No Brasil não é diferente: até a segunda-feira (26), dado mais recente disponibilizado pela B3, os investidores estrangeiros haviam ingressado com R$ 20,2 bilhões no País em janeiro. Não por acaso, o Ibovespa salta mais de 14% no mês, a inéditos 184 mil pontos.
Esse bom início de ano do mercado brasileiro – o melhor em quase quinze anos – foi a pauta central da Latin American Investment Conference (LAIC), evento anual promovido pelo UBS e o UBS BB em São Paulo, realizado nestas terça (27) e quarta-feira (28). As dúvidas estão na continuidade do movimento – sobretudo se o fluxo internacional vai ser capaz de empurrar os ativos locais ignorando as incertezas que tradicionalmente rondam um ano de eleições presidenciais.
O consenso é de que, sim, o externo deve continuar a se sobrepor ao cenário doméstico. O famoso don’t fight the flow, expressão que apareceu em mais de uma ocasião ao longo das conferências.
As estratégias para montar uma carteira de investimentos nesse cenário, no entanto, já mostram maior divergência entre os gestores. Reunimos o que os maiores nomes do mercado brasileiro disseram na LAIC sobre a queda do dólar, os recordes do Ibovespa e as expectativas para as eleições. Veja:
Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset
“Temos hoje no fundo uma carteira diversificada de ativos ‘pró Brasil’; Bolsa, B35 e algumas estruturas de câmbio. O câmbio hoje é o que ainda está extremamente fora do lugar e é uma ciência mais fácil de analisar que a Bolsa, porque no curto prazo ações são muito dependentes de fluxo. O câmbio está 26% fora do lugar. Se comparar com os modelos, o fair value é algo como R$ 4,40.
A Bolsa autoperformou, primeiro com o fechamento de prêmio em relação às NTN-Bs, principalmente empresas que tinham fechado 2024 muito estressadas. Depois veio a expansão de múltiplos em ações de commodities e financials com a saída de ativos dolarizados. O Ibovespa estava com um P/L de 7x e agora está a 10x. O recado que o estrangeiro está nos dando é que ele não acha que o Lula 4 será muito pior do que está aí, o movimento do gringo ignora solenemente a questão eleitoral. E o fluxo é muito grande.
Mas ainda tem algumas coisas muito baratas nesse bull market. Em algum momento do ano vou pensar se fico com as posições pró Brasil, mas, devido à natureza binária da eleição, é bom guardar os spreads de EWZ, de dólar real até o fim do processo para tomar suas decisões. Se você for sem nenhuma, não é óbvio que conseguirá fazê-las faltando poucos dias para as eleições, porque o mercado vai ficar ilíquido.”
Bruno Coutinho, CEO da Mar Asset
“O atual nível de dívida/PIB serve como plano de fundo para uma discussão de dominância fiscal. Basicamente, o BC precisaria subir juros para controlar a inflação, mas não poderia fazer isso se não quebra o País. É o risco que paira. Só que ele só aparece nos mercados quando temos um processo inflacionário e hoje temos o oposto. O mundo está muito positivo, o real está se apreciando, o ambiente global ajuda muito emergentes. Mas as eleições trazem esse fantasma da dominância fiscal de volta, a depender de quem vencer.
A discussão de fluxo é sempre sedutora, mas complexa, porque nunca sabemos quando ele vai aparecer e quando vai embora. Na gestão, acabo me atendo ao que consigo enxergar. Nossas contas de cenário para as eleições levam em conta vitória ou não do Lula. Hoje a Bolsa precifica 55% de ‘não Lula’, o câmbio está 50/50 e as Bs longas 60% de vitória do Lula. É o ativo mais fora de lugar. Ficou muito para trás porque o investidor estrangeiro que entrou é um investidor de Bolsa, que compra EWX e carrega o câmbio junto.”
Rodrigo Azevedo, sócio-fundador da Ibiuna Investimentos
“O cenário global está mandando nos mercados, com foco no que Trump está fazendo. Mas é importante dar um passo atrás. A economia americana e os ativos dos EUA pós pandemia tiveram uma performance muito forte e isso atraiu muito capital, o dólar se valorizou. O investidor médio global entrou na administração Trump com uma sobrealocação nos EUA. Só que, quando ele quebra os padrões de regras – e um dos fatores mais importantes dos EUA era a previsibilidade –, quem está sobrealocado começa a se questionar e sair um pouco. É natural. As pessoas estão reduzindo o tamanho da alocação nos EUA, o que não significa que os ativos americanos não vão ser bons. Só que isso está gerando um movimento gigantesco; ouro, cobre, mercados emergentes. Uma das coisas que mais se movem é a moeda.
Pensando como gestor, estamos posicionados para tirar proveito desse cenário. O que pode mudar está no Fed. Hoje a sensação é de que o juro está chegando próximo do neutro. Mas se volta a ter a perspectiva de que inflação dos EUA vai subir e o mercado passa a precificar que ao invés de cortar o Fed tenha que subir juros. Mas estamos muito longe disso.”
Bruno Serra, gestor de portfólio da Itaú Asset
“Os EUA saíram da pandemia com muito estímulo fiscal, enquanto o resto do mundo, especialmente as economias desenvolvidas, cresciam de forma anêmica. É natural que esse diferencial gerasse um dólar forte; a discussão de tecnologia foi a cereja do bolo. Vem o choque do Trump, redução do crescimento nominal e a foto relativa dos EUA contra o G10 fica ‘menos forte’. Isso explica muito do porquê o dólar se enfraqueceu.
Para emergentes a história é linda. O Fed, olhando para o mercado de trabalho frouxo, está cortando juros apesar da inflação estar em 3%. As tarifas dos EUA geraram uma inundação de bens e produtos para o resto do mundo, o que é um vetor benigno para a inflação. Parecia difícil de se pensar, mas é um cenário muito benigno para realocação global de ativos. O grande risco parece vir dos EUA, do Trump e do Executivo americano tomarem decisões pensando nas mid term elections que mudem o jogo. Se super aquecer a economia, o PIB nominal vai lá para cima e isso gera uma discussão de reversão do ciclo de realocação americana.”
Christian Keleti, CEO da Alpha Key Capital Management
“O macro está fazendo muita diferença. Só olhar o que aconteceu nos últimos 10 dias, nunca vi em tão pouco tempo uma força tão grande de gringos contra o fluxo de local. O Trump criou animosidade no mundo, investidores começaram a procurar outros mercados. Os 10 maiores pesos do índice, Petrobras, Vale, Banco do Brasil etc sobem de 15% a 20% agnosticamente, porque tem um cara enorme comprando emergentes via EWZ e pega esses papéis. Algumas coisas estão até começando a ficar erradas, mas don’t fight the flow. Meu medo é que vamos ficar sem papel.
A grande pergunta dos gringos é quando os juros vão cair no Brasil. Trump não vai mudar o tom em relação à Groelândia, Venezuela. Podemos ter uma cara mais dovish no Fed. O fluxo de emergentes está só começando. Falta só a parte política; se juntar mais essa, é um mais assustador do que os R$ 4,40 da previsão de dólar Stuhlberger. Mas não dá para fazer hedge agora com oito meses de antecedência para as eleições e a tendência global favorável; não vai funcionar.”
Christian Faricelli, gestor de portfólio da Absolute Investimentos
“2025 parece muito distante, mas o mercado começou com um pessimismo exacerbado. Na Absolute, tínhamos a visão de que seria um ano pró emergentes, que não era o consenso lá atrás mas acabou se transformando. Foi um ano muito bom para a tomada de risco e ainda é, valuations ainda estão bons, macro externo muito favorável, corte de juros no Brasil. E uma discussão eleitoral.
Tudo indica que o fluxo vai continuar com um mundo pró risco, pró emergentes empurrando a Bolsa e real. Damos um peso muito grande para as eleições, mas acaba sendo um erro passar tanto tempo discutindo esse tema. Para o estrangeiro, se já estão há 15 anos, mais 4 não importam tanto.”
Felipe Guerra, fundador e CIO da Legacy Capital
“A administração americana está quebrando paradigmas e trazendo crise de confiança para quem investe nos EUA. Dado que há mais incerteza, faz sentido estar um pouco mais espalhado. E o que está acontecendo no Brasil é uma derivada do internacional.
Estamos tentando ter uma cabeça mais cínica, de gringo, porque pela ótica do local as coisas vão de mal a pior. Mas a visão de estrangeiro é de diversificação de capital e a regra número 1 para operar é não ficar na frente do fluxo. O pouco de dinheiro que sai do mercado americano tem grande impacto de liquidez aqui; e o Brasil, nesse contexto, tem bom carry porque tem commodities, juro alto.
A Bolsa tem certo quê de bolha, mas fluxo não está lastreado em fundamento. Preferimos ficar fora, com carrego de dólar real e aplicado em juros tanto nominais quanto reais. A NTN-B está no preço do Lula, a Bolsa, no preço do Tarcísio. Mas o mercado não está pegando eleição e nem deveria.”
Andre Raduan, co-fundador e gestor de portfólio da Genoa Capital
“A história nos EUA mudou mais na forma, porque Trump ainda está fazendo aquilo que prometeu. Ele gostaria de um dólar mais desvalorizado, mas não é tarefa fácil manter a moeda como reserva global e fazer ela se desvalorizar. Por isso fica mexendo os pratinhos. Isso leva investidores a diversificar, mas não conseguem fazer isso pela bolsa americana, porque no final é lá que estão as melhores empresas. A melhor forma é fazer isso pelo dólar.
Quase 70% da nossa posição no mercado brasileiro está em moeda. Bolsa parece cara. O fluxo só não é totalmente maluco porque as bolsas do mundo todo estão infladas, o Brasil não mudou tanto em relação aos pares. É uma crise global e que pode acontecer por mais tempo, porque qualquer dinheiro de pinga que sai dos EUA é uma fortuna para nós. Temos viés comprado em Bolsa, mas onde carregamos posição mesmo é o câmbio. Nós brasileiros achamos que um Lula 4 seria um desastre, mas o estrangeiro não acha. A dinâmica da dívida é muito ruim, uma hora não vai parar em pé. Em um Lula 4, o dólar vai sofrer, mas o juro ainda está elevado e o carrego é positivo, manteria certa assimetria. Bolsa já não vejo tão assimétrica.”