No caso da mineradora Vale (VALE3), nos últimos meses a ação chegou a saltar com força, impulsionada por surpresas positivas com o minério de ferro e ganhos de eficiência de custos. No passado, analistas não esperavam que o minério alcançasse US$ 100 a tonelada, patamar que acabou sendo superado por vários meses. Para 2026, as perspectivas seguem favoráveis, com projeções do minério entre US$ 95 e US$ 120.
Segundo estudo do TradeMap, as ações VALE3 avançaram 59,88% nos últimos seis meses e, em 2026, acumulam ganhos de 11,28%. Custando R$ 85,35, o espaço para valorização de VALE3 fica mais limitado. Para quem busca dividendos, uma cotação mais elevada reduz o retorno com proventos, o chamado dividend yield, já que analistas projetam um yield entre 6% e 10% para a Vale em 2026.
Por outro lado, a holding Bradespar (BRAP4), negociada a R$ 24,15, cerca de um terço do valor da VALE3, surge como alternativa para quem busca maior retorno em dividendos, de até 12%. A questão é saber se vale comprar a ação da Bradespar para se expor à Vale e garantir um dividendo mais elevado por um preço menor. O E-Investidor consultou analistas e reúne os principais pontos que o investidor precisa avaliar antes de tomar essa decisão.
Preço não é valor
Igor Guedes, analista da Genial Investimentos, afirma que o preço baixo da Bradespar não significa que a ação seja mais barata. “Bradespar custar um terço do que custa a Vale não é a conta correta a se fazer”, diz. Segundo ele, uma ação de R$ 10 pode ser mais cara do que outra de R$ 20.
Guedes explica que o preço depende do valor de mercado dividido pelo número de ações, e que o que define se um papel é caro ou barato são os múltiplos, como o EV/Ebitda, que relaciona o valor da empresa ao lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
Ele aponta que o desconto da Bradespar está em 36,3%, acima da média histórica de 20%. O patamar é o maior dos últimos 12 meses e um dos mais elevados em 5 anos.
Para o analista, esse desconto reflete um fluxo de mercado. “Fundos passivos aumentaram posição em Vale, um fluxo que não veio para Bradespar, o que justifica a diferença de preço entre as ações. E investidores estrangeiros impulsionaram a cotação comprando VALE3 e os ADRs lá fora”, afirma.
Bradespar tem risco embutido
Alguns analistas afirmam que o desconto da BRAP4 reflete riscos no curto e médio prazo. Lucas Lima, analista-chefe da VG Research, destaca a disputa judicial entre Bradespar e Litel, que pode gerar impacto de R$ 1,4 bilhão, podendo ultrapassar R$ 3 bilhões com correções monetárias e de juros.
A disputa envolve o descumprimento de um contrato de opção de compra ligado à entrega de ações da Vale à Eletron. “Até hoje as empresas discutem quem deve pagar essa multa. Na última decisão, em 2021, a Bradespar perdeu e recorreu”, lembra.
Segundo Lima, se a holding arcar com a indenização, pode haver nova queda nas ações. “Com multa de R$ 1,4 bilhão, o desconto recuaria para 28%. Mas com perda de R$ 3,5 bilhões, pode cair para 13%”, calcula. Ele ressalta que o processo é demorado e complexo.
Regis Chinchila, head de research da Terra, aponta riscos de governança. “O payout líquido da Bradespar pode variar por ano”, comenta, porque a holding pode mudar sua estratégia de alocação de capital ou não priorizar o repasse dos proventos da Vale.
Como a Bradespar remunera o acionista?
Guedes explica que a Bradespar tem como principal fonte os dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) da Vale, mas esses valores não são repassados automaticamente nem de forma integral. “Pelo seu estatuto, a Bradespar é obrigada a distribuir no mínimo entre 25% e 30% do seu lucro líquido ajustado”, aponta.
Segundo ele, a holding retém parte do dividend yield, cerca de 2% em relação ao que a Vale paga. “Mas como o desconto de holding está aumentando, o dividend yield da Bradespar pode desacelerar menos do que a Vale”, reforça.
Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, alerta que a Bradespar pode pagar apenas o mínimo. “A holding não tem a obrigação de distribuir proventos generosos”, afirma. Ele também observa que, se o desconto diminuir, pode não haver mais oportunidade atrativa em BRAP4.
A Vale é mais previsível e distribui 30% do Ebitda ajustado, menos o investimento corrente, com pagamentos semestrais em março e setembro.
Vantagens e riscos de Bradespar
Chinchila afirma que a principal vantagem da Bradespar é o desconto de holding, que permite exposição aos fundamentos da Vale pagando menos pela ação. “Isso resulta em um dividend yield superior e um valuation mais descontado”, aponta.
Hugo Queiroz, analista da L4 Capital, destaca que a empresa oferece exposição à tese do minério de ferro e vê potencial de valorização entre 20% e 30% em BRAP4, além dos dividendos. “Para 2026, o retorno total (valorização e proventos) pode chegar a 15%”, afirma.
Entre os riscos, Queiroz cita a menor liquidez por ser uma small cap, além de questões de governança, já que o Bradesco pode priorizar o controle do que os dividendos. Ele também alerta que uma queda de cerca de 20% no minério de ferro pode afetar o dividend yield.
Chinchila lembra ainda da exposição direta aos riscos da Vale, como volatilidade do minério, dependência da China e riscos ambientais e regulatórios.
Trocar Bradespar por Vale?
Os analistas não têm consenso sobre investir em Bradespar. Para VG Research e Vida de Acionista, a troca não faz sentido. Já Terra, Genial e L4 Capital enxergam oportunidade em alguns cenários.
Nos últimos cinco anos, a Vale teve dividend yield médio de 10,96%, enquanto a Bradespar registrou 19,10%, segundo o Investidor10. Para 2026, analistas projetam até 10% para a Vale e até 12% para a Bradespar. Pelo consenso do TradeMap, que considera a visão de grandes bancos e corretoras, a média de DY esperado é de 7,60% para Vale e 10% para Bradespar.
Entre oito recomendações, seis indicam compra de Vale e duas manter. Para Bradespar, apenas uma casa recomenda compra e outra manter.
Guedes, da Genial, afirma que quando o desconto da Bradespar aumenta, investidores tendem a migrar para a holding. “O benefício seria ligado apenas a aproveitar a janela de desconto, mas requer monitoramento”, diz. Mas quando o desconto atinge a média histórica é natural uma migração novamente para os papéis da Vale, pressionando a cotação de BRAP4.
Também vale a pena observar …
Por ser exposta à Vale, a Bradespar também sofre impacto dos fundamentos da mineradora. Sergio Biz, analista do GuiaInvest, afirma que com o PIB (Produto Interno Bruto) da China entre 4% e 4,7% e minério acima de US$ 100, a Vale deve continuar gerando caixa e tendo eficiência nos custos, mas os dividendos antecipados em 2025 podem reduzir o retorno ao acionista deste ano.
Contudo, Biz não descarta alta no dividend yield se a empresa distribuir mais de 30% do Ebitda ajustado.
João Ascoli, especialista da Amplus Capital, aponta que menores indenizações de Mariana e Brumadinho em 2026 podem melhorar a previsibilidade dos proventos. Ele também destaca a importância de metais básicos como cobre e níquel na geração de receita. “Estas commodities possuem fundamentos sólidos, janelas estruturais de investimento, e já contribuíram com valorização recente da Vale”, afirma.
Sobre o projeto Simandou, na Guiné e sob controle de concorrentes da Vale (VALE3), Ascoli afirma que a iniciativa surgiu por pressão geopolítica da China, que busca maior acesso à cadeia de suprimentos. Apesar de ser atrativa no papel, ele destaca que a exploração é complexa e enfrenta grandes desafios logísticos.
“É um projeto que terá um impacto menor do que esperado pelo mercado. Simandou é um grande desafio, em um país muito instável, a 600 km de portos”, diz. Segundo ele, a oferta não é suficiente para cobrir toda a demanda, e a capacidade total de Simandou só deve ser atingida em 2030.