Independência financeira: como as mulheres podem se organizar para garantir a aposentadoria
Desigualdade salarial e responsabilidades domésticas ainda impactam o planejamento financeiro feminino, mas estratégias de investimento podem ajudar a construir segurança no futuro
Mulheres ainda enfrentam desafios maiores para alcançar independência financeira e planejar a aposentadoria. (Foto: Adobe Stock)
A busca pela independência financeira nem sempre é uma trajetória simples. Os obstáculos podem se tornar ainda mais desafiadores como o passar dos anos. Para as mulheres, a missão costuma ser ainda mais árdua e complexa. Apesar dos avanços nos direitos de igualdade de gênero nas últimas décadas, elas ainda enfrentam desvantagens em relação aos homens quando o assunto é dinheiro.
Além da vida profissional, muitas mulheres são responsáveis pelas tarefas domésticas e pelos cuidados com família, o que dificulta o avanço na carreira e a construção de autonomia financeira. Pesquisa feita pela Serasa em parceria com a Opinion Box conseguiu retratar bem essa realidade: quase 90% das brasileiras reconhecem a sobrecarga como desafio constante para seu avanço financeiro.
Isso acontece porque, segundo as entrevistadas, o tempo e a energia na administração do lar e no cuidado da família limitam os esforços e as oportunidades dedicados ao desenvolvimento profissional.
Outro fator que amplia esse desafio é a desigualdade salarial. Segundo o 4º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em parceria com o Ministério das Mulheres, elas recebem, em média, 21,2% menos do que os homens.
A remuneração média do público feminino é de R$ 3.908,76, enquanto masculino chega a R$ 4.958,43. Amanda Natacha, especialista em investimentos e sócia da Faculdade Brasileira de Negócios e Finanças (FBNF), explica que essa diferença impacta diretamente o planejamento financeiro de longo prazo.
“Quando a renda é menor ao longo da carreira, sem dúvida, a capacidade de poupança, investimento e contribuição previdenciária também tende a ser menor”, destaca.
Como se organizar para se aposentar no futuro?
Ainda assim, especialistas em educação financeira afirmam que há caminhos para alcançar a tão sonhada independência financeira. O primeiro passo para iniciar esta jornada acontece na separação dos gastos mensais considerados fixos e variáveis. Sem saber para onde vai o seu dinheiro, o hábito de destinar um valor mensal para os investimentos pode se tornar inviável. Isso acontece porque as chances de surgir uma despesa inesperada são maiores quando não há um planejamento financeiro.
Por isso, os especialistas em educação financeira orientam que a organização seja feita da seguinte forma:
50% da renda devem ser direcionados para os gastos obrigatórios (água, luz e moradia);
30% para as despesas variáveis (lazer e bem-estar);
20% para os investimentos.
Vale destacar que essa é apenas uma recomendação genérica. Caso a sua realidade financeira não permita aportes na faixa de 20% da sua renda, qualquer quantia é válida. Agora, se o investidor não possui uma reserva de emergência para imprevistos do dia a dia, a orientação é que priorize a construção deste “colchão de liquidez”.
“A reserva é o que te permite dizer não para um emprego tóxico ou sair de um relacionamento abusivo. Pague a si mesma primeiro: ao receber o salário, antes de tudo separe o valor do investimento, da sua eu do futuro. Mesmo que sejam R$ 50 ou R$ 100 por mês, o hábito de poupar é mais importante que o valor no começo”, diz Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP e especialista em investimentos.
Esses recursos devem ser aplicados em ativos considerados seguros e com alta liquidez, ou seja, que viabilizem o resgate do investimento a qualquer momento em caso de necessidade. “Títulos públicos como o Tesouro Selic (LFT), fundos DI conservadores ou fundos com baixa volatilidade e liquidez diária são exemplos de alternativas que permitem acesso rápido ao dinheiro, sem exposição a grandes oscilações”, diz Caio Tonet, diretor institucional da W1 Inc.
O tempo também é outro fator essencial na construção do patrimônio. Segundo Mariana Banja, planejadora financeira independente, quanto mais cedo a mulher adota hábitos financeiros voltados à poupança e aos investimentos, maiores serão as chances de lidar melhor com eventuais imprevistos que podem interromper a regularidade dos aportes. “O valor do dinheiro é atualizado no tempo e vivemos em ciclos de inflação. E quando começo mais cedo, sou beneficiado com o efeito dos juros compostos por mais tempo”, destaca.
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Além disso, em um planejamento de longo prazo, é importante revisar periodicamente o custo de vida projeto para o futuro. Isso porque a inflação das pessoas mais velhas costuma ser maior do que a média da economia, principalmente devido aos gastos com saúde. “Quanto vou precisar para estar aposentado dos 60 a 70 anos ou dos 70 ou 80? Estamos nos planejando para um futuro longevo? Por se tratar de um futuro muito longo, é difícil quantificar ou visualizar os cenários”, acrescenta.