Eduardo Nishio, analista chefe de ações da Genial Investimentos, diz que a melhora de resultados das empresas em 2026 virá mais de fatores internos das companhias e menos de variáveis externas como política econômica, juros ou câmbio. “Eu entraria o ano com uma carteira um pouco mais defensiva. Os casos de crescimento serão mais dependentes de uma agenda microeconômica”, comenta.
Alguns analistas preveem a continuidade do cenário que beneficiou o Ibovespa em 2025. E o impulso vem de fora. Com a taxa de desemprego pressionando a economia americana, a expectativa é que o Fed mantenha a sua política de corte de juros.
Setores defensivos e previsibilidade de caixa
“Pelo menos no primeiro semestre, eu acho que a gente vai continuar nessa sequência de estímulos. E isso impacta também no mercado do acionário brasileiro. Quando os juros americanos caem, existe um aumento de fluxo para os países emergentes e o dólar se deprecia frente às outras moedas”, diz Bruno Corano, CEO da Corano Capital.
Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor da Paramis Avantgarde Asset Management, diz que setores ligados à infraestrutura, concessões e energia se destacam pela previsibilidade de caixa e menor dependência de ciclos curtos de crescimento.
“Esses segmentos também são beneficiados por movimentos de longo prazo, como transição energética e necessidade de investimentos estruturais”, diz. Ele também vê um bom momento para empresas exportadoras ou ligadas a commodities, que funcionam como proteção em momentos de maior tensão política ou volatilidade cambial, “desde que tenham boa governança e disciplina de capital”.
Onde estão as oportunidades?
Já Luis Castro da Fonseca, sócio-fundador da Nest Asset Management, é pessimista justamente com empresas exportadoras de commodities. “Não estamos muito otimistas com Vale (VALE3), Petrobras (PETR4) e Suzano (SUZB3), dado que os preços das commodities, relevantes para a nossa economia, continuam pressionados no mercado global e as incertezas com relação à aceleração do crescimento global permanecem altas.”
O analista de ações sócio da Nord, Victor Bueno, recomenda evitar empresas sensíveis ao cenário macroeconômico, ou seja, aquelas que vão sofrer mais com juros elevados, inflação alta e incertezas políticas. Para ele, é hora de focar nas operações que mais se conhece.
A ação que enche os olhos do analista é a Priner (PRNR3), empresa derivada da Mills (MILS3), que à época de sua abertura de capital era especializada em montagem de andaimes. “Depois do seu IPO (2020), a empresa foi fazendo aquisições e diversificando ainda mais o seu portfólio de atividades, de setores, de clientes, diluindo riscos e também entregando crescimento para os seus acionistas”, afirma.
O ânimo de Bueno com a Priner vem da política de aquisições (M&A). A compra da Semep, transação mais recente, deverá adicionar um crescimento de receita na casa de 35% à companhia e incrementar o Ebitda (juros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) em 70%, segundo o analista.
Outra aposta da Nord é a Marcopolo (POMO3), líder global na fabricação de carrocerias de ônibus. “Quando a gente olha para o ROE [retorno sobre o patrimônio líquido], está na casa de 30%, um percentual acima dos seus pares e da própria média da Bolsa brasileira, em torno de 15%”.
Bueno projeta proventos próximos de 8% em 2026 na empresa, enquanto as boas pagadoras de dividendos da Bolsa distribuem 6%. Além de dividendos, ele prevê crescimento para a POMO3. “A idade média da frota de ônibus passou de 8 anos para mais de 11 anos nesses últimos tempos. Há cada vez mais a necessidade de renovação de frotas no País.”
Consumo, construção e o “contrassenso” eleitoral
A terceira empresa sugerida por Bueno é a MRV (MRVE3), uma companhia de incorporação civil que tende a continuar a se beneficiar do seu principal foco de mercado, imóveis populares enquadrados no programa Minha Casa Minha Vida do governo federal.
É justamente a conjuntura político-eleitoral envolvendo os programas governamentais que faz o especialista em investimentos do grupo Axia Investing, Felipe Sant’Anna, estar confiante em empresas como a MRV e outras ligadas ao setor de construção civil, além de varejo, e até mesmo petróleo.
“Esses são os três pontos que normalmente são um contrassenso. São setores perigosíssimos na Bolsa Brasileira, à exceção do petróleo, mas que eu acredito que podem performar bem em 2026. Em ano de eleição, a carteira do governo se abre, como coração de mãe”, conta.
Na visão dele, mesmo com as contas públicas deterioradas, o mercado vai ignorar o problema, “que provavelmente deve explodir após as eleições, assim como foi na Dilma. Mas ano de eleição é ano de distribuição de dinheiro, de projeto de lei, de emenda, decreto, medida provisória para facilitar a vida do cidadão”.
| Carteira Defensiva |
| Infraestrutura |
| Concessões |
| Energia |
| Empresas com previsibilidade de caixa |
| Carteira Eleitoral / Tática |
| Construção civil |
| Varejo |
| Consumo doméstico |
| Petróleo |
Por isso, diz, a construção civil deverá contar com regras mais fáceis para o crédito imobiliário e o varejo deve se beneficiar com o mesmo cenário.
Empresas ligadas a consumo devem performar bem este ano, reforça Flávio Conde, analista da Levante Investimentos. Ele vê outros impulsos, gerados pelos números melhores na taxa de desocupação, além da queda de juros da taxa Selic, a partir de março, que deve sair de 15% para 12,25% até o final do ano.
Um cenário de queda de juros estimula compras. “As varejistas tendem a aumentar vendas em 2026, com destaque para Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo (GUAR3).”
No setor de petróleo, um possível acordo entre Ucrânia e Rússia, intermediado pelos EUA, derrubaria o preço do petróleo, fazendo o consumidor pagar menos e consumir mais, beneficiando a Petrobras (PETR4), avalia Felipe Sant’Anna, da Axia.
“Além disso, a exploração da margem equatorial pode ser aprovada este ano, o que melhora o cenário também para as Junior Oils”, diz. Entre elas estão a Prio (ex-PetroRio), PetroRecôncavo (RECV3) e 3R Petroleum (RRRP3).
Endividamento fica no centro da análise
Para alguns analistas, a ponta negativa já estaria contratada no segundo semestre, independente de setor ou empresas. “Não acredito que seja sustentável a apreciação da Bolsa brasileira, porque, no final da linha, a gente chega numa crise, a não ser que alguém desarme essa bomba relógio”, diz Bruno, CEO da Corano Capital.
Ele se refere ao arcabouço fiscal do governo brasileiro, que não seria crível, pois muitas despesas ficam de fora do orçamento, sendo excluídas do limite de gastos para cumprir a meta fiscal de forma artificial. “Uma hora a conta chega, como alguém prestes a infartar que não anota na dieta os brigadeiros que comeu”, resume.
Mas, antes de um possível cenário de crise se confirmar, o consenso do mercado é de que o investidor pode obter melhores resultados evitando empresas muito endividadas. Mesmo com a queda de juros esperada, a Selic ainda vai terminar o ano muito elevada, acima de dois dígitos. Juros muito altos sempre são ruins para quem está endividado.
As ações e setores que especialistas evitam em 2026
França, da Paramis Avantgarde, gosta de falar de setores. Na visão dele, o investidor deve evitar, em 2026, segmentos dependentes de crédito barato, alavancagem elevada e crescimento acelerado.
Neste caso ele vai na contramão dos colegas e cita o setor de construção civil. “Mesmo com juros em queda, esses modelos continuam pressionados por margens baixas e necessidade constante de capital”, diz, referindo-se também ao varejo discricionário, que inclui bens e serviços não essenciais, a exemplo de vestuário, eletrônicos e lazer. Ele também faz um alerta em relação às empresas endividadas.
Para Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital, a CSN (CSNA3) é um exemplo que se encaixa neste quadro de atenção. “O endividamento elevado amplifica riscos em um ambiente de juros ainda restritivos no início do ano”, diz, lembrando que o cenário internacional de desaceleração global não é favorável a empresas do setor de aço e minério de ferro.
A CSN Mineração (CMIN3) é outra que poderia ser enquadrada. “O valuation pode parecer barato, mas faltam catalisadores positivos fortes, tornando-a vulnerável a correções”, afirma. Por fim, Uarian também não recomenda Magazine Luiza (MGLU3) que enfrenta competição acirrada e margens pressionadas. “Apesar de potencial recuperação com juros menores, execução operacional recente tem decepcionado.”
Felipe Sant’Anna, da Axia Investing, ainda lembra de companhias aéreas como investimentos a serem evitados, apesar dos estímulos do governo ao consumo. “Mesmo com um movimento bastante forte nos aeroportos e taxa de ocupação alta, são empresas muito endividadas em dólar.”
Na visão dele, a moeda americana deverá fazer o caminho oposto de 2025 e subir este ano. “O dólar está muito barato, o que vai pressionar demais as companhias aéreas.”
E os bancos?
Numa posição contrária, Sant’Anna também não vê com bons olhos o setor financeiro. “Num primeiro momento, os bancos vão ganhar bastante dinheiro com esse fluxo de grana espalhado em ano eleitoral. Mas qual vai ser o passivo que vão construir com inadimplência? O mercado não vai esperar 2027 para precificar problemas de endividamento das famílias. Então, eu ficaria um pouco de olho nos bancos.”
Raízen (RAIZ4) e Vamos (VAMO3) também são citadas como destaque negativo em 2026 por Conde, da Levante. “Raízen está muito endividada e pode ser obrigada a aumentar capital fazendo o preço das ações caírem e Vamos vai precisar acelerar a venda de ativos para reduzir o endividamento líquido”, diz, apontando que as margens da VAMO3 vêm diminuindo apesar do crescimento dos resultados operacionais.