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Bolsa tem 10 índices de ações ESG, mas sustentabilidade é questionável

Os índices incluem empresas que atendem a critérios de descarbonização, diversidade e condições de trabalho

Bolsa tem 10 índices de ações ESG, mas sustentabilidade é questionável
(Foto: Pixabay)
  • A Bolsa brasileira (B3) possui 10 índices de empresas que atendem a critérios de sustentabilidade ambiental, social ou de governança (ESG).
  • Os índices incluem critérios como descarbonização, diversidade, condições de trabalho, entre outros
  • Os investidores devem avaliar a metodologia utilizada antes de comprar ações, para se certificar de que o propósito está sendo atingido

A rentabilidade da ação e a solidez da empresa costumavam ser os principais critérios para uma decisão de investimento. Mas, cada vez mais, os compromissos ambientais, sociais e a governança (ESG, na sigla em inglês) das companhias têm se tornado fatores importantes para os investidores na hora de comprar uma fatia de um negócio.

A Bolsa brasileira possui 10 índices ESG com base em critérios como diversidade, descarbonização, condições de trabalho, entre outros. Mas será que todas as companhias listadas nesses grupos são realmente sustentáveis?

O crescimento desses índices é reflexo da necessidade sentida pelas companhias por mostrar que fazem parte da mudança e que atendem aos parâmetros de ESG. Principal índice desse tipo da Bolsa brasileira, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, por exemplo, registrou no ano passado o maior número de empresas já cadastradas para participação no processo desde a sua criação, em 2005. Ao todo, foram 183 companhias inscritas, um crescimento de 38% em relação a 2021. Desse total, 83 foram consideradas elegíveis.

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Em janeiro, a B3 anunciou as empresas que passaram a compor a 18ª carteira do ISE. Pela primeira vez, o índice atingiu a marca de 69 companhias (eram 46 em 2022), representando 27 setores diferentes da economia. Juntas, as empresas somam R$ 1,741 trilhões em valor de mercado, equivalente a 41,08% do total das companhias com ações negociadas na B3, com base no fechamento de 23 de janeiro de 2023.

Apesar de os índices serem uma boa base para que o investidor decida quais ações irá comprar, é importante ficar atento à metodologia utilizada, para se certificar de que o propósito ou impacto do investimento está, de fato, sendo atendido.

O Índice Carbono Eficiente (ICO2), por exemplo, inclui companhias de petróleo e mineração, que, devido à própria natureza da sua atividade produtiva, contribuem fortemente para a emissão de carbono. Isso ocorre porque a metodologia considera o grau de exposição da receita da empresa frente ao seu volume de emissões de carbono, e não necessariamente um compromisso de carbono zero.

“O Índice Carbono Eficiente não se propõe a ser um índice de empresas que emitem baixo carbono, é simplesmente uma reponderação do índice IBX da Bolsa, e tira um pouco de peso das empresas que são grandes emissoras e aumenta o peso daquelas que são baixas emissoras. Mas o que acontece é que o investidor leigo pode achar que está investindo em empresas responsáveis e que emitem pouco carbono”, explica Fabio Alperowitch, sócio da FAMA Investimentos, gestora brasileira com foco em ESG.

Outro exemplo é o ISE, que seleciona as empresas com melhores práticas na B3. Segundo Alperowitch, esse tipo de metodologia faz pouco sentido em mercados como o do Brasil, em que há poucas empresas com ações negociadas em Bolsa.

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“A gente tem uma Bolsa com poucas empresas, cerca de 400, e de repente vai ter duas ou três empresas de um setor. E aí qual a vantagem de ser a melhor entre duas ou três? Você pode ser muito ruim e mesmo assim ser o melhor do seu setor. Só faria sentido em um mercado com muita profundidade de empresas, como Estados Unidos, que tem 5 mil empresas, e vai ter 200, 300, em um segmento”, avalia Alperowitch.

Por isso, se o objetivo do investidor é comprar ações de empresas que tenham um impacto positivo na sociedade, é importante checar quais companhias fazem parte desses índices e quais medidas têm sido realmente implementadas no âmbito do ESG.

Veja os índices ESG disponíveis na Bolsa brasileira:

– Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE B3)

É o principal índice ESG do mercado brasileiro. Criado em 2005, foi o quarto índice de sustentabilidade no mundo. Seu objetivo é reunir as empresas de capital aberto com as melhores práticas de sustentabilidade, que participam voluntariamente de um processo de seleção que avalia seu desempenho em diversos aspectos. É um índice best in class (que seleciona as empresas com melhores práticas), que considera as três letras do ESG. A B3 faz o processo de seleção anual baseado nas respostas autodeclaratórias das empresas, do questionário CDP Climate Change e do Índice de Risco ASG da RepRisk, dentre outros critérios específicos de seleção. Todas as respostas ao questionário da B3 são públicas no site do ISE B3.

 Índice Carbono Eficiente (ICO2 B3)

Criado em 2010, o ICO2 B3 busca evidenciar ao mercado as empresas que já deram o primeiro passo na agenda de mudança do clima, preparando seu inventário de gases de efeito estufa. O índice também antecipa a visão de como as integrantes da carteira estão se preparando para uma economia resiliente e de baixo carbono.

– S&P/B3 Brasil ESG

Lançado em setembro de 2020, em parceria com a S&P, o índice S&P/ B3 Brasil ESG usa critérios baseados em práticas ambientais, sociais e de governança para selecionar empresas brasileiras para sua carteira. A metodologia considera o universo das empresas listadas na B3 e que compõem o S&P Brazil BMI (Broad Market Index), com exceção das que não têm aderência aos princípios do Pacto Global ou que fazem parte de setores específicos (armas, tabaco e carvão térmico, por exemplo).

– IGPTW B3

Este índice é o primeiro no mundo a fazer um recorte e avaliar o desempenho das empresas certificadas como as melhores para trabalhar, de acordo com a pesquisa Great Place to Work (GPTW). Criado em 2021, o IGPTW B3 considera as empresas certificadas pela GPTW no período válido para o Ranking das 150 Melhores Empresas para Trabalhar no Brasil no ano anterior, elaborado pela consultoria SAD. A composição da carteira anunciada em janeiro de 2023 incluiu 65 empresas, certificadas no ranking nacional de 2022.

– Índice de Ações com Governança Corporativa Diferenciada (IGC B3)

Reúne empresas listadas no Nível 1, Nível 2 e Novo Mercado. Nesses segmentos, as companhias precisam seguir regras de governança corporativa diferenciadas – que vão além das obrigações exigidas pela Lei das Sociedades por Ações (Lei das S.As.). O objetivo é melhorar a avaliação daquelas que decidem aderir, voluntariamente, a um desses segmentos de listagem.

– Índice de Governança Corporativa Trade (IGCT B3)

Integrado por empresas listadas no Novo Mercado, no Nível 1 ou Nível 2. Além de considerar os níveis de governança das empresas listadas, possui critérios mais restritivos de liquidez.

– Índice de Ações com Tag Along Diferenciado (ITAG B3)

Reúne ações de empresas que oferecem melhores condições aos acionistas minoritários, no caso de alienação de controle.

– Índice de Governança Corporativa – Novo Mercado (IGC-NM B3)

Inclui exclusivamente os papéis das empresas que negociam ações no Novo Mercado, segmento de listagem em que estão as companhias que se comprometem espontaneamente a adotar práticas de governança corporativa que vão além das exigidas por lei.

– Índice de Crédito de Descarbonização B3 (ICBIO B3)

Em setembro de 2022, foi lançado o primeiro índice ASG da B3 no mercado de Balcão: Índice de Crédito de Descarbonização B3 (ICBIO B3). O indicador acompanha a variação do preço médio ponderado do Crédito de Descarbonização (CBIO), registrado na B3.

– IDIVERSA B3

Primeiro índice latino-americano a combinar num único indicador critérios de gênero e raça para selecionar as empresas que irão compor a carteira. O novo indicador é uma maneira de reconhecer as companhias listadas que se destacam em diversidade, além de promover maior representatividade de grupos sub-representados (gênero feminino, pessoas negras e indígenas) no mercado.

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