A valorização simultânea do ouro, tradicional porto seguro, e das ações ligadas à inteligência artificial chamou a atenção do BIS para possíveis sinais de excesso nos mercados globais. (Foto: Adobe Stock)
A combinação de dois ativos historicamente associados a narrativas muito distintas – ouroe ações de tecnologia ligadas à inteligência artificial – acendeu um sinal amarelo no radar das autoridades financeiras globais. No relatório trimestral divulgado em dezembro de 2025, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), conhecido como o “banco central dos bancos centrais”, chamou atenção para o comportamento incomum dos mercados: a forte valorização simultânea do ouro e das ações.
Esse padrão levou o BIS a mencionar a presença de “sinais clássicos de bolha”, sem afirmar que um estouro seja iminente. O alerta, porém, vai além de preços elevados, envolve expectativas excessivamente otimistas, movimentos sincronizados entre classes de ativos e um ambiente em que narrativas passam a pesar mais do que fundamentos.
Preço, expectativa e narrativa: em que está o excesso
Para Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank, o ponto mais sensível hoje é o descasamento entre expectativa e realidade.
Na avaliação dele, os preços parecem antecipar um crescimento que ainda não se materializou. “Seria o preço desconectado de fundamentos por causa de uma expectativa irracional. Essa taxa de crescimento ainda não se materializou nos ativos. Então cada vez que solta o resultado é um susto e isso cai”, afirma.
Esse diagnóstico dialoga diretamente com o alerta do BIS sobre “movimentos explosivos” de preços, aqueles que avançam rápido demais, sem a correspondente entrega de resultados.
No caso das big techs, a alta vem acompanhada da promessa de que a inteligência artificial será uma nova infraestrutura global, comparável à eletricidade ou à internet.
Segundo Bresciani, esse tipo de promessa costuma abrir espaço para o domínio das narrativas.
“Estamos vivendo um momento de ‘narrativas dominantes’ que substituem a análise racional. Isso sempre acontece nos mercados. As pessoas acabam saindo dos trilhos, do fundamento, e passam a ver coisas paralelas”, explica.
IA: entre revolução estrutural e superexuberância
A discussão sobre bolha em inteligência artificial não surge no vácuo. Historiador e pensador global, Yuval Noah Harari lembra que, antes de julgar se a IA é uma bolha ou não, é preciso compreender a magnitude da transformação em curso.
Para ele, a euforia não é apenas financeira, mas civilizatória. A IA já influencia decisões sobre crédito, trabalho, saúde e até guerra, o que torna o debate mais profundo do que valuatione múltiplos de lucro.
Publicidade
Ainda assim, nomes do mercado financeiro têm apontado riscos claros de excesso. Michael Burry, famoso por antecipar a crise de 2008, reacendeu recentemente o alerta ao questionar a contabilidade das big techs. Segundo ele, empresas estariam estendendo artificialmente a vida útil de chips, inflando resultados e mascarando fragilidades que só apareceriam entre 2026 e 2028.
O argumento ganha força diante dos números: as big techs devem investir mais de US$ 400 bilhões em IA em 2025 e acima de US$ 500 bilhões em 2026, valores que superam, em velocidade, até o auge da bolha das pontocom. Ao mesmo tempo, receitas de empresas como Amazon, Meta e Alphabet mostram sinais de desaceleração.
Ray Dalio, fundador da Bridgewater, concorda que há “território de bolha”, mas faz uma ressalva crucial: bolhas não estouram sozinhas.
“Não venda só porque há uma bolha. O estouro depende de um gatilho”, disse. Para ele, esse gatilho costuma vir da política monetária ou da necessidade de liquidez, algo que ainda não se materializou.
O ouro: proteção ou excesso disfarçado?
Se a discussão sobre IA gira em torno de expectativas futuras, o ouro levanta uma questão diferente. Tradicionalmente visto como porto seguro, o metal também aparece no radar do BIS por sua alta simultânea com ativos de risco.
Publicidade
Norberto Sangalli, broker da mesa de alocação da Nippur Finance, explica que o movimento atual tem dois vetores claros.
“De um lado, há demanda estrutural: compras relevantes de bancos centrais, enfraquecimento do dólar e diversificação de reservas. De outro, o BIS observa aumento da participação de investidores de varejo e fluxos expressivos para ETFs de ouro, o que sugere comportamento de manada”, afirma.
Ou seja, fundamentos e emoção coexistem. O problema, segundo o BIS, não é apenas o ouro subir, mas ele subir junto com ações, ampliando correlações em um momento de euforia generalizada.
Já Bresciani vê o movimento com mais cautela, mas não crava uma bolha iminente.
“O ouro sobe em momentos de incerteza, sempre foi uma fuga. E a gente vive um momento de incertezas globais. Mas acredito que ainda não é uma bolha. É uma alta em cima de incertezas”, defende.
Ao mesmo tempo, ele reconhece que o nível atual do preço não é sustentável no longo prazo sem novos choques.
Publicidade
“Enquanto há incertezas, o preço do ouro sobe; com menos incertezas, ele cai”, afirma o analista do Andbank.
Contágio e impactos para o investidor brasileiro
Caso haja uma reversão brusca nas tendências de IA ou uma correção forte no ouro, os efeitos não ficariam restritos aos Estados Unidos ou à Europa. Para Bresciani, o canal de transmissão para países emergentes seria rápido.
“Primeiro reage lá fora, e isso bate no dólar, nas commodities e, como um todo, nos emergentes”, elabora.
Esse risco sistêmico é ampliado pela concentração de mercado. Em cinco anos, o valor das chamadas Magnificent Seven saltou de US$ 8,5 trilhões para US$ 21,4 trilhões. Em uma única correção recente, essas empresas perderam US$ 1,75 trilhão em valor de mercado, o equivalente a duas Bolsas brasileiras inteiras.
Bolha ou ciclo? Como o investidor comum deve ler o alerta
Tanto Sangalli quanto Bresciani convergem em um ponto essencial: o BIS não está dizendo que o ouro ou a IA vão “estourar” amanhã. O alerta é mais sutil e, talvez por isso, mais importante.
“O BIS não afirma que o ouro esteja em uma bolha inevitável, mas alerta para um ambiente de preços elevados, maior participação especulativa e riscos assimétricos”, resume Sangalli.
Para o investidor comum, a leitura correta não é necessariamente reduzir tudo a zero, mas entender em que fase do ciclo está entrando. O próprio BIS ressalta que seus modelos não permitem prever timing, apenas identificar condições de maior fragilidade.
Bresciani reforça essa visão pragmática. “O investidor deve encarar isso como um lembrete de que ciclos de exuberância sempre terminam, mas ninguém sabe quando”, afirma o analista.
Publicidade
No caso do ouro, ele ainda vê função como hedge, desde que com atenção redobrada.
“Ainda cumpre seu papel de proteção, mas tem que ficar esperto. Se as métricas lá fora melhorarem ou piorarem, isso realiza”, alerta.
O que está realmente em jogo
No fundo, o debate sobre ouro e IA revela menos sobre um estouro iminente e mais sobre um mercado cada vez mais sincronizado, dependente de narrativas e sensível a mudanças de humor.
Como aponta o BIS, quando ativos que deveriam se comportar de forma oposta passam a andar juntos, o risco não está apenas no preço, mas na perda de diversificação – justamente o mecanismo que protege o investidor em momentos de estresse.
Para quem investe, o alerta não é para sair correndo, mas para lembrar que exuberância costuma ser silenciosa no começo e óbvia apenas depois.