Ainda assim, o tombo do mês não apaga o saldo positivo do trimestre: com ganho de 16,35%, foi o melhor desempenho desde o fim de 2020, em um período marcado por volatilidade externa e sustentação doméstica.
“Não é uma mudança estrutural, e sim uma reação a um ambiente mais adverso com o conflito no Oriente Médio e as incertezas que vieram desde que começou”, explica Bruno Perri, economista-chefe, estrategista de investimentos e sócio-fundador da Forum Investimentos.
O principal vilão de março foi a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Com o petróleo Brent superando os US$ 100 por barril e a ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz, passagem vital para o transporte de petróleo global, a aversão ao risco disparou nos mercados internacionais. Investidores migraram para o dólar e ativos mais seguros, o que reduziu o fluxo de capital para bolsas de países emergentes, incluindo o Brasil.
No campo doméstico, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de março veio acima do esperado, registrando alta de 0,44% ante projeção de 0,29%, com as tarifas aéreas subindo quase 6%. A taxa de desemprego subiu para 5,8%, e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) cortou a projeção de crescimento do Brasil para 1,5% em 2026. As expectativas de inflação no Boletim Focus também pioraram, subindo de 4,17% para 4,31%.
As maiores altas e baixas de março no Ibovespa
Nem tudo foi negativo. O Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a taxa Selic pela primeira vez em quase dois anos, levando-a de 15% para 14,75% ao ano, um sinal de afrouxamento monetário que agradou ao mercado. O próprio petróleo caro, que tanto atrapalhou no front externo, beneficiou empresas como a Petrobras (PETR4), ajudando a segurar o índice nos momentos de maior pressão.
O fluxo estrangeiro acumulado no ano, de cerca de R$ 41,7 bilhões até o início de março, também funcionou como base de sustentação. Na última semana do mês, o Ibovespa chegou a subir 3%, encerrando uma sequência de quatro semanas seguidas de queda, sinal de que o mercado buscou se estabilizar após o choque.
A pedido do E-Investidor, Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, e Caio Tonet, diretor institucional da W1 Inc., avaliaram os papéis que mais se saíram bem e os que fracassaram em março.
No campo das altas, Prio (PRIO3) liderou o ranking ao combinar a valorização do petróleo com a abertura de novos poços no Campo de Wahoo, fechando o mês com alta de 21,51%. A Petrobras (PETR4) acumulou ganho de 23,5% desde o início do conflito no Oriente Médio, beneficiada diretamente pelo Brent acima de US$ 100, e fechou março em alta de 23,75%.
A Americanas (AMER3) disparou 15% em um único pregão após protocolar o pedido de encerramento da recuperação judicial, mas não conseguiu segurar a alta e terminou março em queda de 3%. Assaí (ASAI3) avançou 18% na última semana do mês após a entrada da Alaska Investimentos com aproximadamente 5% do capital da companhia, encerrando o período em alta de 1,5%. Tonet inclui na lista Ultrapar (UGPA3), que fechou em alta de 11,32%, e Copasa (CSMG3), que subiu 6,26% no mês.
Apesar de fechar março em alta de 14,71%, Natura (NATU3) perdeu 5,1% só no dia 26, num quadro de aversão ao consumo e ao varejo com juros altos. “A Natura teve desempenho positivo por fatores pontuais, como resultados corporativos, mas não reflete a tendência geral do segmento”, pondera Tonet. A empresa anunciou ainda, na noite de segunda-feira (30), um novo acordo de acionistas e um conjunto de mudanças relevantes em sua estrutura de capital e governança, que foram bem avaliadas pelo mercado
Do lado das perdas, CSN (CSNA3) acumula queda de 26,67% no período. O rebaixamento da nota de crédito pela Moody’s jogou luz sobre uma dívida líquida de R$ 37,5 bilhões que o mercado já encarava com desconfiança. Braskem (BRKM5) caiu 10,4% no dia do balanço, após registrar prejuízo de R$ 10,28 bilhões no quarto trimestre de 2025, e fechou o mês em queda de 2,09%. O número em si já seria suficiente para assustar, mas foram os auditores que aprofundaram o tombo ao levantar dúvidas formais sobre a continuidade operacional da empresa.
A Azul (AZUL4) recuou mais de 5% com um prejuízo de R$ 1,6 bilhão no mesmo período e uma reestruturação via Chapter 11 que ainda não tem desfecho claro, terminando março em queda de 1,57%. Raízen (RAIZ4) entrou em recuperação extrajudicial por dívidas de R$ 65,1 bilhões e viu suas ações caírem abaixo de R$ 1,00, fechando o mês em forte queda de 19,05%. Tonet inclui na lista Magazine Luiza (MGLU3), com baixa de quase 5% no fechamento do mês; Lojas Renner (LREN3), com tombo de 6,42% em março; MRV Engenharia (MRVE3), com forte queda de 23,05%; e Azzas 2154 (AZZA3), que caiu 2,18%.
Melhor entrada de capital externo desde 2022
Apesar de toda a turbulência, o investidor estrangeiro não deu as costas ao Brasil. O saldo de capital externo na B3 (B3SA3) em março deve fechar positivo, em torno de R$ 7,05 bilhões até o dia 24, bem acima dos R$ 3,1 bilhões registrados no mesmo período de 2025, segundo apuração do Broadcast. Com isso, o primeiro trimestre deste ano deve terminar com a melhor entrada de capital externo desde 2022, quando o período acumulou R$ 65,3 bilhões. Até então, o trimestre já somava R$ 48,7 bilhões.
Em 2022, o movimento foi fortalecido pelo preço elevado das commodities no contexto da guerra entre Ucrânia e Rússia. Já em 2026, o apelo do Brasil está em ações com valuation atrativo em comparação com mercados como o dos Estados Unidos, aliado ao início do ciclo de corte da Selic e à perspectiva eleitoral.
Fernando Siqueira, head de Research da Eleven Financial, aponta que o fluxo para o Brasil tem vindo da saída do mercado norte-americano, diante do encarecimento das ações americanas e da política imprevisível de Donald Trump. Para ele, a queda da Selic e as eleições de 2026 serão os principais motores do mercado. “Esses fatores podem atrair investidores estrangeiros, mas também os locais”, diz.
Daniel Gewehr, estrategista-chefe de ações do Itaú BBA, estima que a bolsa brasileira negocia com desconto de 5% em relação à média histórica e acredita que o fluxo externo deve continuar, a menos que o Federal Reserve passe a subir juros, o que não é o cenário base.
O que esperar para abril
O Ibovespa em abril tende a ser marcado por maior volatilidade, avaliam os estrategistas. Além da continuidade das tensões geopolíticas, o ambiente doméstico começa a incorporar com mais força as movimentações políticas em torno das eleições, o que pode gerar ruído adicional nos mercados. Por enquanto, Tonet avalia que o principal fator de risco segue sendo o petróleo.
“Caso os conflitos se intensifiquem, a commodity pode subir ainda mais, forçando a manutenção de juros elevados por mais tempo, um quadro negativo para ativos de risco. Por outro lado, uma eventual redução das tensões pode favorecer um ambiente mais benigno, com espaço para recuperação das bolsas. Mais do que projeções de nível para o índice, o momento exige atenção às variáveis macro e geopolíticas. Em comum entre os cenários, há uma expectativa clara: a volatilidade deve continuar elevada no curto prazo”, diz.
As projeções das principais casas para o fim de 2026 continuam otimistas para o Ibovespa: o banco Safra aponta 220 mil pontos, a XP Investimentos trabalha com 190 mil no cenário base e 235 mil no otimista, e o Bank of America estima entre 180 mil e 210 mil pontos, condicionados à disciplina fiscal e ao calendário eleitoral. Os principais gatilhos positivos são a continuidade do fluxo estrangeiro, novos cortes da Selic, acomodação do petróleo e compromisso fiscal. Do lado dos riscos, a escalada da guerra, a inflação persistente e a volatilidade eleitoral seguem como as principais ameaças a esse otimismo.