Aposentadoria não é o suficiente: 60% dos beneficiários continuam trabalhando para pagar as contas, aponta Serasa
Levantamento mostra que metade dos aposentados recorre a crédito, enfrenta instabilidade financeira e precisa complementar a renda mesmo após deixar o mercado formal
A B3 encerrou 2025 com recorde no lançamento de índices, criando 12 novos indicadores ao longo do ano. Dez deles são de renda fixa, com foco em debêntures, títulos públicos e crédito privado. (Imagem: Adobe Stock)
A aposentadoria existe no imaginário popular como um ponto de chegada. Um tempo de descanso, previsibilidade e algum conforto depois de décadas de contribuição. No Brasil, porém, ela parece cada vez mais uma curva fechada no meio do caminho. No dia 24 de janeiro, que em 2026 cai em um sábado, comemora-se o Dia do Aposentado, data que remete à Lei Eloy Chaves, de 1923, marco inicial da previdência social no País. Um século depois, o ideal de proteção e estabilidade não dá sinais de se concretizar plenamente.
De acordo com um levantamento da Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, 50% dos aposentados já recorreram a algum tipo de crédito para pagar contas e despesas. Além disso, 35% afirmam que costumam buscar crédito especificamente para cobrir gastos essenciais, como alimentação, moradia e saúde. A pesquisa foi realizada entre 22 de dezembro de 2025 e 11 de janeiro de 2026, com 952 aposentados, e tem margem de erro de 2,6 pontos percentuais.
Quanto à vivência dos beneficiários, 46% dos entrevistados relatam que o valor recebido mensalmente não é suficiente para manter o padrão de vida que tinham antes de deixar o mercado de trabalho. O mesmo percentual afirma sentir maior instabilidade financeira após se aposentar, um dado que desmonta a ideia de que o benefício previdenciário traz, automaticamente, tranquilidade.
A fragilidade aparece também nas situações mais básicas que compõem o cotidiano. Um terço dos aposentados, 33%, enfrenta dificuldades para manter as contas essenciais em dia. Quase metade, 44%, convive com o receio de precisar de ajuda financeira de outras pessoas para fechar o mês. Não por acaso, o risco de endividamento passa a ser uma preocupação central nessa fase da vida.
“A aposentadoria nem sempre vem acompanhada da tranquilidade esperada no âmbito das finanças. Para muitos brasileiros, esse é um momento de adaptação, em que a renda diminui ou muda, mas as despesas seguem elevadas”, afirma Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira.
Trabalhar depois de se aposentar não é uma exceção, mas parte de uma nova regra. Segundo o levantamento, 60% dos aposentados continuam exercendo alguma atividade profissional. Em 63% dos casos, o motivo principal é complementar a renda. Manter uma vida mais ativa aparece como justificativa para 57% dos entrevistados, enquanto 32% dizem que seguem trabalhando para continuar se sentindo produtivos. Há ainda quem busque ajudar financeiramente a família, 23%, ou encarar novos desafios profissionais, 11%.
Mesmo sob restrições, a aposentadoria também carrega expectativas e projetos. Entre os principais desejos declarados, 40% dos aposentados dizem querer viajar, o mesmo percentual afirma que pretende quitar dívidas e 39% querem aproveitar melhor o tempo livre. A lista revela uma tentativa de reconciliação entre o orçamento possível e uma ideia de qualidade de vida adiada.
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O planejamento aparece como um fator de algum alívio, ainda que não seja uma blindagem completa. Segundo a pesquisa, 65% dos aposentados afirmam que fizeram algum tipo de planejamento financeiro para essa fase da vida. Ainda assim, muitos acabam recorrendo ao crédito.
“O planejamento financeiro antecipado é essencial para reduzir a dependência de crédito e trazer mais previsibilidade para essa fase da vida. Mesmo após a aposentadoria, é importante acompanhar os gastos, revisar prioridades e manter um controle financeiro compatível com a nova realidade de renda”, orienta Vieira.
No Brasil atual, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) de janeiro de 2025, cerca de 25 milhões de aposentados lidam todos os dias com a contradição entre o ideal fundador da Lei Eloy Chaves e a experiência concreta do beneficiário. A aposentadoria existe, mas, de acordo com a pesquisa, frequentemente não basta.