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Educação Financeira

Jovens da geração Z preferem consórcio ao financiamento tradicional: conheça a estratégia para comprar carro e casa e fugir dos juros

Em meio a juros altos e limitações de crédito, jovens encontram no consórcio uma forma de conquistar bens e segurança financeira

Por Camilly Rosaboni

23/08/2025 | 3:00 Atualização: 22/08/2025 | 15:23

Jovens de 18 a 29 anos estão entre os que mais buscam consórcios para adquirir bens. (Foto: Adobe Stock)
Jovens de 18 a 29 anos estão entre os que mais buscam consórcios para adquirir bens. (Foto: Adobe Stock)

Aos 21 anos, José Borba recebeu uma proposta que poderia mudar sua carreira: assumir a gerência da empresa onde trabalhava, desde que tivesse um carro para visitar clientes. Financiar um veículo parecia inviável, até que encontrou no consórcio a solução que precisava. “Como eu não tinha condições de comprar nem à vista nem pelo financiamento, optei pelo consórcio”, conta. A experiência dele reflete a escolha de muitos da geração Z que enxergam neste modelo uma forma de driblar os juros elevados e conquistar bens e serviços.

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Esse movimento se traduz nos números: de 2023 para 2024, a participação de jovens de 18 a 29 anos em consórcios cresceu 8,9%, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC). Para especialistas, a tendência mostra um comportamento financeiro mais cauteloso da geração Z, que prefere evitar dívidas caras e adotar o planejamento como caminho para alcançar objetivos a médio e longo prazo.

“O aumento no número de jovens em consórcios vem muito de uma mudança de comportamento: eles hoje são mais avessos a dívidas com juros altos, mais conscientes sobre finanças e estão em busca de alternativas para adquirir bens sem comprometer tanto o orçamento. Além disso, muitos deles não têm pressa para adquirir um carro ou imóvel imediatamente, o que torna o consórcio mais atrativo como planejamento de médio e longo prazo”, avalia Andressa Bergamo, especialista em investimentos e sócia-fundadora da AVG Capital.

Para quem não pode pagar à vista e deseja evitar os altos custos de um financiamento, em um cenário em que a Selic está em 15% ao ano, o consórcio surge como alternativa viável, desde que o consumidor entenda previamente o seu funcionamento. No vídeo a seguir, o resumo de como funciona um consórcio.

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Uma das características principais do consórcio se deve ao tempo de espera para acessar o crédito: a contemplação pode ocorrer em poucos meses, mas também pode levar anos. Por isso, é essencial ter paciência e não agir com pressa.

No caso de Borba, a espera foi curta. Ele foi contemplado já no terceiro mês após oferecer um lance — mecanismo que permite antecipar parte das parcelas e acelerar a liberação do crédito.

Hoje, aos 33 anos, recorda que a compra do carro representou um divisor de águas em sua trajetória. Vindo de uma família humilde, tornou-se o gerente mais jovem promovido em sua antiga empresa e, mais tarde, abriu sua própria corretora de consórcios. Confira seu relato:

https://einvestidor.estadao.com.br/wp-content/uploads/2025/08/jose-borba-audio_220820254126.mp3

O que saber antes de investir em um consórcio?

O consórcio é uma forma de compra planejada em grupo, sem juros, mas com taxas de administração que variam de 10% a 20% do valor total da carta de crédito (o valor contratado), diluída ao longo do prazo.

Antes de aderir a um consórcio, o consumidor deve ter clareza sobre seu objetivo: comprar um carro, um imóvel, uma moto ou até contratar um serviço. Os participantes contribuem mensalmente para um fundo comum, utilizado para contemplar os integrantes por meio de sorteios ou lances.

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O consorciado também escolhe o valor da carta de crédito e em quantas parcelas deseja pagar. Quanto maior o prazo, menor a parcela mensal, mas o tempo de espera para a contemplação pode aumentar também.

A seguir, confira uma lista com pontos essenciais que você deve discutir com o corretor antes de assinar o contrato.

Consórcio x financiamento: qual vale mais a pena para jovens da Geração Z?

O consórcio funciona como uma compra programada que se diferencia do financiamento, no qual o cliente recebe o bem imediatamente, mas arca com parcelas que incluem juros.

Com a Selic em 15% ao ano, elevando os juros dos financiamentos, somada à redução do poder de compra dos brasileiros, o consórcio surge como uma alternativa viável para quem deseja planejar a compra.

Segundo Bergamo, as gerações anteriores conseguiam, com menos idade, comprar casa, carro e construir patrimônio com mais facilidade, especialmente em épocas de crédito mais acessível e salários com maior poder de compra.

“Hoje, com a renda mais comprimida e os bens proporcionalmente mais caros, o consórcio aparece como uma alternativa realista e acessível para que os jovens da Geração Z consigam se planejar. Ele oferece a sensação de conquista e progressão financeira sem depender de financiamentos com juros altos, o que acaba sendo uma resposta à frustração de não ter os mesmos acessos que os pais tiveram“, avalia Bergamo.

Por outro lado, como explica Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP e especialista em investimentos, o valor final do consórcio depende do tempo de contemplação e do índice de correção, tornando inviável prever o custo total desde o início. Já no financiamento, o comprador sabe exatamente quanto vai pagar, mesmo que os juros sejam altos.

“Além disso, o consórcio não oferece desconto para quitação antecipada, algo que costuma ser possível no financiamento, o que limita o poder de negociação do consumidor”, acrescenta Patzlaff.

  • Leia mais: Poder de compra da geração Z realmente diminuiu?

Já Borba acredita que, mesmo com a variação dos juros, o consórcio pode ser um aliado no planejamento financeiro futuro e uma ferramenta de educação para os jovens da Geração Z, ao criar uma “obrigação mensal”. Confira:

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Como funciona o tempo de contemplação

O tempo de contemplação no consórcio pode variar de meses a anos, a depender do contarto, até que o participante seja sorteado ou dê um lance vencedor. (Foto: Adobe Stock)

No consórcio, o tempo de contemplação é o período que o participante precisa aguardar até ser sorteado ou dar um lance vencedor para receber a carta de crédito.

A contemplação pode demorar meses ou até anos, a depender do contrato. Em alguns casos, o consorciado só recebe o crédito no final do plano, quando todos os participantes já foram atendidos.

A analista de treinamento e desenvolvimento, Gabriela Rodrigues, de 28 anos, completou um ano de consórcio no início deste mês e conta o que faz para driblar a ansiedade até ser contemplada.

https://einvestidor.estadao.com.br/wp-content/uploads/2025/08/gabriela-rodrigues-audio_220820254523.mp3

Consórcios ajudam geração Z a criar disciplina financeira

Para os especialistas ouvidos pela reportagem, consórcio não deve ser tratado como investimento no sentido tradicional, já que não oferece rentabilidade sobre o capital aplicado. “No entanto, pode ser uma ferramenta de planejamento financeiro eficiente, principalmente para quem tem dificuldade de poupar sozinho ou quer evitar o endividamento com juros altos“, diz Bergamo.

Na visão de Patzlaff, outro ponto relevante vem da disciplina financeira que o consórcio impõe. “Muitos jovens passaram a enxergá-lo como uma forma de ‘investir’ porque exige pagamentos mensais regulares e cria um compromisso de longo prazo com um objetivo definido”, explica.

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O publicitário André Amaral, de 29 anos, é um exemplo dessa mudança de mentalidade. Antes de aderir ao consórcio, organizou suas finanças: analisou receitas e despesas, destinou parte do orçamento à reserva de emergência e só então definiu quanto poderia comprometer com o consórcio. Para ele, a modalidade passou a representar também uma forma de investimento em disciplina e futuro. Confira seu relato:

“É comum que jovens tenham uma maior dificuldade para guardar dinheiro por conta própria. Sendo assim, o consórcio pode servir também como uma ferramenta de ‘poupança forçada’ trazendo um planejamento ideal de médio a longo prazo para aqueles que não tem urgência em adquirir o bem”, avalia Lucas Buffon, especialista em finanças e sócio da GT Capital.

O que acontece se cancelar o consórcio?

A principal dúvida da analista Rodrigues ao entrar em um consórcio era se perderia o dinheiro ou seria prejudicada caso desistisse da cota. “O mais importante para mim era ter a garantia de que receberia meu dinheiro e saber que poderia vender o consórcio se não quisesse mais esperar a contemplação”.

Pela legislação brasileira, o cliente tem o direito de reaver os valores que já destinou ao consórcio, descontadas as taxas de administração e a multa de cancelamento, que varia de acordo com a administradora. O prazo para receber a quantia de volta pode mudar conforme cada contrato. Também é possível vender a cota para outra pessoa antes da contemplação. Além disso, é possível comercializar a carta contemplada para outra pessoa.

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Em resumo, o consórcio ajuda a criar disciplina financeira mensal, sendo uma ferramenta eficiente para formar hábitos de gestão de dinheiro. Além disso, a modalidade permite que o jovem da Geração Z construa patrimônio gradualmente, sem comprometer grande parte da renda ou arcar com juros elevados dos financiamentos.

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