

O dólar encerrou agosto com recuo de 3,19%, após avançar 3,07% em julho. O movimento segue a trajetória observada ao longo deste ano e está inserido em um contexto de perda de força da moeda americana em escala global.
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O dólar encerrou agosto com recuo de 3,19%, após avançar 3,07% em julho. O movimento segue a trajetória observada ao longo deste ano e está inserido em um contexto de perda de força da moeda americana em escala global.
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No ano, a perda é de 12,27%. Nesta sexta, a alta foi de 0,29%, a R$ 5,4220
O índice DXY (Dollar Index), que mede a variação do dólar frente a uma cesta de moedas internacionais, já recua quase 10% no acumulado do ano. É uma das maiores desvalorizações desde 1973, período em que os Estados Unidos abandonaram o padrão-ouro.
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A política monetária norte-americana tem sido central para essa dinâmica, segundo o economista e especialista em mercado internacional, Paulo Godoi Filho. Já existe expectativa de que os primeiros cortes de juros ocorram ainda neste ano, com projeções de até 50 pontos-base de redução até dezembro.
“Uma postura menos restritiva diminui a atratividade da renda fixa nos Estados Unidos e reduz o fluxo de dólares para aquele mercado. Esse processo tende a beneficiar moedas de países emergentes, como o real”, afirma.
Ao mesmo tempo, a percepção de risco institucional ligada às políticas do presidente Donald Trump gerou redirecionamento de capitais, favorecendo outras geografias. O Brasil foi um dos destinos desse movimento, registrando ingresso líquido de aproximadamente R$ 30 bilhões em investimentos estrangeiros na Bolsa de Valores brasileira.
No campo interno, a condução da política monetária também teve peso em agosto. O Banco Central manteve o processo de combate à inflação com a taxa Selic em 15%, o maior nível em dez anos. As comunicações oficiais sinalizam que o ciclo de juros tende a se prolongar, o que, dizem os especialistas, reforça a credibilidade da autoridade monetária no compromisso com a convergência das expectativas inflacionárias para a meta.
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O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos já ultrapassa 10 pontos percentuais ao ano. Esse patamar amplia a atratividade da renda fixa doméstica e, ao mesmo tempo, encarece a manutenção de posições compradas em dólar por parte dos investidores institucionais, contribuindo para a queda da moeda americana no País.
Outro ponto que colaborou para a valorização do real foi a trégua em relação às incertezas tarifárias. Tanto no âmbito global quanto em medidas específicas direcionadas ao Brasil, houve redução da pressão em torno de barreiras comerciais.
Esse ambiente renovou o interesse por ativos brasileiros e ampliou o movimento de apreciação da moeda local frente ao dólar. Não é à toa que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, comemorou a valorização da moeda brasileira frente ao dólar.
Em evento na Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), em São Paulo, na quarta-feira (27), Galípolo disse que o real tem registrado valorização mais acelerada que outras moedas emergentes neste ano, enquanto o mercado de câmbio mantém boa liquidez e funcionamento adequado.
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O president do BC disse ainda que investidores globais seguem direcionando recursos para ativos nos Estados Unidos, mas aumentam as posições de hedge como forma de proteção contra uma possível desvalorização do dólar, prática que não era tão recorrente. Nesse contexto, segundo ele, a previsibilidade do câmbio se torna ainda mais limitada.
A possibilidade de o dólar ficar abaixo de R$ 5,40 vem sendo discutida entre analistas, mas há limitações claras para esse movimento, segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad. “Quando a cotação do dólar se aproxima dos R$ 5,30, há a presença de força compradora local. Vale lembrar que o Brasil tem se beneficiado mais da queda do dólar por conta da conjuntura internacional e dos níveis elevados de juros, do que pelos fundamentos macroeconômicos do País”, explica.
“O problema fiscal ainda persiste, com a dificuldade do governo em gerar superávits primários para a estabilização da dívida pública, que vem crescendo de forma acentuada — e não se agravou ainda mais muito por conta do lado da arrecadação”, completa o especialista.
Na avaliação de Shahini, as transações correntes, que englobam a balança comercial de bens, serviços e transferências, também não trazem sinais positivos. O déficit nesse indicador limita a possibilidade de uma valorização mais acentuada do real. Para que o dólar se afaste de forma consistente da faixa dos R$ 5,40 e rompa níveis mais baixos, diz ele, seria necessário observar mudanças nesses fundamentos domésticos, algo que por ora não se confirma.
O diretor de câmbio da Ourominas, Elson Gusmão, no entanto, é mais otimista. “O câmbio já flertou com esse patamar em agosto e, caso o ambiente externo continue favorável e o fluxo de capital estrangeiro permaneça positivo, há espaço para novas mínimas. Algumas projeções de mercado já indicam dólar em torno de R$ 5,30 até o fim do ano”, ressalta.
Gustavo avalia que setembro deve começar com expectativa de algum alívio no câmbio, sustentado pela possibilidade de cortes de juros nos Estados Unidos e pela maior entrada de capital em países emergentes. O fluxo de recursos estrangeiros no Ibovespa, segundo ele, pode reforçar a valorização do real, embora persistam riscos associados às medidas fiscais brasileiras, à crise diplomática e tarifária com os Estados Unidos e a possíveis novos desdobramentos da guerra comercial.
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As atenções se voltam às reuniões do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) e do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil, que podem redefinir as expectativas em torno das taxas de juros. Nos EUA, indicadores de inflação, emprego e Produto Interno Bruto (PIB) seguem no radar, já que exercem influência direta sobre a moeda americana.
No Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto será acompanhado de perto. O resultado poderá indicar o ritmo da condução da Selic pelo Banco Central, atualmente no maior patamar em uma década. De modo geral, indicadores relacionados a preços, atividade econômica e mercado de trabalho seguem como referência tanto para a política monetária doméstica quanto para o rumo da política de juros nos Estados Unidos, fatores determinantes para a trajetória do dólar.
“Eu diria que o dólar, no patamar atual, apresenta um viés de alta, pois é improvável que continue a se depreciar globalmente no mesmo ritmo observado no primeiro semestre. Assim, podemos esperar a moeda operando dentro de patamares mais técnicos do mercado, entre R$ 5,40 e R$ 5,50, ao longo do próximo mês, ainda que seja sempre difícil prever os movimentos de curto prazo do câmbio”, diz Shahini, da Nomad.
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