Veja o desempenho do dólar na sessão. (Foto: Adobe Stock)
A última sessão de janeiro fez o dólar ganhar fôlego e reduzir parte das quedas que vinha acumulando ao longo do mês. Na sexta-feira (30), a moeda americana encerrou o dia com ganhos de 1,04%, a R$ 5,2476. A alta reflete a reação do mercado com a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de indicar Kevin Wash para a presidência do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Com o fechamento desta sexta-feira (30), o dólar encerra o mês com uma queda acumulada de 4,39%.
A escolha reduziu os temores dos investidores de uma eventual interferência do governo Trump na independência do Fed. No último dia 12, Jerome Powell, atual presidente do BC americano, comunicou ao mercado que o órgão recebeu uma intimação do Departamento de Justiça (DoJ, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Segundo ele, a ameaça de acusação criminal diz respeito ao seu testemunho prestado no Senado dos EUA em julho passado, sobre o projeto de renovação do edifício do Fed.
Contudo, a ação foi interpretada por Powell como mais uma ação de uma campanha contínua de Trump contra sua gestão, que não tem cedido às pressões por cortes mais intensos de juros. Vale lembrar que, nesta quarta (28), o Fed decidiu manter as taxas no intervalo entre 3,5% e 3,75%, após três cortes seguidos e em meio à pressão de Trump por mais reduções.
“Warsh, ex-governador do Fed de 2006 a 2011, defende cortes de juros, mas é conhecido por ter historicamente uma postura hawkish, o que diminui a visão de risco de captura política total do banco central, diferentemente do que Rieder ou Hassett poderiam representar. O nome com credibilidade institucional”, diz Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
Apesar do otimismo do mercado, os ganhos não foram suficientes para reverter a depreciação da moeda ao longo de janeiro. A depreciação refletiu a recente escalada das tensões geopolíticas que elevaram o risco global. “Tudo isso tem penalizado o dólar no exterior. Vemos espaço para a extensão deste movimento nos próximos meses”, diz Clara Negrão, economista da Ágora Investimentos.
A combinação desses eventos desencadeou um movimento de rotação de portfólio, com os investidores reduzindo suas alocações nos Estados Unidos e redirecionando para mercados emergentes, como o Brasil. Até o dia 23 de janeiro, os estrangeiros aportaram R$ 17,728 bilhões na Bolsa brasileira neste ano, segundo dados da B3. Para efeito de comparação, eles haviam ingressado com R$ 25,473 bilhões em 2025.
Na bolsa brasileira, o reflexo desse movimento tem sido imediato. Em 2026, o índice sobe 12%, ampliando os ganhos dos últimos 12 meses para 45,70%.
O que esperar do dólar em fevereiro?
A indicação do novo presidente do Fed trouxe um peso ainda mais importante para a trajetória dos juros americanos ao longo de 2026. Segundo Bruno Shahihi, especialista em investimentos da Nomad, a retórica de Warsh em relação à política monetária americana será o principal fator que ditará os rumos do câmbio, pois indicará o nível efetivo de autonomia do Fed em relação ao Executivo e os sinais mais claros sobre a taxa de juros terminal.
“Há uma pressão crescente vinda da Casa Branca por cortes mais agressivos de juros, o que torna fundamental avaliar o grau de independência do novo Fed”, afirma.
O interesse dos estrangeiros pelo mercado brasileiro em função da diferença das taxas de juros entre as duas economias também deve influenciar na cotação do câmbio em fevereiro. Esse movimento ajudou a enfraquecer o dólar e fortalecer o real. Na quarta-feira (28), o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic inalterada em 15% ao ano, mas indicou dar início ao processo de flexibilização monetária a partir de março, desde que o cenário projetado se confirme.
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“Mesmo com a flexibilização, o país deve permanecer entre as moedas com maior carry do mundo, o que tende a seguir atraindo capital estrangeiro”, acrescenta Shahihi.
Vale investir em dólar agora?
O cenário não retira a importância de destinar parte do patrimônio em ativos dolarizados. Isso porque os títulos soberanos dos EUA continuam com rentabilidades acima de 3,5% em moeda forte e ainda atuam na diversificação de portfólio. A estratégia ainda protege o capital do “risco Brasil” que, segundo Castro Alves, poderá pressionar o mercado de câmbio nos próximos meses, especialmente com a proximidade das eleições presidenciais. “Momentos de queda do dólar são sempre uma oportunidade de dolarizar parte da carteira. E olhando para a frente, tenho minhas dúvidas se os fundamentos da economia brasileira sustentam uma valorização do real”, avalia o estrategista chefe da Avenue.
Já o nível de exposição vai depender do perfil de risco de cada investidor. O método mais conservador, na avaliação dos analistas, consiste em fazer aportes periódicos (mensais, semanais ou trimestrais) para obter um preço médio do dólar. “O mais aconselhável é definir previamente a fatia do patrimônio que será destinada ao exterior e seguir fielmente o plano, sem se preocupar excessivamente com oscilações pontuais na cotação do dólar“, orienta Sahini.