Retrospectiva Cripto 2025: o ano em que regulação, stablecoins, tokenização e a entrada do capital institucional redesenharam o mercado de ativos digitais no Brasil e no mundo. Confira os principais marcos do último ano para o setor. (Imagem: Adobe Stock)
O início de um novo ano traz inevitavelmente um espírito de renovação e, com ele, a inclinação automática de olhar para trás. Em um mercado que mudou de forma significativa ao longo do último ano, uma retrospectiva cripto 2025 é uma importante ferramenta para dimensionar transformações que foram além dos preços dos ativos digitais.
Em outubro, o bitcoin (BTC) renovou sua máxima histórica ao ultrapassar US$ 125 mil, nas semanas seguintes, porém, a principal criptomoeda do mundo devolveu ganhos e encerrou 2025 abaixo dos US$ 88 mil. No acumulado do ano, fechou em queda de 16,9%, figurando entre os ativos de pior desempenho nos principais mercados globais, enquanto o ethereum (ETH) terminou o período com recuo de 21,9%, pouco abaixo dos US$ 3 mil.
Nesse sentido, a Retrospectiva de criptoativos em 2025 ajuda a organizar os principais fatos de um ano que evidenciou mudanças relevantes na dinâmica dos ativos digitais no Brasil e no exterior.
As regulações que saíram do papel
Após anos de debate e sinalizações, 2025 foi marcado por avanços concretos no campo regulatório, segundo o Mercado Bitcoin. Nos Estados Unidos, a sanção do GENIUs Act, em 18 de julho, representou a primeira grande estrutura legal dedicada especificamente às stablecoins– moedas digitais atreladas a uma reserva de ativos “estáveis”, como o dólar ou o ouro.
A lei foi sancionada pelo presidente americano, Donald Trump, em linha com a promessa de reduzir a resistência regulatória ao mercado de criptomoedas e posicionar os EUA como liderança global em ativos digitais.
Stablecoins ganham força e aceleram regulação cripto no Brasil e no mundo; o que esperar para 2026?
O ato estabelece regras para a emissão de stablecoins. A legislação determina que esses ativos sejam integralmente lastreados por reservas líquidas, como dólares americanos ou títulos do Tesouro (Treasuries) de curto prazo. O texto também exige divulgações públicas mensais sobre a composição dessas reservas e define que, em casos de insolvência, os detentores das stablecoins tenham prioridade de pagamento sobre outros credores.
No Brasil, o avanço regulatório se materializou com as Resoluções BCB nº 519, 520 e 521, que detalham como deve funcionar a prestação de serviços com ativos virtuais no País. As normas estabelecem critérios objetivos sobre autorização, governança, segregação patrimonial e comprovação dos saldos mantidos pelas plataformas, além de definir formalmente o que é uma prestadora de serviços de ativos virtuais e quais atividades ela pode exercer.
As resoluções também determinam que a atuação junto a clientes no Brasil exige constituição local, com sede, administração e submissão às ordens e à supervisão do Banco Central (BC). Corretoras, distribuidoras e bancos autorizados podem oferecer esses serviços, desde que cumpram os mesmos requisitos de capital, controles e infraestrutura. O movimento ocorre em um país que ocupa a quinta posição no ranking global de adoção de criptoativos, segundo a Chainalysis.
Primeiros passos da Tokenização
Em 2024, a tokenização de ativos ainda estava restrita a projetos piloto, como emissões experimentais de crédito privado tokenizado, testes com cotas de fundos registradas em blockchain e iniciativas pontuais envolvendo recebíveis e ativos imobiliários. Esses projetos funcionavam, em grande parte, como provas de conceito, com alcance limitado e foco em validação tecnológica.
A tokenização é o processo que transforma um ativo real ou financeiro em uma representação digital, chamada de token, registrada em blockchain, que por sua vez funciona como um sistema de registros distribuídos, capaz de armazenar, validar e transferir informações de forma rastreável e segura, sem a necessidade de um intermediário central.
Em 2025, o setor avançou para um estágio limítrofe, no qual essas iniciativas deixaram o ambiente de testes e passaram a operar em escala mais ampla. Segundo o Brazil Tokenization Report 2025, 70% dos entrevistados identificaram uma evolução clara do mercado em relação ao ano anterior, movimento associado à maturação da infraestrutura e ao surgimento de aplicações com uso efetivo.
Dados do Raio X do Investidor de Ativos Digitais 2025, do Mercado Bitcoin, indicam um crescimento de 12% no número de investidores alocados em renda fixa digital. Ao longo do ano, essa categoria apresentou uma rentabilidade média de 132% dos Certificados de Depósitos Interbancários (CDI, principal parâmetro de desempenho de investimentos no Brasil) na plataforma.
Stablecoins se consolidaram como infraestrutura global de pagamentos
As stablecoins ganharam relevância como infraestrutura de pagamentos ao longo de 2025. Esses ativos digitais encerraram o ano com um valor de mercado de US$ 311 bilhões e movimentaram mais de US$ 28 trilhões em transações globais, superando, somadas, Visa e Mastercard, segundo dados compilados pelo Mercado Bitcoin.
No Brasil, o avanço foi ainda mais expressivo. O volume negociado de stablecoins triplicou ao longo do ano, impulsionado pela combinação de menor custo de transação, liquidação quase imediata e operação contínua, sem interrupções por fusos horários ou dias úteis.
“Funciona como um grande Pix global rodando sobre blockchain, 24 horas por dia, sete dias por semana”, resume Rony Szuster, chefe de pesquisa do MB. “No sistema tradicional, esse mesmo processo poderia levar dias.”
Empresas com bitcoin em Tesouraria chegaram ao País
Outra movimentação relevante de 2025 foi a chegada ao Brasil das chamadas bitcoin treasury companies. O modelo consiste em empresas que adotam o bitcoin como principal ativo de reserva de valor em seus balanços, utilizando a criptomoeda como estratégia de Tesouraria de longo prazo.
Nos Estados Unidos, essa abordagem já é conhecida, com a Strategyliderando o ranking global de companhias com bitcoin em caixa. No Brasil, o marco foi a criação da OranjeBTC, primeira empresa listada no País a adotar oficialmente o bitcoin como ativo de tesouraria, mas quem ganhou destaque foi a Méliuz (CASH3) – veja aqui.
No Brasil, o Mercado Bitcoin estruturou uma oferta por meio da tokenização de debêntures, mecanismo que permitiu antecipar o acesso de investidores à abertura de capital da companhia. A iniciativa se insere em um movimento ainda inicial no País, que busca conectar instrumentos tradicionais de financiamento a estruturas da economia digital.
O investidor institucional ampliou a presença
O último ano também foi marcado por uma presença mais ampla do investidor institucional no mercado de criptoativos. Um dos sinais mais emblemáticos foi a recomendação do Morgan Stanley, pela primeira vez, para a inclusão de ativos digitais nos portfólios de seus clientes.
Os fundos de índice (ETFs, negociados em bolsa, como se fosse uma açaõ) de criptoativos funcionaram como a principal via de acesso. Ao final do ano, os Estados Unidos haviam aprovado, em escala mais ampla, fundos atrelados não apenas ao bitcoin e ao ethereum, mas também a outros criptoativos, ampliando o leque de produtos regulados disponíveis para grandes investidores.
O que fica para 2026
Para o Mercado Bitcoin, 2025 funcionou como um período de validação das transformações em curso no mercado de criptomoedas. De acordo com Szuster, a próxima etapa envolve a integração entre investimentos, serviços bancários e meios de pagamento em um ecossistema mais unificado.
Se 2025 foi o ano em que essas mudanças se materializaram em normas, produtos e estruturas de mercado, 2026 deve ser o período em que as decisões e os acontecimentos ocorridos em 2025 possam ser efetivamente testemunhados no funcionamento cotidiano do setor.