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Direto da Faria Lima

Quase R$ 70 bi migram para fundos de empresas fechadas em um ano — o que está por trás da corrida aos FIPs

Investidores buscam ganhos acima da renda fixa e vantagens fiscais em companhias fora da Bolsa

Por Jenne Andrade

27/02/2026 | 9:47 Atualização: 27/02/2026 | 12:48

Entenda como funcionam os FIPs, veículos que atraíram bilhões nos últimos meses (Foto: Adobe Stock)
Entenda como funcionam os FIPs, veículos que atraíram bilhões nos últimos meses (Foto: Adobe Stock)

Já há mais dinheiro em fundos que investem em empresas fechadas do que nos tradicionais fundos de ações (FIAs), que aplicam em companhias listadas em Bolsa. Nos últimos 12 meses, os “Fundos de Investimento em Participações” (FIPs) captaram R$ 68 bilhões e alcançaram um patrimônio líquido de R$ 1,1 bilhão, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

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Os FIAs, por sua vez, perderam R$ 42,6 bilhões no mesmo período. Agora, possuem um patrimônio de R$ 700 milhões. Angelo Belitardo, gestor da Hike Capital, aponta que a busca por retornos acima da renda fixa, de pelo menos 15% ao ano, alimentou a corrida para ativos reais – ou seja, fora do ambiente de Bolsa.

Setores de infraestrutura, tecnologia e transição energética, segundo Belitardo, têm sido o principal destino desse capital aportado em FIPs. “A tendência estrutural ainda é positiva para captação, porque há necessidade crescente de capital privado para financiar o crescimento de empresas fora da bolsa”, diz o gestor da Hike.

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A seca de IPOs (novas aberturas de capital) também restringiu as possibilidades na Bolsa, o que fez grandes fortunas estruturarem FIPs para buscarem negócios atrativos, mas que encontraram fechada essa janela de oportunidade para listagem.

“Nós vemos boas inovações no mercado em empresas que não estão sendo listadas. As grandes fortunas estão buscando essas empresas”, aponta Gabriel Santos, especialista de investimentos de Research e Estratégia da Bloxs.

Mudanças nas regras de tributação de fundos exclusivos fazem capital se mover

Contudo, não foi somente a busca por maiores rentabilidades em empresas fora da Bolsa que gerou esse resultado. Mudanças nas regras de tributação de fundos exclusivos – com o estabelecimento de uma antecipação semestral do imposto, conhecida como “come-cotas” – também obrigaram o capital da alta renda a se mover.

Os FIPs, neste sentido, se tornaram uma alternativa para driblar a taxação semestral, já que o pagamento do imposto ocorre sobre o ganho de capital, quando há resgate das cotas ou amortização, por exemplo. Apesar de também poderem investir em empresas listadas, os FIPs geralmente compram fatias de empresas de menor porte, fora da Bolsa, com o objetivo de atuar na gestão dessas companhias.

É um produto ilíquido, com resgate normalmente apenas no final do período de investimento e voltado para investidores “qualificados”, aqueles com pelo menos R$ 1 milhão em investimentos.

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“O FIP opera majoritariamente no mercado privado, onde não há cotação diária, as informações não são públicas e o valor do investimento só se confirma num evento de liquidez: uma venda, um IPO, uma fusão. Esse universo é mais arriscado e menos transparente, mas é também onde costumam estar as maiores oportunidades de criação de valor”, aponta Rhuan Palma, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela Faculdade Brasileira de Negócios e Finanças (FBNF).

Beny Fard, especialista em investimentos, finanças e CEO da DeFin, também vê esses veículos sendo adotados para facilitar planejamento sucessório. “É um produto que tem um objetivo muito específico de prover governança”, afirma. “Os FIPs podem ter debaixo deles uma série de ativos diferentes, são um instrumento de gestão indireta de negócios.”

“Cotista de FIP não pode agir por impulso”

A mudança tributária e a busca por rentabilidades altas pavimentaram o caminho para os FIPs, mas foi um amadurecimento na mentalidade dos investidores que chancelou a migração do capital para este produto, segundo Palma.

“O FIP deixou de ser o veículo opaco da riqueza familiar para se tornar uma alternativa genuína de alocação, especialmente para quem esgotou as possibilidades da renda fixa e já não aguenta a volatilidade diária da bolsa”, diz Palma. “Gestoras com histórico mais consistente, governança mais estruturada e capacidade de atrair capital institucional mudaram a percepção do produto.”

Palma também vê um outro fator comportamental que, na visão dele, é difícil para o mercado financeiro tradicional “admitir”. “Fundos abertos convivem com resgates diários e com a irracionalidade emocional do investidor. Em crise, a saída acontece no pior momento do ciclo, quando o ativo está mais barato e o resgate mais prejudica”, afirma o especialista.

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Já os FIPs, por serem fechados, eliminam essa opção. “O cotista não pode sair no impulso. Há quem veja isso como risco. Na prática, para determinados perfis, funciona como proteção, inclusive contra decisões ruins do próprio investidor”, diz Palma.

Sem cotação diária para medir o valor de mercado do investimento, o perfil dos cotistas de FIP também deve incluir tolerância maior a risco. “Normalmente os prazos são mais longos, de cinco, dez anos. Há risco de valuation (a forma como é feita a avaliação dos ativos), de execução, pois estamos tratando de ativos ilíquidos e negócios complexos, risco de governança, jurídico e etc.”, aponta Fard, especialista em investimentos, finanças e CEO da DeFin.

De acordo com informações da Anbima, o número de contas abertas em FIPs subiu 56 mil somente em 2025, para 285 mil. O número total de FIPs até o final do ano passado chegava a 2 mil.

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