletrônico em um token digital), participar de produtos financeiros globais ou simplesmente estacionar recursos em dólar.
Talvez isso seja novidade para você, tal qual foi para mim pouco mais de um ano atrás. Mas, apesar de ser uma inovação, o uso das stablecoins já acontece de certa forma silenciosa no Brasil. Pequenos negócios no Brasil, especialmente ligados ao setor digital, já aceitam stablecoins como forma de pagamento para serviços online, softwares, consultorias e até produtos físicos.
A lógica e o benefício aqui são a eliminação de intermediários e a redução de taxas de cartões e adquirentes. Para quem vende, o recebimento é quase instantâneo; para quem paga, o custo costuma ser menor. É uma lógica que lembra muito o Pix no Brasil — rápido, barato e direto — só que operando em escala global.
Seguindo no repertório Tim Maia, já fui do Leme ao Pontal neste artigo, então está na hora de concluirmos algo.
Na minha opinião, as stablecoins representam uma ponte entre o mundo financeiro tradicional e a revolução digital dos ativos. Não são apenas uma tese tecnológica ou um debate regulatório distante; já são algo real e presente.
Para o investidor de varejo brasileiro, entender esse movimento desde já é menos sobre “comprar cripto” e mais sobre compreender como o dinheiro está mudando de forma — e como essa mudança pode abrir novas possibilidades de proteção, eficiência e oportunidade no futuro próximo. Esse novo capítulo da história monetária pode despertar oportunidades interessantes para quem está atento, curioso e pronto para compreender como essa tecnologia pode ajudar. Quem ainda não testou está na hora de olhar com atenção.
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