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Investimentos

“BC errou por pressão do mercado e pode errar por pressão política”, diz TAG

O CIO André Leite, da TAG, critica movimentação do BC e diz que a instituição perde protagonismo em um momento de descredibilidade fiscal

Por Luíza Lanza

30/09/2024 | 7:58 Atualização: 30/09/2024 | 19:23

André Leite, sócio e CIO da TAG Investimentos. (Foto: Divulgação/TAG)
André Leite, sócio e CIO da TAG Investimentos. (Foto: Divulgação/TAG)

O Banco Central não deveria ter retomado o ciclo de altas na taxa Selic e o mercado está agindo com “birra” em relação à trajetória de política monetária, diz a última carta mensal da TAG Investimentos, gestora com R$ 13 bilhões em ativos, ao criticar a pressão dos agentes financeiros a favor da volta do aperto monetário no País.

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  • Viralatismo monetário, BC freestyle e mais: veja detalhes da carta da TAG aqui

Na reunião de setembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar a taxa básica de juros do Brasil em 0,25 ponto percentual, revertendo o ciclo de afrouxamento monetário que havia sido iniciado em agosto de 2023. A decisão era amplamente esperada por boa parte do mercado, que passou a defender novas altas na Selic em meio ao processo de desancoragem das expectativas de inflação e a uma suposta necessidade da instituição aumentar sua credibilidade em um momento de trocas no comando.

Mas a TAG discorda dos dois argumentos e acha que o BC errou ao ceder à pressão. Agora, a instituição está em uma sinuca de bico: iniciou as altas de juros por influência do mercado e pode ser obrigada a iniciar os cortes antes da hora por influência política.

“O BC deu um ‘duplo twist carpado’ para poder justificar a narrativa que o mercado já havia criado”, avalia André Leite, sócio e CIO da TAG Investimentos. “Agora, se seguir o que é tecnicamente correto, terá que esperar 2026 para poder reduzir a Selic. Só que vai enfrentar uma baita de uma pressão do governo para fazer isso já em 2025, mirando as eleições.”

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Este é apenas um dos motivos por trás da exigência de investidores por maior prêmio de risco. Para Leite, ao deixar o manual de lado, o BC perde protagonismo em um cenário macroeconômico difícil, com incertezas em relação ao ritmo da economia no exterior, mas, sobretudo, ao fiscal no Brasil. E esta é a verdadeira batalha de credibilidade impactando o mercado no momento.

Confira os principais trechos da entrevista:

E-Investidor – A TAG se posicionou na contramão do mercado, ao criticar o movimento de alta de juros na Selic, que acabou acontecendo. O Copom errou ao ceder às pressões do mercado?

André Leite – Foi um erro do Banco Central. Até antes da reunião, o modelo do BC dava uma inflação de 3,2% para o horizonte relevante, um prazo de 18 meses contínuos à frente. As outras variáveis, como a taxa de câmbio, risco Brasil e as expectativas do mercado brasileiro de inflação, todas haviam melhorado de uma reunião para outra. Não tinha motivo para subir a taxa de juros. Então, na reunião de setembro, o Copom mudou um parâmetro do modelo, o que levou a inflação no horizonte relevante para 3,5%. O BC deu um “duplo twist carpado” para poder justificar toda a narrativa que o mercado já havia criado para empurrá-lo na direção do aumento de taxa de juros.

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Qual o risco desta postura que vocês chamam de “BC freestyle”?

Esse “BC freestyle” vai se manifestar até de maneira mais forte daqui para frente. Qualquer ciclo de política monetária tem variáveis de transmissão que demoram para aparecer na economia. Não à toa, persegue-se a inflação para 18 meses à frente. Vamos supor que o ciclo iniciado agora em setembro vá até janeiro, levando a Selic a 11,5% ou 12% ao ano; ninguém sabe ainda. Só que o resultado desse ciclo, 18 meses depois de janeiro de 2025, é julho de 2026, quando estaremos com a campanha política para a Presidência já pegando fogo. E todo mundo sabe que não adianta reduzir juros em 2026, não daria tempo de impulsionar atividade econômica e colher o resultado eleitoral. Para isso, os cortes precisariam começar em meados de 2025. O primeiro risco é essa armadilha política. Mas também estamos correndo risco caso tenha uma recessão global. Isso vai se traduzir para dentro do Brasil em menos crescimento e um câmbio possivelmente mais valorizado. Seria um overkill na economia.

Agora que um novo ciclo de aperto monetário já começou, ainda é possível corrigir esta trajetória?

Agora já foi. Historicamente, não lembro de um BC que tenha dado um aumento de juros e voltado atrás. Eles vão ter que fazer um ciclo completo. O que dá para fazer, se verem que realmente erraram, é um ciclo curto e bem leve, parando no 11,5%, por exemplo. Mas abortar o voo depois que ele já começou seria muito ruim para a credibilidade da instituição.

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Na carta mensal, a TAG pontua que o mercado adotou um posicionamento “poliana” no início de 2024, enquanto agora está “ciclotímico e birrento”. Investidores estão errando a precificação de risco dos eventos macroeconômicos?

O mercado teve algumas fases com esse governo. De primeira, houve certa adesão, com bastante gente que votou no Lula nas eleições. Quando veio o arcabouço fiscal, muitos economistas bons criticaram como algo que não parava em pé, e era realmente muito frágil. Mas o mercado embarcou. Quando a realidade veio, isso naturalmente provocou perdas de dinheiro. É só olhar o resultado dos fundos de ações e multimercados. Veio então um sentimento de traição, que jogou o mercado para o lado oposto. Se estou perdendo dinheiro, agora eu exijo prêmio; então começaram a empurrar o governo. Só que entendo isso como uma certa ingenuidade. O Lula sempre foi o Lula, o PT sempre foi o PT; e inclusive foram eleitos com o discurso de colocar o rico no imposto de renda. Não tem surpresa nenhuma. O que passa a ser mais relevante nesse cenário é se teremos, de fato, sinalizações críveis do governo que ele vai fazer a coisa certa do ponto de vista fiscal. E ainda não vimos isso.

De que forma essa preocupação em relação ao fiscal tem atrapalhado os investimentos brasileiros?

Há três anos não temos um IPO na Bolsa. As empresas não estão animadas a captar recursos; pelo contrário, o buy back está crescendo porque as companhias que têm caixa olham para o preço das suas próprias ações e acham que o melhor uso para esse dinheiro é recuperar os papéis. É um sinal de descrédito.

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Como fazer uma alocação estratégica nesse contexto de falta de credibilidade?

Nessa mini crise que estamos vivendo, os indicadores do Brasil estão muito ruins. A Bolsa está negativa, o índice de small caps caindo, o IMAB também perto de zero. A única coisa que bateu o CDI em 2024 foram os índices de crédito, especialmente os high grandes, que agora já não têm prêmio nenhum e podem ter um cenário mais difícil dado que a economia vai piorar. Olhando para o curto prazo, talvez uma pessoa mais conservadora falasse que o melhor a se fazer agora é ficar no CDI. Olhando um pouco mais para frente, se o governo não fizer ajuste fiscal e continuar gastando, são os títulos de IPCA que vão defender o poder de compra do investidor. Se as coisas descambarem para extremos, não vai ser o CDI que vai te proteger. Para um médio prazo, títulos IPCA, além de dólar e ativos reais, são o que defendem o investidor.

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