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Criptomoedas

Criptomoedas: famosos se tornam réus acusados de ‘pump and dump’

A influenciadora Kim Kardashian virou ré em um processo acusada de inflar o preço dos ativos

Por Luíza Lanza

18/01/2022 | 9:57 Atualização: 19/01/2022 | 10:46

Representação de criptomoedas (FOTO: Envato Elements - ArtRachen)
Representação de criptomoedas (FOTO: Envato Elements - ArtRachen)

Navegar nas redes sociais e ser interrompido por uma publicidade mal sinalizada virou uma coisa comum. Agora imagine se deparar com um anúncio de um ativo digital que supostamente estaria devolvendo 50% do valor da carteira para os investidores?

Leia mais:
  • Pump and Dump: a prática que influencers usam para lucrar
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  • Theranos: quem é Elizabeth Holmes, condenada por fraude nos EUA
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Foi o que aconteceu em junho de 2021, quando a celebridade digital Kim Kardashian publicou sobre a criptomoeda Ethereum Max em sua conta no Instagram – na época com 226 milhões de seguidores. “Vocês gostam de criptomoedas???? Este não é um conselho financeiro, mas compartilho o que meus amigos acabaram de me contar sobre o token Ethereum Max! Alguns minutos atrás, o Ethereum Max queimou 400 trilhões de tokens – literalmente 50% de sua carteira de administrador, devolvendo a toda a comunidade e-max”, dizia a postagem.

Por causa disso, na última quarta-feira (12), Kardashian virou réu em um processo de pump and dump, ao lado do boxeador americano Floyd Mayweather Jr e do jogador de basquete Paul Pierce. A prática vem do inglês “inflar e largar”, e consiste em uma forma de fraude e de manipulação do mercado.

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O pump and dump ocorre quando um investidor age para valorizar um ativo digital em benefício próprio por meio de boatos ou notícias falsas. Na prática, um player do mercado faz com que outros investidores comprem determinado ativo, fazendo-os acreditar em uma perspectiva futura de valorização. Os preços sobem, e, então, a pessoa obtém lucro vendendo os ativos artificialmente inflados.

Para Bruno Bandiera, analista de Criptos da Genial Investimentos, é improvável que Kardashian ou os outros envolvidos com a Ethereum Max sofram qualquer consequência, já que é difícil de provar se eles realmente se beneficiaram com a valorização da moeda.

“Como a gente tem casos em que aconteceu a mesma coisa e não resultou em nada, a chance é baixa. Tem base legal para dizer que ela tinha aquela criptomoeda e que ela se beneficiou com isso? Ou que ela foi paga para fazer aquela publicação e alguém se beneficiou com isso?”, explica.

No mercado de criptomoedas, a possibilidade de rastreabilidade do ativo vem da chave pública, que funciona como um endereço de uma conta corrente no banco. Mas, diferentemente da conta bancária, não existe o CPF de quem é o dono da conta, mas sim um conjunto de dígitos aleatórios – a chave pública. Assim, é muito difícil descobrir quem está por trás das movimentações financeiras.

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Embora o pump and dump não seja uma prática exclusiva do mercado de moedas digitais, é mais recorrente que aconteça no setor, aproveitando do fato de as criptomoedas não serem reguladas. “O problema para o investidor é que ele nunca vai saber se a pessoa por trás daquele incentivo está bem ou mal intencionada”, afirma o especialista da Genial sobre as postagens de personalidades famosas.

O CEO da Tesla e homem mais rico do mundo, Elon Musk, também já esteve envolvido em muitas acusações de pump and dump. Investidores o acusam de usar sua influência para interferir nos preços dos ativos.

Na visão de Bandiera, o empresário é o caso que chegou mais perto do que é possível classificar como esse tipo de movimento. “Ele tinha comprado US$ 1,5 bilhões em bitcoin através da Tesla, mas pelo que foi divulgado pela própria companhia eles não venderam uma quantidade relevante daquele ativo enquanto ele estava na alta, o que não caracterizava nenhum ganho”. Mas não foi possível saber se Musk se beneficiou ou não da valorização que causou.

Mercado precisa de regulamentação

A segurança e sigilo das transações de moedas digitais era um dos pontos fortes do mercado. Mas alguns países já trabalham com a possibilidade de promover uma regulação do setor em parceria com as exchanges – as empresas que fazem as transações de criptomoedas – para que haja mais transparência sobre quem está por trás das chaves públicas. E, se necessário, abrir um precedente para investigação de fraudes.

“É positivo que as criptomoedas sejam reguladas até determinado ponto, porque gera menos incerteza, é até um requisito pro mercado crescer. Muita gente não investe, principalmente investidor institucional, por não ter um agente para quem recorrer”, explica Bandiera, da Genial.

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Um órgão regulatório no mercado facilitaria que condutas ilícitas – como o pump and dump – fossem fiscalizadas com maior precisão. O objetivo seria dar mais transparência na ponta, para que os legisladores consigam entender qual é o fluxo de criptomoedas. Mas não é uma tarefa fácil.

“O pump and dump é uma atividade absurdamente ilícita e é bem claro perceber isso, mas fiscalizar não é tão simples. Começando um processo de identificação dos participantes, você começa um processo de legitimar quem é aderente às regras do mercado e isso tende a mitigar os casos de pump and dump”, destaca Fabricio Tota, diretor do Mercado Bitcoin e colunista do E-Investidor.

A legislação existente atualmente se refere a remessas internacionais, que precisam ser declaradas. No Brasil, há um projeto de lei (PL 2.303/15) para a criação de uma legislação específica para o mercado de criptos, que pode ampliar a segurança do investidor no setor e reduzir a incidência de fraudes. O texto foi aprovado na Câmara de Deputados em dezembro de 2021 e agora aguarda votação no Senado.

Para Tota, porém, a dificuldade de delimitar quais práticas podem ou não ser adotadas não atinge somente o mercado de criptomoedas. “Esse problema já existe hoje no mercado de ações, por exemplo. Existe uma série de influenciadores falando sobre o tema que dizem ‘isso aqui não é uma recomendação, mas na minha carteira eu fiz isso’. É claro que o recado está dado e quem quiser seguir, segue”, explica.

Quer investir?

Conhece aquele ditado “quando a esmola é muita, o santo desconfia”? Pois ele pode te ajudar a evitar investir em enrascadas divulgadas na internet, explica Valter Police, planejador fiduciário da Fiduc.

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“Ninguém obtém lucro do nada, existe uma lógica por trás do retorno dos investimentos. Quando existe a frase ‘muito dinheiro rápido’, é melhor tomar cuidado. Se alguém tem um jeito de ganhar dinheiro rápido, ele não vai contar porque se todo mundo souber a chance dele diminui. Então não caia nessa”, aconselha.

No caso de publicações como a Kim Kardashian, o planejador destaca a importância de saber reconhecer o teor publicitário da postagem, ainda que não esteja sinalizado. As dicas de alguém que não é profissional, feitas de forma não oficial, têm chances muito maiores de dar errado do que de garantir o retorno prometido. “É como uma loteria”, afirma o planejador da Fiduc.

A dica do especialista é, então, conhecer as características e os riscos de um ativo antes de realizar o investimento. E ir atrás de informação especializada com profissionais do setor de criptomoedas, que trabalhem com o assunto e que “tenham um nome a zelar”.

“Busque informação com quem é consolidado, não com quem é famoso. Se você quer uma boa orientação de como se alimentar melhor, não adianta perguntar para alguém com 15 milhões de seguidores. Você tem que perguntar para um nutricionista”, compara Police.

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Bandiera, da Genial, reforça: “A única forma do investidor se proteger hoje em dia é conferindo a informação e investigando por si próprio. De certa forma, acho que até os influenciadores deveriam ter maior parcimônia na hora de falar dos ativos, principalmente das criptomoedas que são mais voláteis”.

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